Olá Fred!
Já ouvi ao vivo de
você (mas não entendi) e ainda hoje as dúvidas não querem calar:
-- Por que o João é o João (o mais
"fodido" em sua opinião) e o Tom e o resto são coisas menores?
-- Tom Jobim, em termos de
composição, é meu maior ídolo. O que faz você dizer que não existe na MPB nada
melhor que o João, que (acho) nunca como compositor (se é que foi) teve um hit
de sucesso de própria autoria?
-- Por que eles brigaram?
É só pra saber sua opinião, sem
criar barracos... rs.
*
* * *
Vieram de Maurício Warick III essas
perguntas. Dado que escrevi e dediquei a esse Sr. minha Sinfonia
Fractal, elas mostram que não gasto dedicatórias à toa: se tem um
assunto sobre o qual eu gostaria de esclarecer minhas opiniões, é esse aí.
Então vamos tentar abrir esse barraco à visitação pública.
Quando o genial Ary Barroso
apresentava um programa de calouros na TV, era comum acontecer um diálogo
assim:
-- O que você vai cantar,
Lucas dos Santos?
-- Eu... vou tentar cantar
“Aquarela do Brasil”.
-- Ah, não vai tentar não,
meu filho! Primeiro, porque não existe uma música chamada Aquarela do Brasil,
sei de uma Aquarela Brasileira, até sou muito amigo do compositor... Mas isso
nem vem ao caso; é que neste programa as pessoas não vêm pra tentar fazer nada,
elas vêm só pra fazer uma coisa: cantar. Então você ensaia melhor, volta na
semana que vem e canta mesmo, tá bom? E emendava -- O próximo
candidato é... Wesleysson Silva, com quatro S... O Sr. seu pai é sueco, Seo
Silva?
Ary, um dos “dez mais” em qualquer
lista de quem conhece bem a música popular brasileira, era idolatrado pelos
(então jovens) músicos Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e João
Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Além de Ary, era coincidente sua admiração
sobre Noel Rosa, Pixinguinha, Villa-Lobos, Garoto... Ambos também eram fãs da
música americana, Gershwin, Cole Porter, Frank Sinatra, John Coltrane... Mas
João sempre se disse sambista, enquanto Tom sempre se definiu como compositor
de modinhas – e são isso mesmo, se analisamos com atenção as suas biografias
musicais. Como trabalharam “juntos” muitas vezes – ou, falando em português
honesto, João Gilberto gestou e pariu ao mundo algumas dezenas das primeiras
gravações de composições do amigo – e juntos percorrem toda a MPB desde 1958 (e
para sempre), podemos analisar certas coisas que ajudem a responder qual dos
dois foi musicalmente mais importante para a nossa música. Não que isso
realmente importe; é apenas uma agradável discussão inofensiva entre dois
músicos sinceros, como o Maurício e eu. Pergunto: haveria um Bach sem
Monteverdi, Buxtehude, Rameau, Vivaldi, Händel? Haveria uma galinha sem ovo? Ou
um ovo sem galinha? Anjos têm pintinho ou bucetinha? Eu acho isso bão demais da
conta, sô! Então respondo, ora!
Começando pelo disco vinil “Canção
do Amor Demais”, da famosa cantora Elizeth Cardoso, chamada “A Divina”
– que era, por sua vez, fã de Vicente Celestino: “Tornei-me um ébrio e
na bebida busco esquecer”... Das 13 músicas desse LP (long playing)
Tom compôs 11, sendo as outras duas de Vinícius de Moraes, que é autor de todas
as letras (pra quem não sabe, também compunha boa música, apesar do violãozinho
merreca que tocava). Tom fez os arranjos da reduzida orquestra e regeu na
gravação. O violonista arregimentado pelo dono do selo Festa, que jogava nessa
produção todas as suas parcas economias, era um músico de cachê mixuruca, João
Gilberto. Foi com ele, às vésperas de iniciarem as gravações, que Jobim teve
sua grande revelação: é preciso mudar tudo.
Todas as canções eram lindas e
convencionais. Todos os arranjos eram lindos e convencionais. As únicas coisas
novas eram o violão e o uso que se passou a fazer das dissonâncias harmônicas –
o mundo nunca tinha ouvido antes um violão tocado assim; quanto aos acordes,
eram os mesmos usados pelos jazzistas americanos, mas os palpites daquele
carinha tímido (e abusado) mudaram para sempre a cultura musical do Brasil.
Consta que Tom e João não brigaram dessa vez, porque um gênio percebe
imediatamente um gênio ainda maior; um babou, o outro emprestou o guardanapo.
Essas gravações dividem em duas partes a história da música popular brasileira:
antes e depois. Fiat Lux!
