Vejam essa letra de música, que copiei da Internet:
Intro:
A D7(9)
A7+
Bm7
Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar
E7(9)
Se até cantar sobre
A7+
Bm7
Me diz
meu Deus o que é que eu vou cantar? ,
E7(9) C7+
já foi cantado por alguém,
Dm7 G7(9) Ab7(9) Ab7(9) G7(9) E7
E além do mais tudo que é novo hoje em dia
falam mal?
Então não sei o que eu devo fazer,/ Pois se
eu não posso inovar
Eu vou cantar o que já foi / E vão dizer que
é nostalgia
E que esse tempo já passou / E eu tô por fora
do que é novo,
Mas se é novo falam mal
E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente
E de repente, pode até ser bem legal / Pois
já fizeram coisa boa no passado
Que eu misturo como eu quero / Com mais tudo
que eu quiser
Me diz como eu posso escrever / Se só de
fazer quatro versos
Uma métrica abstrata e invisível me aparece
Me dizendo que esse verso está comprido / E
já devia ter parado um tempo atrás
E assim só tá piorando, olha só tá muito
grande,
Olha que feio, tá enorme, faz favor de
terminar!
Então não sei o que eu devo fazer, / Pois se
eu fizer bem quadradão
Vão me chamar de quadradão / Mas se eu fizer
muito loucura
Vão dizer que eu to maluco / E desse jeito
você nunca vai ser muito popular!
Mas hoje o que toca na novela não tem graça
E vai pro rádio pra tocar mais uma vez. /
Então eu corro pra internet,
Sou garoto antenado / E baixo o novo embalo
quente
Que é de sessenta e seis. / Sessenta e seis
(solo
da hora de guitarra)
Do-de-ca-fo-ni-a, Do-de-ca-fo-ni-a, /Pra
você!
O músico (e ex-aluno) Rafael Furtado Camargo me
mandou o clip dessa música, que achei original e divertido. Quem quiser ver, tem na Internet. Nele se fala do mais antigo dilema que aflige os compositores
honestos: como fazer sucesso sem ser banal. Dá pra fazer alguma coisa que não
seja chamada de nostalgia, plágio, modernice ou maluquice? Mó pobrema, meu!
Tenho algumas sugestões, desde logo estabelecendo
que nada é mais justo do que os jovens desejarem fazer a arte do seu tempo, em
lugar de apenas repetirem as coisas passadas.
1.º) Os jovens não devem acreditar nos seus
professores (e nem nas pessoas mais velhas em geral), porque eles podem estar
ensinando coisas erradas (que já aprenderam erradas) ou porque não aprenderam
nada (mas mesmo assim se metem a ensinar). Nem devem acreditar nos livros, pela
mesma razão: errar é humano; perpetuar o erro é burrice.
Na letra cifrada abaixo, conforme publicada na
Internet (e os autores podem não ter feito assim, porém são responsáveis por
deixarem divulgá-la desse jeito), é indicado o tom D# (Ré Sustenido Maior); não
é, pois os acordes fazem parte do campo tonal de A (La Maior). Além disso,
ainda que fosse mesmo D#, é óbvio tratar-se de mera ignorância, pois ninguém
escreveria com 9 sustenidos uma música que pudesse ser escrita com 3 bemóis (ou
seja, em Mi Bemol Maior). Fosse pouco, o sistema usado na cifragem é cheio de
inconveniências técnicas, por isso tendo sido abandonado há décadas (ao menos
por quem estudou alguma Harmonia que preste).
Sugestão: estudem mais e questionem as informações
recebidas; a opção, neste caso, é confiar na própria genialidade – porém lembrando
que, como não nasce um Cartola novo todos os meses, a chance de ser apenas
medíocre é um risco alto demais.
2.º) Uma música só existe no momento em que entra
no ouvido de alguém; até então não passa de um amontoado de vibrações
atmosféricas. Ora: quando eu faço música, pretendo que cause alguma sensação em
alguém, e uma sensação boa – porque, se isso não me importa, bastaria eu fazer
um pum bem sonoro, nem precisava de uma guitarra. Quero que alguém ouça, e que
goste dela (nem que seja só minha mãe, que costuma achar bonita qualquer coisa
que eu faço).
Se o desejo de criar beleza fosse a única motivação
de alguém ao fazer arte, seria suficiente que ele mesmo apreciasse a obra;
então, por que se preocupar com o que possam achar os outros? Talvez os
artistas sejam carentes do afeto de alguém além daquele no espelho, não é
mesmo? Ou, quem sabe, queiram fazer alguma coisa que dê uma graninha e seja
também divertida. Seja o que for, é preciso obter alguma apreciação.
Sugestão: preocupem-se mais em inventar coisas e
menos em saber que diabo pode agradar a galera – lembrando que o público em
geral não passa (nem jamais passou) de um enorme rebanho mugindo e zurrando (a
menos que a seus Egos baste serem acariciados por bovinos e asininos).
3.º) Não sei se entendi bem o final da letra, mas
me pareceu que essa referência à dodecafonia pretende ser sinônimo de
modernidade. Se foi, quero lembrar aos rapazes da banda que o “Pierrot Lunaire”
(conjunto de peças dodecafônicas de Schönberg usualmente consideradas o réquiem
do tonalismo) foi publicado em 1912. Se é isso mesmo, demorô, véi!
Liszt já sabia disso até bem antes, quando compôs
em 1885 a sua “Bagatela Sem Tonalidade”: acabou, terminou, finou-se, c’est fini, já era. Caramba: como é que alguém
pretende ser moderno se ainda compõe com acordes tonais depois de 127
anos a contar do enterro?
Sugestão: saiam dessa vida, meus jovens. E parem de
usar as 12 notas, porque essas já estão mortas, podrinhas da silva, fedendo
mesmo. Que tal comprarem umas guitarras fretless e deixar de afiná-las no
diapasão medieval?
4.º) O título da música sugere o Apocalipse, 66.º e
último livro da Bíblia judaico-cristã. É o “número da Besta”, que Bruce
Dickinson (da Iron Maiden) gravou em 1982, portanto há 30 anos, já não é
adolescente.
Lembra também o ano de 1966, quando “A Banda” (de
Chico Buarque) ganhou o mais famoso festival de música popular brasileira, e
Sérgio Ricardo (que fôra contratado para substituir Tom Jobim) jogou o violão
na plateia porque não gostou dos mugidos.
Sugestão: que vocês, do Terno ou de qualquer outro grupo
musical, deixem de preocupar-se tanto com o sucesso; enquanto pensarem nisso,
continuarão sendo mesmo quadrados, nostálgicos, ultrapassados, velhos,
desantenados, caretas e simples misturadores. E não acho que deviam ter parado
há um tempo atrás; nunca saíram do lugar.
Os
zombies fazem melhor: ao menos andam.
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