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quarta-feira, 29 de maio de 2013

28 - CACETE

Recebi mensagem da minha amiga Baronesa, a respeito de um videozinho que publiquei na Internet sobre os 200 anos do nascimento de Richard Wagner.
Nélson Rodrigues disse: Todas as vaias são boas, inclusive as más. Esta sua, Sra. de Nhumirim, é das mais malvadas.
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Wagner, acho que o Sr. fez porque tinha que fazer... texto broxante... e medíocre... ''artistas desonestos'' é de doer, quais os honestos?... pela madrugada!... e um trem que não acaba, listagem de românticos... um por um... funcionário público fazendo relatório na marra... e eu anelando por W.!
(...) lembro que Munique + Speer filmados pela Leni fizeram cenas brilhantésimas sob a música wagneriana... que aula esplêndida de História sairia disso! há muito o que descobrir e contar.......
foi a sua primeira aula inaceitável !
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Nem vou copiar a mensagem inteira, foi daí pra baixo. Levei um cacete. Foi mais do que uma vaia, foram apupos, praticamente uma lapidação. Lamento que a Sra. não tenha postado esses comentários diretamente no meu blog; seria mais instigante e talvez uns 2 ou 7 dos meus leitores ficassem mais ilustrados, quem sabe até contentinhos de alguém ter escrito essa diatribe que eles podem achar merecida mas não têm tempo a perder. 
Helene Bertha Amalie Riefenstahl, de apelido Leni, só é conhecida por ter sido a cineasta que dirigia filmes de propaganda para Adolf Hitler -- aquele paranoico esquizofrênico que fazia o possível para tornar a cada dia mais ridículo o seu bigodinho e a cada noite mais cruéis os seus delírios patológicos. Na juventude, Leni tentara ser bailarina, mas não foi feliz; Adolf tentara ser pintor de quadros, mas também não foi feliz. Juntos, deram  certo, ao menos até 1945, quando ele desapareceu e ela foi filmar tribos negras na África.
Aos 80 anos se encheu disso tudo e virou fotógrafa submarina. Faleceu em 2003, aos 101 anos de idade, possívelmente comida por umas orcas preto-e-brancas, coitadas. Há especialistas em arte cinematográfica que a consideram um gênio; a tal respeito me calo, sei muito pouco, porém vou perguntar ao Danilo Warick (meu primo cineasta que trabalha na Europa), a Lucas dos Santos (cineasta emérito e compositor premiado) e à Baronesa de Nhumirim (crítica de cinema tão linda quanto impiedosa). De Leni Riefenstahl a Hitler, deste a Richard Wagner.
Cujas ideias sócio-políticas sempre foram rigorosamente fascistas. Não que ele desse a mínima importância a isso, ou a qualquer coisa da qual não pudesse tirar proveito pessoal; protegido por seus princípios amorais, dedicou-se sempre com afinco à prática de imoralidades. Em outras palavras: quando não estava escrevendo música genial, Wagner estava sacaneando alguém. 
Hitler tinha só 6 aninhos quando Wagner morreu. Quando escreveu seu livro "Minha Luta", na prisão, o maluco já escolhera a trilha sonora perfeita para o nazismo. Juntou a fome com a vontade de comer. Tudo isso vocês já sabiam, tá tudinho no Google; só estou aproveitando para explicar que diabo estou eu  fazendo aqui no Facebook. 
(1.º) Tenho absoluta certeza de que poucos dos meus facebookers sabem quem foi Albert Speer, portanto não se interessariam em ler aqui, ao som da "Cavalgada das Valquírias", um estudo sobre as relações estéticas entre um gênio da música e um arquiteto megalomaníaco.
(2.º) Não é uma aula do meu curso audiovisual de Introdução à História da Música; é um excerto, a parte final de uma única aula.
 (3.º) Conforme está escrito em letras grandes no início do vídeo, não é uma aula sobre Wagner; é sobre o final do período estético chamado Romantismo.
(4.º) Não acho que seja mera listagem burocrática de autores românticos; são alguns dos maiores compositores contemporâneos de Wagner, ao som de uma das mais lindas interpretações de uma das mais perfeitas canções de uma das melhores óperas jamais escritas
(5.º) Se alguma vez aparecer aqui na minha página um texto falando qualquer coisa boa de um nazista, só há duas possibilidades: ou é falso ou eu esquizei definitivamente. 
Tudo isto posto e argumentado, ordeno que
1.    a Sra. ajoelhe no milho – pode ser de pipoca, pra não ferir vossos belos joelhos -- e medite sobre o efeito dos raios gama nas margaridas dos campos da Bavária;
2.     peça-me perdão;
3.     renegue imediatamente tudo que me escreveu;
4.     jure por Deus que não me vem mais defender esses nazistinhas que o lixo da História já se encarregou de reciclar;
5.     cante dez vezes nossa canção favorita enquanto chupa drops de aniz.      
         



