Claude Chabrol, um dos criadores da estética “nouvelle
vague” no cinema francês, fez um filme chamado “Os Primos”, onde um deles
era caipira bonzinho e o outro era metropolitano sacaninha, um casador e outro
comedor, ambos bonitões para os padrões de boniteza masculina da época – anos
1960.
Para compensar aquela exasperante lentidão da
“nova onda”, todas as atrizes eram gostosas e a história rolava em Paris, de
modo que a gente nem percebia aquela paradeira geral que nos permitia dar uns
amassos na namorada sem perder o fio da meada. Aliás, era sobre isso mesmo o roteiro:
muitas moças já estavam cansadas de preservar a virgindade até casar, o que
podia demorar muito e até nem acontecer, e os moços já estavam cansados de
resolver no banheiro ou no puteiro o desejo que ficava ainda pior depois de
deixá-las a seco em suas respectivas casas de família, coisa muito triste,
totalmente desnaturada. Ou vocês não choram ao saber que, naquele tempo, muitas
moças davam o cu só para não estragar o hímen? Monstruoso isso, não acham? Mas
era assim, posso afirmar: sem o “selo de garantia”, que garantia tínhamos nós,
os machos, sobre a pureza de sentimentos da nossa futura esposa, hm? Futura mãe
de nossos filhos, caramba! – quem ia fazer nenês num útero assim, já visitado
antes sabe-se lá por quantos inescrupulosos membros?
No filme, ambos os primos acabam angustiados,
até porque nouvelle vague sem angústia existencial não é nouvelle
vague. Eu assisti muitos e, na época, não gostava, achava um pé no saco.
Lembro, por exemplo, de “Noite Vazia” (do Walter Hugo Khouri), no qual só apreciei
mesmo aqueles cinco minutos com a Odete Lara e a Norma Benguel peladonas, que
eram realmente... momentos artísticos. Nos filmes franceses também tinha sempre
umas fêmeas nuas estimulantes, como Brigitte Bardot, Isabelle Adjani, Jeanne
Moreau, Anna Karina, Jean Sebberg, Danielle Darrieux, Geneviève Bujold... Em
todo caso, foi com elas que eu decidi deixar de ser caipira bonzinho namorador
e passar a ser cosmopolita sacaninha comedor. Eu, e a maioria dos então
adolescentes, meditando horas no banheiro de casa sobre a crueldade da
existência, enquanto punhetávamos desvairadamente sob inspiração da revista
Fatos & Fotos ou das revistinhas pedagógicas do Prof. Carlos Zéfiro.
Para ser honesto, não consegui tal
transformação, pela banal razão de que na minha família, apesar de tantas
primas lindinhas (ou por causa disso mesmo), as primas deviam ser pensadas como
orangotangos machos peludos. Daí não comi nenhuma, o que prova
cabalmente: arrependimento não mata – ou eu não estaria aqui escrevendo estas
besteiras.
Lembrei-me desse assunto porque ontem, tarde da
noite, já no segundo ou terceiro uísque Old Eight (oito meses envelhecido, ou
cês imaginam que músico velho bebe scotch?), fiquei sabendo que minha
prima Luciane Warick é também – vejam só que coincidência – filha do meu primo
Maurício e irmã do meu primo Danilo, e filha também de uma morenaça chamada
Yara, que meu primo malucão catou e não largou mais – ele é só maluco, besta
não.
Esse não foi um conhecimento fácil, devo
dizer-lhes, pois antes levei uma espinafração em regra da minha mulher,
apodando-me epítetos dos quais o mais suave foi "velho senil". Mas eu
não sabia, juro que não sabia. Não: que eu era um velho senil, já sabia; o que
eu ainda não sabia eram os detalhes dessa primice. Embora, ainda que soubesse,
não mudaria nada, pois continuaríamos todos sendo primos, porém quero contar
que essa foi uma revelação tão surpreendente quanto encantadora – na minha
família só temos gente encantadora, com perdão da imodéstia, porque os que não
são já nascem abortos. Bem, não nascem, propriamente; desnascem. Entenderam?
