terça-feira, 28 de maio de 2013

26 - LES COUSINS

Claude Chabrol, um dos criadores da estética “nouvelle vague” no cinema francês, fez um filme chamado “Os Primos”, onde um deles era caipira bonzinho e o outro era metropolitano sacaninha, um casador e outro comedor, ambos bonitões para os padrões de boniteza masculina da época – anos 1960.
Para compensar aquela exasperante lentidão da “nova onda”, todas as atrizes eram gostosas e a história rolava em Paris, de modo que a gente nem percebia aquela paradeira geral que nos permitia dar uns amassos na namorada sem perder o fio da meada. Aliás, era sobre isso mesmo o roteiro: muitas moças já estavam cansadas de preservar a virgindade até casar, o que podia demorar muito e até nem acontecer, e os moços já estavam cansados de resolver no banheiro ou no puteiro o desejo que ficava ainda pior depois de deixá-las a seco em suas respectivas casas de família, coisa muito triste, totalmente desnaturada. Ou vocês não choram ao saber que, naquele tempo, muitas moças davam o cu só para não estragar o hímen? Monstruoso isso, não acham? Mas era assim, posso afirmar: sem o “selo de garantia”, que garantia tínhamos nós, os machos, sobre a pureza de sentimentos da nossa futura esposa, hm? Futura mãe de nossos filhos, caramba! – quem ia fazer nenês num útero assim, já visitado antes sabe-se lá por quantos inescrupulosos membros?
No filme, ambos os primos acabam angustiados, até porque nouvelle vague sem angústia existencial não é nouvelle vague. Eu assisti muitos e, na época, não gostava, achava um pé no saco. Lembro, por exemplo, de “Noite Vazia” (do Walter Hugo Khouri), no qual só apreciei mesmo aqueles cinco minutos com a Odete Lara e a Norma Benguel peladonas, que eram realmente... momentos artísticos. Nos filmes franceses também tinha sempre umas fêmeas nuas estimulantes, como Brigitte Bardot, Isabelle Adjani, Jeanne Moreau, Anna Karina, Jean Sebberg, Danielle Darrieux, Geneviève Bujold... Em todo caso, foi com elas que eu decidi deixar de ser caipira bonzinho namorador e passar a ser cosmopolita sacaninha comedor. Eu, e a maioria dos então adolescentes, meditando horas no banheiro de casa sobre a crueldade da existência, enquanto punhetávamos desvairadamente sob inspiração da revista Fatos & Fotos ou das revistinhas pedagógicas do Prof. Carlos Zéfiro.
Para ser honesto, não consegui tal transformação, pela banal razão de que na minha família, apesar de tantas primas lindinhas (ou por causa disso mesmo), as primas deviam ser pensadas como orangotangos machos peludos. Daí não comi nenhuma, o que prova cabalmente: arrependimento não mata – ou eu não estaria aqui escrevendo estas besteiras.     
Lembrei-me desse assunto porque ontem, tarde da noite, já no segundo ou terceiro uísque Old Eight (oito meses envelhecido, ou cês imaginam que músico velho bebe scotch?), fiquei sabendo que minha prima Luciane Warick é também – vejam só que coincidência – filha do meu primo Maurício e irmã do meu primo Danilo, e filha também de uma morenaça chamada Yara, que meu primo malucão catou e não largou mais – ele é só maluco, besta não.
Esse não foi um conhecimento fácil, devo dizer-lhes, pois antes levei uma espinafração em regra da minha mulher, apodando-me epítetos dos quais o mais suave foi "velho senil". Mas eu não sabia, juro que não sabia. Não: que eu era um velho senil, já sabia; o que eu ainda não sabia eram os detalhes dessa primice. Embora, ainda que soubesse, não mudaria nada, pois continuaríamos todos sendo primos, porém quero contar que essa foi uma revelação tão surpreendente quanto encantadora – na minha família só temos gente encantadora, com perdão da imodéstia, porque os que não são já nascem abortos. Bem, não nascem, propriamente; desnascem. Entenderam? Nem eu, mas escutem, e depois me digam se eu sou ou não um caso adiantado de Mal de Alzheimer. Caso seja, não chorem por mim; em vez disso, mandem-me litros de azeite extra-virgem, que eu pretendo morrer como um espinafre feliz e apetitoso.
Minha avó materna, Dona Izabel (uma chatinha que me proibia doces pela manhã) era prima em primeiro grau de Dona Maria (que não era uma chatinha). Essa Dona Maria doravante será chamada aqui simplesmente de Maria Avó, pra não confundir com a Maria Mãe, que não era prima e só aparece nesta explicação para produzir com o Hugo, meu primo em terceiro grau, um pimpolho musical totalmente desvairado. Maria Avó era bem legalzona e até “recebia” um preto-velho, Pai Matias, batuta para dar bons conselhos.
Sei dizer que, um belo dia, Maria Avó casou-se com certo Engenheiro Warick, tão fudido em suas praias mecânicas que foi o primeiro brasileiro a construir enormes canhões em cima de enormes vagões ferroviários que depois viajavam em bitolas estreitas para dar tiros grandiosamente fedidos em plantações de eucalipto nas adjacências da Revolução Constitucionalista de 1932. Pois foi num intervalo desses tiros, assim que uma fumaça se dissipou e antes que uma nova fosse disparada, que esse Eng.º Maurício Warick vislumbrou, apaixonou-se, enamorou-se, noivou e finalmente se casou com a Maria Avó. Aliás, foi aí que ela começou a virar avó; antes era só uma honesta moça católica, Filha de Maria e tudo, conquanto já com uma quedinha para o espiritismo. Não, caramba, cês não tão entendendo: essa outra Maria, de quem ela era filha, era a Virgem Maria, só isso. Ah, esquece. Mas prestem bem atenção, posto que essa família tem pelo menos três Maurício Warick: o Avô Eng.º, o Tio Normal e o Sobrinho Anormal.
