terça-feira, 28 de maio de 2013

24 - MODERNO x ETERNO = INFERNO

Vejam essa letra de música, que copiei da Internet:

                        66  (O Terno)

Tom: D#
                              
Intro:  A D7(9)


   A7+                                Bm7
Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar
          E7(9)
Se até cantar sobre
    A7+                                Bm7
 Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar? ,
          E7(9)       C7+
já foi cantado por alguém,
                          Dm7          G7(9)     Ab7(9) Ab7(9) G7(9)     E7
E além do mais tudo que é novo hoje em dia falam mal?

Então não sei o que eu devo fazer,/ Pois se eu não posso inovar
Eu vou cantar o que já foi / E vão dizer que é nostalgia
E que esse tempo já passou / E eu tô por fora do que é novo,
Mas se é novo falam mal

E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente
E de repente, pode até ser bem legal / Pois já fizeram coisa boa no passado
Que eu misturo como eu quero / Com mais tudo que eu quiser

Me diz como eu posso escrever / Se só de fazer quatro versos
Uma métrica abstrata e invisível me aparece
Me dizendo que esse verso está comprido / E já devia ter parado um tempo atrás
E assim só tá piorando, olha só tá muito grande,
Olha que feio, tá enorme, faz favor de terminar!

Então não sei o que eu devo fazer, / Pois se eu fizer bem quadradão
Vão me chamar de quadradão / Mas se eu fizer muito loucura
Vão dizer que eu to maluco / E desse jeito você nunca vai ser muito popular!

Mas hoje o que toca na novela não tem graça
E vai pro rádio pra tocar mais uma vez. / Então eu corro pra internet,
Sou garoto antenado / E baixo o novo embalo quente

Que é de sessenta e seis. / Sessenta e seis

 (solo da hora de guitarra)

Do-de-ca-fo-ni-a, Do-de-ca-fo-ni-a, /Pra você!

O músico (e ex-aluno) Rafael Furtado Camargo me mandou o clip dessa música, que achei original e divertido. Quem quiser ver, tem na Internet. Nele se fala do mais antigo dilema que aflige os compositores honestos: como fazer sucesso sem ser banal. Dá pra fazer alguma coisa que não seja chamada de nostalgia, plágio, modernice ou maluquice? Mó pobrema, meu!
Tenho algumas sugestões, desde logo estabelecendo que nada é mais justo do que os jovens desejarem fazer a arte do seu tempo, em lugar de apenas repetirem as coisas passadas.
1.º) Os jovens não devem acreditar nos seus professores (e nem nas pessoas mais velhas em geral), porque eles podem estar ensinando coisas erradas (que já aprenderam erradas) ou porque não aprenderam nada (mas mesmo assim se metem a ensinar). Nem devem acreditar nos livros, pela mesma razão: errar é humano; perpetuar o erro é burrice.
Na letra cifrada abaixo, conforme publicada na Internet (e os autores podem não ter feito assim, porém são responsáveis por deixarem divulgá-la desse jeito), é indicado o tom D# (Ré Sustenido Maior); não é, pois os acordes fazem parte do campo tonal de A (La Maior). Além disso, ainda que fosse mesmo D#, é óbvio tratar-se de mera ignorância, pois ninguém escreveria com 9 sustenidos uma música que pudesse ser escrita com 3 bemóis (ou seja, em Mi Bemol Maior). Fosse pouco, o sistema usado na cifragem é cheio de inconveniências técnicas, por isso tendo sido abandonado há décadas (ao menos por quem estudou alguma Harmonia que preste).
Sugestão: estudem mais e questionem as informações recebidas; a opção, neste caso, é confiar na própria genialidade – porém lembrando que, como não nasce um Cartola novo todos os meses, a chance de ser apenas medíocre é um risco alto demais.
2.º) Uma música só existe no momento em que entra no ouvido de alguém; até então não passa de um amontoado de vibrações atmosféricas. Ora: quando eu faço música, pretendo que cause alguma sensação em alguém, e uma sensação boa – porque, se isso não me importa, bastaria eu fazer um pum bem sonoro, nem precisava de uma guitarra. Quero que alguém ouça, e que goste dela (nem que seja só minha mãe, que costuma achar bonita qualquer coisa que eu faço).
Se o desejo de criar beleza fosse a única motivação de alguém ao fazer arte, seria suficiente que ele mesmo apreciasse a obra; então, por que se preocupar com o que possam achar os outros? Talvez os artistas sejam carentes do afeto de alguém além daquele no espelho, não é mesmo? Ou, quem sabe, queiram fazer alguma coisa que dê uma graninha e seja também divertida. Seja o que for, é preciso obter alguma apreciação.
Sugestão: preocupem-se mais em inventar coisas e menos em saber que diabo pode agradar a galera – lembrando que o público em geral não passa (nem jamais passou) de um enorme rebanho mugindo e zurrando (a menos que a seus Egos baste serem acariciados por bovinos e asininos).
3.º) Não sei se entendi bem o final da letra, mas me pareceu que essa referência à dodecafonia pretende ser sinônimo de modernidade. Se foi, quero lembrar aos rapazes da banda que o “Pierrot Lunaire” (conjunto de peças dodecafônicas de Schönberg usualmente consideradas o réquiem do tonalismo) foi publicado em 1912. Se é isso mesmo, demorô, véi!
Liszt já sabia disso até bem antes, quando compôs em 1885 a sua “Bagatela Sem Tonalidade”: acabou, terminou, finou-se, c’est fini, já era. Caramba: como é que alguém pretende ser moderno se ainda compõe com acordes tonais depois de 127 anos a contar do enterro?
Sugestão: saiam dessa vida, meus jovens. E parem de usar as 12 notas, porque essas já estão mortas, podrinhas da silva, fedendo mesmo. Que tal comprarem umas guitarras fretless e deixar de afiná-las no diapasão medieval?
4.º) O título da música sugere o Apocalipse, 66.º e último livro da Bíblia judaico-cristã. É o “número da Besta”, que Bruce Dickinson (da Iron Maiden) gravou em 1982, portanto há 30 anos, já não é adolescente.  
Lembra também o ano de 1966, quando “A Banda” (de Chico Buarque) ganhou o mais famoso festival de música popular brasileira, e Sérgio Ricardo (que fôra contratado para substituir Tom Jobim) jogou o violão na plateia porque não gostou dos mugidos.
Sugestão: que vocês, do Terno ou de qualquer outro grupo musical, deixem de preocupar-se tanto com o sucesso; enquanto pensarem nisso, continuarão sendo mesmo quadrados, nostálgicos, ultrapassados, velhos, desantenados, caretas e simples misturadores. E não acho que deviam ter parado há um tempo atrás; nunca saíram do lugar.
Os zombies fazem melhor: ao menos andam.


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