Nem eu, mas escutem, e depois me digam se eu sou ou não um caso adiantado de
Mal de Alzheimer. Caso seja, não chorem por mim; em vez disso, mandem-me litros
de azeite extra-virgem, que eu pretendo morrer como um espinafre feliz e
apetitoso.
Minha avó materna, Dona Izabel (uma chatinha que
me proibia doces pela manhã) era prima em primeiro grau de Dona Maria (que não
era uma chatinha). Essa Dona Maria doravante será chamada aqui simplesmente de
Maria Avó, pra não confundir com a Maria Mãe, que não era prima e só aparece
nesta explicação para produzir com o Hugo, meu primo em terceiro grau, um
pimpolho musical totalmente desvairado. Maria Avó era bem legalzona e até
“recebia” um preto-velho, Pai Matias, batuta para dar bons conselhos.
Sei dizer que, um belo dia, Maria Avó casou-se
com certo Engenheiro Warick, tão fudido em suas praias mecânicas que foi o
primeiro brasileiro a construir enormes canhões em cima de enormes vagões
ferroviários que depois viajavam em bitolas estreitas para dar tiros
grandiosamente fedidos em plantações de eucalipto nas adjacências da Revolução
Constitucionalista de 1932. Pois foi num intervalo desses tiros, assim que uma
fumaça se dissipou e antes que uma nova fosse disparada, que esse Eng.º
Maurício Warick vislumbrou, apaixonou-se, enamorou-se, noivou e finalmente se
casou com a Maria Avó. Aliás, foi aí que ela começou a virar avó; antes era só
uma honesta moça católica, Filha de Maria e tudo, conquanto já com uma quedinha
para o espiritismo. Não, caramba, cês não tão entendendo: essa outra Maria, de
quem ela era filha, era a Virgem Maria, só isso. Ah, esquece. Mas prestem bem
atenção, posto que essa família tem pelo menos três Maurício Warick: o Avô
Eng.º, o Tio Normal e o Sobrinho Anormal.
O prefixo grego "a", que
quase todo mundo pensa dar sentido negativo à palavra nele grudada, é de fato
conhecido no mundo da lingüística e da semiologia como "alfa
privativo": não nega pôrra nenhuma; indica transcendência. Portanto, anormal,
saibam vocês que ignoram isso, não quer dizer que não seja normal; significa
"aquele que transcende a normalidade", caso desse meu primo, o
terceiro dos Warick, aqui denominado Maurício Anormal. Entenderam?
Que bom! É por isso que eu só gosto de escrever coisas bonitas para
serem lidas por gente inteligente; odeio os muito burros, tanto que, se eu
fosse Herodes, não perdia tempo mandando matar criancinhas com pintinho, matava
logo todos os cretinos de qualquer gênero.
Recapitulando: o Eng.º, o Normal e o Anormal,
todos Maurícios — que os Warick devem achar o nome mais lindo do mundo, com a
vantagem de não estar na Bíblia Sagrada, até porque é um nome meio bárbaro,
proveniente do cruzamento de romanos com ostrogodos e eslavônios. O pior,
nisso tudo, é que Maurício III vai continuar sendo chamado de Inho até no Juízo
Final, ninguém merece...
-- Cê viu a última do Mauricinho?!