O prefixo grego "a", que quase todo mundo pensa dar sentido negativo à palavra nele grudada, é de fato conhecido no mundo da lingüística e da semiologia como "alfa privativo": não nega pôrra nenhuma; indica transcendência. Portanto, anormal, saibam vocês que ignoram isso, não quer dizer que não seja normal; significa "aquele que transcende a normalidade", caso desse meu primo, o terceiro dos Warick, aqui denominado Maurício Anormal.  Entenderam?  Que bom!  É por isso que eu só gosto de escrever coisas bonitas para serem lidas por gente inteligente; odeio os muito burros, tanto que, se eu fosse Herodes, não perdia tempo mandando matar criancinhas com pintinho, matava logo todos os cretinos de qualquer gênero.
Recapitulando: o Eng.º, o Normal e o Anormal, todos Maurícios — que os Warick devem achar o nome mais lindo do mundo, com a vantagem de não estar na Bíblia Sagrada, até porque é um nome meio bárbaro, proveniente do cruzamento de romanos com ostrogodos e eslavônios.  O pior, nisso tudo, é que Maurício III vai continuar sendo chamado de Inho até no Juízo Final, ninguém merece...
-- Cê viu a última do Mauricinho?!
Há muitos e muitos anos, no tempo em que os bichos ainda falavam, eu ia a festas de aniversário na Lapa ou em Osasco ou na Vila Mariana ou no Pari ou em Campinas ou Ribeirão Preto ou Itararé ou alhures, e tinha sempre uma ou duas moças com seus filhotinhos ainda babões e desdentados. Tudo primo meu, um monte. Família produtiva – verdadeira coelheira, parece que não faziam outra coisa além de sururucar, o que não é verdade; faziam sim, posso testemunhar. Mas que eram aplicados em fazer filhos, lá isso eram, graças a Deus. E não estou falando só das crianças dos Warick: falo de Santos, Ribeiros, Zimmermanns, Aranhas, Gorskis, Colbachinis, Arruda Campos, Martins... era um bando de nenês, e a cada festa apareciam mais nenês nos filmes Super-8 que o Américo sempre fazia. Passava o tempo e os antigos nenês eram substituídos por novos, enquanto os mais taludinhos entupiam as festas e subiam nas paredes e no teto e na cabeça da gente, todos primos, cês não fazem ideia de quantos primos eu tenho – se fosse decorar o nome de todos, não me teriam (cuidado com o cacófato) sobrado neurônios nem pra decorar a tabuada do 8, que até hoje me causa uma certo desconforto. 
A Luciane certamente estava lá, no meio dessa criançada, mas aos meus olhos devia ser como uma japonesa a mais no metrô de Tóquio às seis da tarde de uma sexta-feira em dia de terremoto. Devia estar lá, acho eu, mas nem isso posso afirmar assim, na maior; podia não estar, ora!
E onde estaria, se não estivesse lá, hem?! Pois em verdade vos digo que poderia muito bem não estar lá, estando então aprontando alguma calamidade pública em parceria com a Flávia, a Veterinária, que nem é minha prima, é sobrinha. Se tivessem me falado "a Luciane, prima da Flávia", tudo bem, só podia ser aquela; agora: falar "a Luciane, filha do Maurício", não quer dizer nada: qual Maurício, cara pálida? O Eng.º dos Canhões, o Normal de Osasco ou o Anormal da Lapa de Baixo? Ou algum outro que eu nem conheço?
"Essa" Luciane eu conheço, até esteve na minha casa em Cotia City. E recebi dela vários emails, encaminhados naquela maravilhosa época da Grande Hecatombe Warickal – quem não viu "Laís do Américo x Mauricinho" perdeu coisa melhor do que a Copa de 70, dose pra Buñuel + Fellini + Almodóvar + Tarkovsky – menos que isso seria impossível produzirem. Mas o Mauricinho (ou Maurício Anormal, pra manter a nomenclatura) conseguiu sozinho essa proeza. Sendo que, num filme assim, pra botar um cartaz na entrada do cinema teriam que chamar Salvador Dali para desenhar, pois era totalmente surreal, supra-real, pra lá de real. Pensando bem, era dose pra Ionesco, Teatro do Absurdo. Ah: não havia outras Laíses na família, mas a Laís do Américo (também prima minha) era casada com Américo dos Santos Martins, um tipo visto e considerado na família assim como um Moisés depois de atravessar o Mar Vermelho sem molhar os pés – tipo Vice-Deus, manja? Já faleceu, mas dizem as más línguas que até levantou do túmulo durante aquele "Deus e o Diabo na Lapa de Baixo"; se ele levantou mesmo, não sei, mas pode até ter levantado somente pra dar muita risada junto comigo, kkkkkkk (rsrsrs) blz mano?
Finalmente, para não deixar dúvidas – vai que tem outras Lucianes, nessa família ninguém sabe – conto que essa Luciane é sobrinha da Pérola Regina, minha ex-cunhada, que me levou pra conhecer a lanchonete Twelve e a quem devo até hoje o valor de um X-Salada e uma Fanta Laranja — foi num momento, não de todo incomum, em que eu estava temporariamente falido. Só cito essa jóia da família para deixar as coisas nos conformes, bem legais (jurídicas e bacanas), já que depois de tornar-se ex resolveu banir-me de seu alegre convívio, bem como a todos os Zimmermann Aranha (exceto os três filhos que ela não tem como banir, estando condenada a todos per omnia secula seculorum).
Muito prazer, Maurício Pai da Luciane, recomendações à família.


P.S.: Perdão, Cristina Maura.

Nenhum comentário: