terça-feira, 28 de maio de 2013

25 - JOÃO GILBERTO x TOM JOBIM

Olá Fred!
Já ouvi ao vivo de você (mas não entendi) e ainda hoje as dúvidas não querem calar:
-- Por que o João é o João (o mais "fodido" em sua opinião) e o Tom e o resto são coisas menores?
-- Tom Jobim, em termos de composição, é meu maior ídolo. O que faz você dizer que não existe na MPB nada melhor que o João, que (acho) nunca como compositor (se é que foi) teve um hit de sucesso de própria autoria?
-- Por que eles brigaram?
É só pra saber sua opinião, sem criar barracos... rs.

*    *    *    *

Vieram de Maurício Warick III essas perguntas. Dado que escrevi e dediquei a esse Sr. minha Sinfonia Fractal, elas mostram que não gasto dedicatórias à toa: se tem um assunto sobre o qual eu gostaria de esclarecer minhas opiniões, é esse aí. Então vamos tentar abrir esse barraco à visitação pública.
Quando o genial Ary Barroso apresentava um programa de calouros na TV, era comum acontecer um diálogo assim:
-- O que você vai cantar, Lucas dos Santos?
-- Eu... vou tentar cantar “Aquarela do Brasil”.
-- Ah, não vai tentar não, meu filho! Primeiro, porque não existe uma música chamada Aquarela do Brasil, sei de uma Aquarela Brasileira, até sou muito amigo do compositor... Mas isso nem vem ao caso; é que neste programa as pessoas não vêm pra tentar fazer nada, elas vêm só pra fazer uma coisa: cantar. Então você ensaia melhor, volta na semana que vem e canta mesmo, tá bom? E emendava -- O próximo candidato é... Wesleysson Silva, com quatro S... O Sr. seu pai é sueco, Seo Silva?
Ary, um dos “dez mais” em qualquer lista de quem conhece bem a música popular brasileira, era idolatrado pelos (então jovens) músicos Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Além de Ary, era coincidente sua admiração sobre Noel Rosa, Pixinguinha, Villa-Lobos, Garoto... Ambos também eram fãs da música americana, Gershwin, Cole Porter, Frank Sinatra, John Coltrane... Mas João sempre se disse sambista, enquanto Tom sempre se definiu como compositor de modinhas – e são isso mesmo, se analisamos com atenção as suas biografias musicais. Como trabalharam “juntos” muitas vezes – ou, falando em português honesto, João Gilberto gestou e pariu ao mundo algumas dezenas das primeiras gravações de composições do amigo – e juntos percorrem toda a MPB desde 1958 (e para sempre), podemos analisar certas coisas que ajudem a responder qual dos dois foi musicalmente mais importante para a nossa música. Não que isso realmente importe; é apenas uma agradável discussão inofensiva entre dois músicos sinceros, como o Maurício e eu. Pergunto: haveria um Bach sem Monteverdi, Buxtehude, Rameau, Vivaldi, Händel? Haveria uma galinha sem ovo? Ou um ovo sem galinha? Anjos têm pintinho ou bucetinha? Eu acho isso bão demais da conta, sô! Então respondo, ora!
Começando pelo disco vinil “Canção do Amor Demais”, da famosa cantora Elizeth Cardoso, chamada “A Divina” – que era, por sua vez, fã de Vicente Celestino: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer”... Das 13 músicas desse LP (long playing) Tom compôs 11, sendo as outras duas de Vinícius de Moraes, que é autor de todas as letras (pra quem não sabe, também compunha boa música, apesar do violãozinho merreca que tocava). Tom fez os arranjos da reduzida orquestra e regeu na gravação. O violonista arregimentado pelo dono do selo Festa, que jogava nessa produção todas as suas parcas economias, era um músico de cachê mixuruca, João Gilberto. Foi com ele, às vésperas de iniciarem as gravações, que Jobim teve sua grande revelação: é preciso mudar tudo.
Todas as canções eram lindas e convencionais. Todos os arranjos eram lindos e convencionais. As únicas coisas novas eram o violão e o uso que se passou a fazer das dissonâncias harmônicas – o mundo nunca tinha ouvido antes um violão tocado assim; quanto aos acordes, eram os mesmos usados pelos jazzistas americanos, mas os palpites daquele carinha tímido (e abusado) mudaram para sempre a cultura musical do Brasil. Consta que Tom e João não brigaram dessa vez, porque um gênio percebe imediatamente um gênio ainda maior; um babou, o outro emprestou o guardanapo. Essas gravações dividem em duas partes a história da música popular brasileira: antes e depois. Fiat Lux!
Eu nunca disse que Jobim e “os outros” são menores; eu disse, e gostaria de demonstrar como fato musical técnico e estético, que esses “outros” são menores do que João Gilberto. Com certeza teríamos perdido centenas de melodias maravilhosas se Tom não fosse o gênio inventor que foi; mas não haveria esse Tom Jobim a se perder se não existisse um João Gilberto anterior e superior. Outra coisa: depois do vexame total que Tom Jobim deu no famoso concerto do Carnegie Hall em 1962, foi João Gilberto – que imediatamente virou ídolo dos maiores artistas e críticos americanos – quem “limpou a barra” e explicou melhor aos gringos o tamanho de Antonio Jobim. Fosse pouco, foi com o sobretudo emprestado de João que Tom enfrentou os primeiros meses de Nova York, até conseguir algum trampo decente. Até chegar no Frank Sinatra, levou um tempão, mesmo ajudado por João Gilberto, Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Aloysio de Oliveira... 
João Gilberto compõe, sim, e no mínimo tão bem quanto seu discípulo. Apenas não se dedicou a isso, porque seu principal objetivo musical era a perfeição dos deuses. Escutem “Um Abraço No Bonfá” e “Bim Bom” (esta também antológica, e continuou D+ na gravação que Adriana Calcanhotto fez com o grupo Olodum)nem precisa mais.
Com quem ele aprendeu? Bem, durante o ano de 1955 estudou harmonia com Radamés Gnatalli (que foi o sucessor de Pixinguinha como arranjador da gravadora RCA Victor, autor do conhecido arranjo de “Carinhoso” para a gravação de Orlando Silva, entre outros mil que não importam aqui). João era um ótimo aluno; Tom – isso me contou Koellreutter, primeiro mestre dele, de viva voz – era pouco aplicado aos assuntos em estudo, sempre mais ocupado em tocar coisas do que em estuda-las. Foi assim também com Nadia Boulanger, mas com ela finalmente aprendeu algumas das coisas que lhe interessavam na prática.
Por que os americanos consideram João uma das grandes influências do jazz moderno? Por que nunca disseram isso do compositor de “Garota de Ipanema”?  E, já que falamos em hits, por que essa manjadíssima garota é menos conhecida internacionalmente do que “Tico-Tico No Fubá” (Zequinha de Abreu) ou “Aquarela Brasileira” (Ary Barroso)? Mas podemos pensar ao contrário: que, se João Gilberto não compôs nada que tenha chegado às paradas de sucesso comercial, Michel Teló compôs – pois um sucesso não é referência senão de si mesmo.
Liszt foi um superstar do seu tempo; Chopin não foi, embora seja hoje o compositor mais executado do mundo (ao lado de Tchaikovsky, que nunca criou uma única pausa realmente nova). Bach, em vida, foi um fracasso comercial; Beethoven passava apuros pra receber uns trocos atrasados e pagar o médico. Mozart morria na miséria enquanto seu amigo Antonio Salieri bombava no You Tube (se você nunca ouviu Salieri, não perca seu tempo). Imagino que seja muito bom fazer sucesso (não sei, nunca fiz, nem quando ainda tentava), mas na verdade, em arte, sucesso é uma coisa perigosa – quando o rebanho muge muito, no mínimo tem algum leão por perto.
Músicos brigam, e pela mesma simples razão de que pessoas brigam. O Diabo é o Outro, já avisava Sartre. Nunca ouvi dizer que João e Tom tenham “ficado de mal à morte”; eram dois músicos que trabalhavam muito para viver (e para pagar pensões de divórcios a filhos e ex-mulheres), e nunca formaram uma dupla permanente. Agora: qual é o arranjador que aceita trabalhar no disco de um cantor que pede coisas assim – “Eu quero que os 32 violinos façam só duas notas em uníssono no compasso 108, e depois fiquem em silêncio o resto da música”? Convenhamos que é um tremendo de um chato. Porém, convenhamos, estamos falando de um chato que é gênio, inalcançado e inalcançável. Daí que só cabem mesmo duas notas em uníssono no compasso 108, bobagem tentar colocar três – aliás, eu experimentei coisas assim diversas vezes, tocando junto com gravações d’Ele, e verificando que isso é uma bobagenzinha infantil.
O meu maior ídolo em termos de composição é J. S. Bach; o do Maurício é A. C. Jobim. – e não podemos dizer que um seja melhor que o outro em termos absolutos, e muito menos afirmar que algum deles seja menos indispensável para o conjunto de toda a Beleza já criada pela civilização humana. Quanto ao João Gilberto, eu sempre faço uma ressalva: é o mais importante músico brasileiro depois da chegada de Pedro Álvares Cabral. Eu conheci um índio, pajé no Xingu, que está quase no mesmo nível musical do João; por isso admito que tenha havido alguém maior antes de 1500 d.C., mas d.J.G. com certeza não teve.


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