Há muitos e muitos anos, no tempo em que os
bichos ainda falavam, eu ia a festas de aniversário na Lapa ou em Osasco ou na
Vila Mariana ou no Pari ou em Campinas ou Ribeirão Preto ou Itararé ou alhures,
e tinha sempre uma ou duas moças com seus filhotinhos ainda babões e
desdentados. Tudo primo meu, um monte. Família produtiva – verdadeira
coelheira, parece que não faziam outra coisa além de sururucar, o que não é
verdade; faziam sim, posso testemunhar. Mas que eram aplicados em fazer filhos,
lá isso eram, graças a Deus. E não estou falando só das crianças dos Warick:
falo de Santos, Ribeiros, Zimmermanns, Aranhas, Gorskis, Colbachinis, Arruda
Campos, Martins... era um bando de nenês, e a cada festa apareciam mais nenês
nos filmes Super-8 que o Américo sempre fazia. Passava o tempo e os antigos
nenês eram substituídos por novos, enquanto os mais taludinhos entupiam as
festas e subiam nas paredes e no teto e na cabeça da gente, todos primos, cês
não fazem ideia de quantos primos eu tenho – se fosse decorar o nome de todos,
não me teriam (cuidado com o cacófato) sobrado neurônios nem pra decorar a
tabuada do 8, que até hoje me causa uma certo desconforto.
A Luciane certamente estava lá, no meio dessa
criançada, mas aos meus olhos devia ser como uma japonesa a mais no metrô de
Tóquio às seis da tarde de uma sexta-feira em dia de terremoto. Devia estar lá,
acho eu, mas nem isso posso afirmar assim, na maior; podia não estar, ora!
E onde estaria, se não estivesse lá, hem?! Pois
em verdade vos digo que poderia muito bem não estar lá, estando então
aprontando alguma calamidade pública em parceria com a Flávia, a Veterinária,
que nem é minha prima, é sobrinha. Se tivessem me falado "a Luciane, prima
da Flávia", tudo bem, só podia ser aquela; agora: falar "a
Luciane, filha do Maurício", não quer dizer nada: qual Maurício, cara
pálida? O Eng.º dos Canhões, o Normal de Osasco ou o Anormal da Lapa de Baixo?
Ou algum outro que eu nem conheço?
"Essa" Luciane eu conheço, até
esteve na minha casa em Cotia City. E recebi dela vários emails, encaminhados
naquela maravilhosa época da Grande Hecatombe Warickal – quem não viu "Laís
do Américo x Mauricinho" perdeu coisa melhor do que a Copa de 70, dose
pra Buñuel + Fellini + Almodóvar + Tarkovsky – menos que isso seria impossível
produzirem. Mas o Mauricinho (ou Maurício Anormal, pra manter a nomenclatura)
conseguiu sozinho essa proeza. Sendo que, num filme assim, pra botar um cartaz
na entrada do cinema teriam que chamar Salvador Dali para desenhar, pois era
totalmente surreal, supra-real, pra lá de real. Pensando bem, era dose pra
Ionesco, Teatro do Absurdo. Ah: não havia outras Laíses na família, mas a Laís
do Américo (também prima minha) era casada com Américo dos Santos Martins, um
tipo visto e considerado na família assim como um Moisés depois de atravessar o
Mar Vermelho sem molhar os pés – tipo Vice-Deus, manja? Já faleceu, mas dizem
as más línguas que até levantou do túmulo durante aquele "Deus e o
Diabo na Lapa de Baixo"; se ele levantou mesmo, não sei, mas pode até
ter levantado somente pra dar muita risada junto comigo, kkkkkkk (rsrsrs) blz
mano?
Finalmente, para não deixar dúvidas – vai que
tem outras Lucianes, nessa família ninguém sabe – conto que essa
Luciane é sobrinha da Pérola Regina, minha ex-cunhada, que me levou pra
conhecer a lanchonete Twelve e a quem devo até hoje o valor de um X-Salada e
uma Fanta Laranja — foi num momento, não de todo incomum, em que eu estava
temporariamente falido. Só cito essa jóia da família para deixar as coisas nos
conformes, bem legais (jurídicas e bacanas), já que depois de tornar-se ex
resolveu banir-me de seu alegre convívio, bem como a todos os Zimmermann Aranha
(exceto os três filhos que ela não tem como banir, estando condenada a todos per
omnia secula seculorum).
Muito prazer, Maurício Pai da Luciane,
recomendações à família.
P.S.:
Perdão,
Cristina Maura.
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