Eu nunca disse que Jobim e “os
outros” são menores; eu disse, e gostaria de demonstrar como fato
musical técnico e estético, que esses “outros” são menores do que João
Gilberto. Com certeza teríamos perdido centenas de melodias maravilhosas se Tom
não fosse o gênio inventor que foi; mas não haveria esse Tom
Jobim a se perder se não existisse um João Gilberto anterior e superior. Outra
coisa: depois do vexame total que Tom Jobim deu no famoso concerto do Carnegie
Hall em 1962, foi João Gilberto – que imediatamente virou ídolo dos maiores
artistas e críticos americanos – quem “limpou a barra” e explicou melhor aos
gringos o tamanho de Antonio Jobim. Fosse pouco, foi com o sobretudo emprestado
de João que Tom enfrentou os primeiros meses de Nova York, até conseguir algum
trampo decente. Até chegar no Frank Sinatra, levou um tempão, mesmo ajudado por
João Gilberto, Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Aloysio de Oliveira...
João Gilberto compõe, sim, e no
mínimo tão bem quanto seu discípulo. Apenas não se dedicou a isso, porque seu
principal objetivo musical era a perfeição dos deuses. Escutem “Um
Abraço No Bonfá” e “Bim Bom” (esta também antológica,
e continuou D+ na gravação que Adriana Calcanhotto fez com o grupo Olodum); nem
precisa mais.
Com quem ele aprendeu? Bem, durante
o ano de 1955 estudou harmonia com Radamés Gnatalli (que foi o sucessor de
Pixinguinha como arranjador da gravadora RCA Victor, autor do conhecido arranjo
de “Carinhoso” para a gravação de Orlando Silva, entre outros mil que não
importam aqui). João era um ótimo aluno; Tom – isso me contou Koellreutter,
primeiro mestre dele, de viva voz – era pouco aplicado aos assuntos em estudo,
sempre mais ocupado em tocar coisas do que em estuda-las. Foi assim também com
Nadia Boulanger, mas com ela finalmente aprendeu algumas das coisas que lhe
interessavam na prática.
Por que os americanos consideram
João uma das grandes influências do jazz moderno? Por que nunca disseram isso
do compositor de “Garota de Ipanema”? E, já que falamos
em hits, por que essa manjadíssima garota é menos conhecida
internacionalmente do que “Tico-Tico No Fubá” (Zequinha de
Abreu) ou “Aquarela Brasileira” (Ary Barroso)? Mas
podemos pensar ao contrário: que, se João Gilberto não compôs nada que tenha
chegado às paradas de sucesso comercial, Michel Teló compôs – pois um sucesso
não é referência senão de si mesmo.
Liszt foi um superstar do seu tempo;
Chopin não foi, embora seja hoje o compositor mais executado do mundo (ao lado
de Tchaikovsky, que nunca criou uma única pausa realmente nova). Bach, em vida,
foi um fracasso comercial; Beethoven passava apuros pra receber uns trocos
atrasados e pagar o médico. Mozart morria na miséria enquanto seu amigo Antonio
Salieri bombava no You Tube (se você nunca ouviu Salieri, não perca seu tempo).
Imagino que seja muito bom fazer sucesso (não sei, nunca fiz, nem quando ainda tentava),
mas na verdade, em arte, sucesso é uma coisa perigosa – quando o rebanho muge
muito, no mínimo tem algum leão por perto.
Músicos brigam, e pela mesma simples
razão de que pessoas brigam. O Diabo é o Outro, já avisava Sartre. Nunca ouvi
dizer que João e Tom tenham “ficado de mal à morte”; eram dois músicos que
trabalhavam muito para viver (e para pagar pensões de divórcios a filhos e
ex-mulheres), e nunca formaram uma dupla permanente. Agora: qual é o arranjador
que aceita trabalhar no disco de um cantor que pede coisas assim – “Eu
quero que os 32 violinos façam só duas notas em uníssono no compasso 108, e
depois fiquem em silêncio o resto da música”? Convenhamos que é um
tremendo de um chato. Porém, convenhamos, estamos falando de um chato que é
gênio, inalcançado e inalcançável. Daí que só cabem mesmo duas notas em
uníssono no compasso 108, bobagem tentar colocar três – aliás, eu experimentei
coisas assim diversas vezes, tocando junto com gravações d’Ele, e verificando
que isso é uma bobagenzinha infantil.
O meu maior ídolo em termos de
composição é J. S. Bach; o do Maurício é A. C. Jobim. – e não podemos dizer que
um seja melhor que o outro em termos absolutos, e muito menos afirmar que algum
deles seja menos indispensável para o conjunto de toda a Beleza já criada pela
civilização humana. Quanto ao João Gilberto, eu sempre faço uma ressalva: é o
mais importante músico brasileiro depois da chegada de Pedro Álvares Cabral. Eu
conheci um índio, pajé no Xingu, que está quase no mesmo nível musical do João;
por isso admito que tenha havido alguém maior antes de 1500 d.C., mas d.J.G.
com certeza não teve.
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