http://www.youtube.com/watch?v=pES9nedkML8

terça-feira, 28 de maio de 2013

25 - JOÃO GILBERTO x TOM JOBIM

Olá Fred!
Já ouvi ao vivo de você (mas não entendi) e ainda hoje as dúvidas não querem calar:
-- Por que o João é o João (o mais "fodido" em sua opinião) e o Tom e o resto são coisas menores?
-- Tom Jobim, em termos de composição, é meu maior ídolo. O que faz você dizer que não existe na MPB nada melhor que o João, que (acho) nunca como compositor (se é que foi) teve um hit de sucesso de própria autoria?
-- Por que eles brigaram?
É só pra saber sua opinião, sem criar barracos... rs.

*    *    *    *

Vieram de Maurício Warick III essas perguntas. Dado que escrevi e dediquei a esse Sr. minha Sinfonia Fractal, elas mostram que não gasto dedicatórias à toa: se tem um assunto sobre o qual eu gostaria de esclarecer minhas opiniões, é esse aí. Então vamos tentar abrir esse barraco à visitação pública.
Quando o genial Ary Barroso apresentava um programa de calouros na TV, era comum acontecer um diálogo assim:
-- O que você vai cantar, Lucas dos Santos?
-- Eu... vou tentar cantar “Aquarela do Brasil”.
-- Ah, não vai tentar não, meu filho! Primeiro, porque não existe uma música chamada Aquarela do Brasil, sei de uma Aquarela Brasileira, até sou muito amigo do compositor... Mas isso nem vem ao caso; é que neste programa as pessoas não vêm pra tentar fazer nada, elas vêm só pra fazer uma coisa: cantar. Então você ensaia melhor, volta na semana que vem e canta mesmo, tá bom? E emendava -- O próximo candidato é... Wesleysson Silva, com quatro S... O Sr. seu pai é sueco, Seo Silva?
Ary, um dos “dez mais” em qualquer lista de quem conhece bem a música popular brasileira, era idolatrado pelos (então jovens) músicos Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Além de Ary, era coincidente sua admiração sobre Noel Rosa, Pixinguinha, Villa-Lobos, Garoto... Ambos também eram fãs da música americana, Gershwin, Cole Porter, Frank Sinatra, John Coltrane... Mas João sempre se disse sambista, enquanto Tom sempre se definiu como compositor de modinhas – e são isso mesmo, se analisamos com atenção as suas biografias musicais. Como trabalharam “juntos” muitas vezes – ou, falando em português honesto, João Gilberto gestou e pariu ao mundo algumas dezenas das primeiras gravações de composições do amigo – e juntos percorrem toda a MPB desde 1958 (e para sempre), podemos analisar certas coisas que ajudem a responder qual dos dois foi musicalmente mais importante para a nossa música. Não que isso realmente importe; é apenas uma agradável discussão inofensiva entre dois músicos sinceros, como o Maurício e eu. Pergunto: haveria um Bach sem Monteverdi, Buxtehude, Rameau, Vivaldi, Händel? Haveria uma galinha sem ovo? Ou um ovo sem galinha? Anjos têm pintinho ou bucetinha? Eu acho isso bão demais da conta, sô! Então respondo, ora!
Começando pelo disco vinil “Canção do Amor Demais”, da famosa cantora Elizeth Cardoso, chamada “A Divina” – que era, por sua vez, fã de Vicente Celestino: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer”... Das 13 músicas desse LP (long playing) Tom compôs 11, sendo as outras duas de Vinícius de Moraes, que é autor de todas as letras (pra quem não sabe, também compunha boa música, apesar do violãozinho merreca que tocava). Tom fez os arranjos da reduzida orquestra e regeu na gravação. O violonista arregimentado pelo dono do selo Festa, que jogava nessa produção todas as suas parcas economias, era um músico de cachê mixuruca, João Gilberto. Foi com ele, às vésperas de iniciarem as gravações, que Jobim teve sua grande revelação: é preciso mudar tudo.
Todas as canções eram lindas e convencionais. Todos os arranjos eram lindos e convencionais. As únicas coisas novas eram o violão e o uso que se passou a fazer das dissonâncias harmônicas – o mundo nunca tinha ouvido antes um violão tocado assim; quanto aos acordes, eram os mesmos usados pelos jazzistas americanos, mas os palpites daquele carinha tímido (e abusado) mudaram para sempre a cultura musical do Brasil. Consta que Tom e João não brigaram dessa vez, porque um gênio percebe imediatamente um gênio ainda maior; um babou, o outro emprestou o guardanapo. Essas gravações dividem em duas partes a história da música popular brasileira: antes e depois. Fiat Lux!
Eu nunca disse que Jobim e “os outros” são menores; eu disse, e gostaria de demonstrar como fato musical técnico e estético, que esses “outros” são menores do que João Gilberto. Com certeza teríamos perdido centenas de melodias maravilhosas se Tom não fosse o gênio inventor que foi; mas não haveria esse Tom Jobim a se perder se não existisse um João Gilberto anterior e superior. Outra coisa: depois do vexame total que Tom Jobim deu no famoso concerto do Carnegie Hall em 1962, foi João Gilberto – que imediatamente virou ídolo dos maiores artistas e críticos americanos – quem “limpou a barra” e explicou melhor aos gringos o tamanho de Antonio Jobim. Fosse pouco, foi com o sobretudo emprestado de João que Tom enfrentou os primeiros meses de Nova York, até conseguir algum trampo decente. Até chegar no Frank Sinatra, levou um tempão, mesmo ajudado por João Gilberto, Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Aloysio de Oliveira... 
João Gilberto compõe, sim, e no mínimo tão bem quanto seu discípulo. Apenas não se dedicou a isso, porque seu principal objetivo musical era a perfeição dos deuses. Escutem “Um Abraço No Bonfá” e “Bim Bom” (esta também antológica, e continuou D+ na gravação que Adriana Calcanhotto fez com o grupo Olodum)nem precisa mais.
Com quem ele aprendeu? Bem, durante o ano de 1955 estudou harmonia com Radamés Gnatalli (que foi o sucessor de Pixinguinha como arranjador da gravadora RCA Victor, autor do conhecido arranjo de “Carinhoso” para a gravação de Orlando Silva, entre outros mil que não importam aqui). João era um ótimo aluno; Tom – isso me contou Koellreutter, primeiro mestre dele, de viva voz – era pouco aplicado aos assuntos em estudo, sempre mais ocupado em tocar coisas do que em estuda-las. Foi assim também com Nadia Boulanger, mas com ela finalmente aprendeu algumas das coisas que lhe interessavam na prática.
Por que os americanos consideram João uma das grandes influências do jazz moderno? Por que nunca disseram isso do compositor de “Garota de Ipanema”?  E, já que falamos em hits, por que essa manjadíssima garota é menos conhecida internacionalmente do que “Tico-Tico No Fubá” (Zequinha de Abreu) ou “Aquarela Brasileira” (Ary Barroso)? Mas podemos pensar ao contrário: que, se João Gilberto não compôs nada que tenha chegado às paradas de sucesso comercial, Michel Teló compôs – pois um sucesso não é referência senão de si mesmo.
Liszt foi um superstar do seu tempo; Chopin não foi, embora seja hoje o compositor mais executado do mundo (ao lado de Tchaikovsky, que nunca criou uma única pausa realmente nova). Bach, em vida, foi um fracasso comercial; Beethoven passava apuros pra receber uns trocos atrasados e pagar o médico. Mozart morria na miséria enquanto seu amigo Antonio Salieri bombava no You Tube (se você nunca ouviu Salieri, não perca seu tempo). Imagino que seja muito bom fazer sucesso (não sei, nunca fiz, nem quando ainda tentava), mas na verdade, em arte, sucesso é uma coisa perigosa – quando o rebanho muge muito, no mínimo tem algum leão por perto.
Músicos brigam, e pela mesma simples razão de que pessoas brigam. O Diabo é o Outro, já avisava Sartre. Nunca ouvi dizer que João e Tom tenham “ficado de mal à morte”; eram dois músicos que trabalhavam muito para viver (e para pagar pensões de divórcios a filhos e ex-mulheres), e nunca formaram uma dupla permanente. Agora: qual é o arranjador que aceita trabalhar no disco de um cantor que pede coisas assim – “Eu quero que os 32 violinos façam só duas notas em uníssono no compasso 108, e depois fiquem em silêncio o resto da música”? Convenhamos que é um tremendo de um chato. Porém, convenhamos, estamos falando de um chato que é gênio, inalcançado e inalcançável. Daí que só cabem mesmo duas notas em uníssono no compasso 108, bobagem tentar colocar três – aliás, eu experimentei coisas assim diversas vezes, tocando junto com gravações d’Ele, e verificando que isso é uma bobagenzinha infantil.
O meu maior ídolo em termos de composição é J. S. Bach; o do Maurício é A. C. Jobim. – e não podemos dizer que um seja melhor que o outro em termos absolutos, e muito menos afirmar que algum deles seja menos indispensável para o conjunto de toda a Beleza já criada pela civilização humana. Quanto ao João Gilberto, eu sempre faço uma ressalva: é o mais importante músico brasileiro depois da chegada de Pedro Álvares Cabral. Eu conheci um índio, pajé no Xingu, que está quase no mesmo nível musical do João; por isso admito que tenha havido alguém maior antes de 1500 d.C., mas d.J.G. com certeza não teve.


24 - MODERNO x ETERNO = INFERNO

Vejam essa letra de música, que copiei da Internet:

                        66  (O Terno)

Tom: D#
                              
Intro:  A D7(9)


   A7+                                Bm7
Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar
          E7(9)
Se até cantar sobre
    A7+                                Bm7
 Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar? ,
          E7(9)       C7+
já foi cantado por alguém,
                          Dm7          G7(9)     Ab7(9) Ab7(9) G7(9)     E7
E além do mais tudo que é novo hoje em dia falam mal?

Então não sei o que eu devo fazer,/ Pois se eu não posso inovar
Eu vou cantar o que já foi / E vão dizer que é nostalgia
E que esse tempo já passou / E eu tô por fora do que é novo,
Mas se é novo falam mal

E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente
E de repente, pode até ser bem legal / Pois já fizeram coisa boa no passado
Que eu misturo como eu quero / Com mais tudo que eu quiser

Me diz como eu posso escrever / Se só de fazer quatro versos
Uma métrica abstrata e invisível me aparece
Me dizendo que esse verso está comprido / E já devia ter parado um tempo atrás
E assim só tá piorando, olha só tá muito grande,
Olha que feio, tá enorme, faz favor de terminar!

Então não sei o que eu devo fazer, / Pois se eu fizer bem quadradão
Vão me chamar de quadradão / Mas se eu fizer muito loucura
Vão dizer que eu to maluco / E desse jeito você nunca vai ser muito popular!

Mas hoje o que toca na novela não tem graça
E vai pro rádio pra tocar mais uma vez. / Então eu corro pra internet,
Sou garoto antenado / E baixo o novo embalo quente

Que é de sessenta e seis. / Sessenta e seis

 (solo da hora de guitarra)

Do-de-ca-fo-ni-a, Do-de-ca-fo-ni-a, /Pra você!

O músico (e ex-aluno) Rafael Furtado Camargo me mandou o clip dessa música, que achei original e divertido. Quem quiser ver, tem na Internet. Nele se fala do mais antigo dilema que aflige os compositores honestos: como fazer sucesso sem ser banal. Dá pra fazer alguma coisa que não seja chamada de nostalgia, plágio, modernice ou maluquice? Mó pobrema, meu!
Tenho algumas sugestões, desde logo estabelecendo que nada é mais justo do que os jovens desejarem fazer a arte do seu tempo, em lugar de apenas repetirem as coisas passadas.
1.º) Os jovens não devem acreditar nos seus professores (e nem nas pessoas mais velhas em geral), porque eles podem estar ensinando coisas erradas (que já aprenderam erradas) ou porque não aprenderam nada (mas mesmo assim se metem a ensinar). Nem devem acreditar nos livros, pela mesma razão: errar é humano; perpetuar o erro é burrice.
Na letra cifrada abaixo, conforme publicada na Internet (e os autores podem não ter feito assim, porém são responsáveis por deixarem divulgá-la desse jeito), é indicado o tom D# (Ré Sustenido Maior); não é, pois os acordes fazem parte do campo tonal de A (La Maior). Além disso, ainda que fosse mesmo D#, é óbvio tratar-se de mera ignorância, pois ninguém escreveria com 9 sustenidos uma música que pudesse ser escrita com 3 bemóis (ou seja, em Mi Bemol Maior). Fosse pouco, o sistema usado na cifragem é cheio de inconveniências técnicas, por isso tendo sido abandonado há décadas (ao menos por quem estudou alguma Harmonia que preste).
Sugestão: estudem mais e questionem as informações recebidas; a opção, neste caso, é confiar na própria genialidade – porém lembrando que, como não nasce um Cartola novo todos os meses, a chance de ser apenas medíocre é um risco alto demais.
2.º) Uma música só existe no momento em que entra no ouvido de alguém; até então não passa de um amontoado de vibrações atmosféricas. Ora: quando eu faço música, pretendo que cause alguma sensação em alguém, e uma sensação boa – porque, se isso não me importa, bastaria eu fazer um pum bem sonoro, nem precisava de uma guitarra. Quero que alguém ouça, e que goste dela (nem que seja só minha mãe, que costuma achar bonita qualquer coisa que eu faço).
Se o desejo de criar beleza fosse a única motivação de alguém ao fazer arte, seria suficiente que ele mesmo apreciasse a obra; então, por que se preocupar com o que possam achar os outros? Talvez os artistas sejam carentes do afeto de alguém além daquele no espelho, não é mesmo? Ou, quem sabe, queiram fazer alguma coisa que dê uma graninha e seja também divertida. Seja o que for, é preciso obter alguma apreciação.
Sugestão: preocupem-se mais em inventar coisas e menos em saber que diabo pode agradar a galera – lembrando que o público em geral não passa (nem jamais passou) de um enorme rebanho mugindo e zurrando (a menos que a seus Egos baste serem acariciados por bovinos e asininos).
3.º) Não sei se entendi bem o final da letra, mas me pareceu que essa referência à dodecafonia pretende ser sinônimo de modernidade. Se foi, quero lembrar aos rapazes da banda que o “Pierrot Lunaire” (conjunto de peças dodecafônicas de Schönberg usualmente consideradas o réquiem do tonalismo) foi publicado em 1912. Se é isso mesmo, demorô, véi!
Liszt já sabia disso até bem antes, quando compôs em 1885 a sua “Bagatela Sem Tonalidade”: acabou, terminou, finou-se, c’est fini, já era. Caramba: como é que alguém pretende ser moderno se ainda compõe com acordes tonais depois de 127 anos a contar do enterro?
Sugestão: saiam dessa vida, meus jovens. E parem de usar as 12 notas, porque essas já estão mortas, podrinhas da silva, fedendo mesmo. Que tal comprarem umas guitarras fretless e deixar de afiná-las no diapasão medieval?
4.º) O título da música sugere o Apocalipse, 66.º e último livro da Bíblia judaico-cristã. É o “número da Besta”, que Bruce Dickinson (da Iron Maiden) gravou em 1982, portanto há 30 anos, já não é adolescente.  
Lembra também o ano de 1966, quando “A Banda” (de Chico Buarque) ganhou o mais famoso festival de música popular brasileira, e Sérgio Ricardo (que fôra contratado para substituir Tom Jobim) jogou o violão na plateia porque não gostou dos mugidos.
Sugestão: que vocês, do Terno ou de qualquer outro grupo musical, deixem de preocupar-se tanto com o sucesso; enquanto pensarem nisso, continuarão sendo mesmo quadrados, nostálgicos, ultrapassados, velhos, desantenados, caretas e simples misturadores. E não acho que deviam ter parado há um tempo atrás; nunca saíram do lugar.
Os zombies fazem melhor: ao menos andam.


21 - AMIGO É PRA ESSAS COISAS

A primeira vez na vida que coloquei os dedos num violão, em setembro de 1962, foi na casa do meu colega Rubinho de Oliveira, hoje médico. Ele me ensinou a tocar “Este Seu Olhar”, de Antônio Carlos Jobim, usando quatro acordes. Acho que tive várias extra-sístoles naquela meia hora da aula. Nessa noite não consegui dormir: fiquei tocando até a ponta dos dedos incharem, porque nunca sentira um prazer tão grande como aquele – eu ainda era virgem de mulher. Como não tinha os calos necessários, quando os dedos doíam pra valer eu punha umas pedras de gelo numa cumbuca e deixava-os mergulhados lá até ficarem roxos e insensíveis, depois recomeçava. Nem as “viagens” de ácido lisérgico, que experimentei anos mais tarde, foram tão delirantes. Na manhã seguinte, no Liceu Pasteur, onde eu estava fazendo o 2º ano do curso científico, mais de um colega fez piada com minhas olheiras pretas:
-- Cê precisa maneirar na punheta, Fred!  
A partir daí eu às vezes jantava na casa dele, geralmente numa quarta-feira, e depois íamos para o quarto fazer a aula. Tímido do jeito que eu era, foram difíceis (os primeiros jantares, não as aulas). Nunca vou esquecer a primeira vez que isso aconteceu, porque me servi mais frugalmente que um monge trapista e não amassei o feijão: tinha aprendido que era falta de educação fazer isso na casa dos outros. Os pais dele e a irmã, gente que não podia ser mais simpática e carinhosa, riram muito daquilo:
-- Pode amassar o feijão, Fred, não precisa ficar com vergonha.
Não sei o que resulta da mistura de amarelo com roxo, mas tenho certeza de que era essa a cor da minha cara naquele momento. Afinal, não há nada mais constrangedor para uma pessoa tímida do que dizerem a ela que não precisa se envergonhar, mas ali comecei a saber que “casa dos amigos” não é a mesma coisa que “casa dos outros”. E que a mãe dele fazia um feijãozinho supimpa.
O diacho é que, já tocando e cantando meia dúzia de músicas, eu comecei a achar uma tremenda chateação ter que parar de tocar para ir estudar os sais de ácido carboxílico ou o efeito Doppler-Fizeau.
O segundo, na ordem dos culpados pela minha metamorfose, foi outro colega de classe: Constâncio de Carvalho Filho, hoje médico veterinário. Me ensinou a tocar “I Wanna Hold Your Hand”, dos Beatles. Pouco depois se tornaria meu primeiro parceiro de composição – “Flip Flop”, um rockinho tão senvergonha que hoje poderia bombar fácil no You Tube, daqueles que você toca só uma vez e já gruda na orelha da gente, não sai nem com psicanálise. Sei de cór até hoje. Do seu cardápio doméstico, o que me lembro é chicken alla king, costumeiro em suas festas de aniversário.
Em terceiro veio Antero Costa Filho, que se tornaria um renomado neurocirurgião e professor de Medicina na Santa Casa (de Rubinho não sei a qual especialidade se dedicou, porém aposto meu violão Segóvia que deu também um grande doutor). Fui várias vezes passar alguns dias na casa dele, em Muzambinho/MG – na época, a cidade brasileira com maior número de mulheres lindas por Km2. Embora Dona Zica, mãe dele, fosse o tipo da mãezona mineira, e conquanto eu já fosse um pouco menos tímido, é dessa minha primeira estadia fora do lar que guardo na memória meu segundo grande constrangimento gastronômico. Acho que esse meu causo até merece um parágrafo.
Era o Carnaval de 1964. Carlos Alberto Martini Bobbio (depois professor da Odontologia na USP) e Milton Joel Nordhäusen Pace (cuja posteridade desconheço) tinham viajado um dia antes de mim, que só pude ir no sábado. De São Paulo até Caconde, oito horas de viagem; lá se fazia baldeação para ir, por estrada de terra, de jardineira, até Muzambinho, mais duas horas. Sei dizer que cheguei às 9 da noite, tomei um banho rápido – o baile começava às 10 em ponto, e a gente não queria perder nem um minuto da festa – e sentei sozinho à mesa da cozinha de Dona Zica para jantar, pois todos já tinham comido há horas. Em volta, os três colegas, as três irmãs do Antero, a mãe, uns primos dele... só o pai não estava, que ainda tinha que atender alguém no seu consultório médico. Enfim: uma multidão esperando educadamente que eu acabasse o rango pra sair. Imaginem uma comida caseira mineira, feita por mãe mineira, assim mal apreciada... é cruel. Acho que nunca antes nem depois sofri tanto para engolir nada – nem mesmo as cápsulas de remédio contra tuberculose que passei um ano tomando, muitos anos depois; de resto, nunca gostei muito de plateias, mesmo quando me tornei músico profissional, era sempre um sacrifício.
Fosse pouca essa odisseia, o baile mal havia começado quando o Antero – que já estava com uma considerável taxa de etanol no sangue na hora da minha janta – simplesmente resolveu quebrar o pau com alguém que tinha (segundo ele) passado a mão na bunda da menina com quem ele estava pulando. Quem já foi a um baile de Carnaval sabe como é banal uma briga assim, acontece sempre; se a gente for bater em todo mundo que encosta na sua mulher, melhor ficar em casa, porque vai ficar a noite inteira brigando. Só que o futuro Doutor Costa Filho estava enlouquecido, e partiu babando pra cima do outro. Euzinho, por acaso, estava perto nessa hora, dançando com a Fátima Rezende (que foi minha primeira paixão na vida), e achei que devia segurar o bicho. Se ele não estivesse bem próximo de um coma alcoólico ou estivesse ao menos enxergando alguma coisa na frente dele, não teria me dado aquele soco no estômago, mas deu, e eu descomi ali mesmo a pouca comida que tinha conseguido jantar. Mais tarde, após 5cc de glicose na veia, já sentados na escadaria do clube, ele me pediu milhões de perdões, chorando rios de arrependimento, como só os bêbados conseguem chorar. É óbvio que tal incidente nem me machucou e muito menos me magoou, mas estou lembrando dele pra contar que nada é mais constrangedor do que vomitar no meio do salão num sábado de Carnaval: N-A-D-A.
Termino deixando-lhes um sábio conselho de velho experiente: se um seu amigo do peito estiver muito bêbado e quiser brigar com alguém, só chegue perto se ele estiver desmaiado ou morto; conforme o caso, chame a ambulância ou a polícia.     

*    *    *    *
P.S.: ninguém se esforçou tanto quanto Antero, Constâncio e Rubinho para fazer de mim um médico, me arrastando nas costas pra estudar nos meses que antecederam o exame vestibular, mas eu ainda não tinha suficiente consciência dos meus sentimentos para explicar a eles que era um desperdício de dedicação – eu não poderia ser feliz se não me tornasse aquilo que já era e não sabia: um simples músico.



19 - KOELLREUTTER

Estudei composição com Koellreutter de 1984 a 1995, dos quais 7 anos como aluno. Brigamos três ou quatro vezes, por razões musicais ou extra-musicais, e aí ficávamos de mal por um semestre ou dois, sem nos telefonarmos nem frequentarmos os mesmos lugares. Era um daqueles casos de amor eterno.
Duas vezes trabalhei com ele, convidado como seu assistente na série de 12 programas “Ouvido e Consciência”, na Rádio FM Cultura, e mais tarde como convidado para um grupo de estudos de renovação da pedagogia musical, realizado durante um ano no Instituto de Estudos Avançados da USP.
Foi casado muitas vezes, a última e mais duradoura delas com Margarite Schack, famosa soprano alemã nas últimas décadas do século XX. Ela passava metade do ano na Europa, enquanto ele circulava para atender todos os alunos possíveis em São Paulo, Rio, Curitiba, Belo Horizonte e Salvador. Certa vez deixou de ir receber um importante prêmio na Academia de Santa Cecília, em Roma, durante o verão europeu, para ir dar um curso de composição em La Paz, na Bolívia – Margarite ia receber a medalha na cerimônia, a grana eles depositavam numa conta bancária, enquanto ele ia se divertir ensinando (e aprendendo com) uns incas moderninhos.
Seu melhor aluno em todos os tempos, confidenciava a quem participou de sua intimidade, foi um médico de nome Mauro, que nunca se dedicou à música profissional, embora tivesse um gênio criador único. O Velho achava os elogios uma perda de tempo; o que interessa são as críticas. 
Nas paredes da sua sala, no apartamento de São Paulo, pedia para os "escolhidos" assinarem seus nomes em letras bem grandes; minha mulher, a pianista Maria Emília Tosin, que ele declarava ser sua pianista favorita, foi um desses dez ou doze privilegiados, junto com Magda Tagliaferro, Michel Phillipot, Anna Stella Schic e outros que não lembro. Euzinho nunca tive essa honra, embora fosse um dos raros convidados para uma cachacinha na cozinha, durante as aulas, que ele marcava sempre no último horário, começando às 9 e terminando quando acabavam. Recebi dele um único elogio explícito em todos os anos de nossa convivência, mas foi feito quando ele me apresentou a um grande compositor contemporâneo, Hans-Joachim Hespos – com quem, aliás, jantei nessa noite no Rubayat da Avenida Vieira de Carvalho, de onde voltamos de táxi porque eu não lembrava onde tinha estacionado meu carro (aliás sem a menor condição de dirigir nem um carrinho de brinquedo), saindo ambos de perna mole e babando, ele entupido das deliciosas batidas de maracujá (o melhor coisa brasileiro depois dos bundas morrenas) e eu jurando que nunca mais tomaria um maldito Campari na vida.
Transcrevo abaixo a última entrevista dele.

*    *    *    *

' Música precisa ter conteúdo '

Nesta entrevista, publicada pelo 'Estado de São Paulo' em 1º de novembro de 1997, o compositor alemão Hans-Joachim Koellreutter falou sobre sua infância, a perseguição nazista, sua chegada ao Brasil, as aulas que deu a Tom Jobim, sua visão da música e do ensino dela. E também explicou porque sempre carrega consigo a Bíblia e o Fausto, de Goethe. Koellreutter morreu terça-feira passada, 13 de setembro de 2005, aos 90 anos.
Em novembro de 1937, chegava ao Brasil o maestro, compositor e educador alemão Hans-Joachim Koellreutter. Antifascista convicto, o jovem de 22 anos desafiara a Gestapo criando grupos de vanguarda que tocavam música de compositores judeus. Vinha ao País para uma série de concertos e, ainda no navio, ouviu sobre a instauração do Estado Novo e descobriu-se fugindo de uma ditadura para cair em outra. Mas a paixão pelo povo brasileiro foi mais forte e ele acabou ficando por aqui. Na sua bagagem, trazia a modernidade musical, sons estranhos a uma nação que cultuava o nacionalismo.
Nascido em Freiburg, Alemanha, em setembro de 1915, Koellreutter regeu em 1931 (portanto aos 16 anos) seu concerto de estreia, que foi a Sinfonia nº1 de Beethoven; dois anos depois publicava suas primeiras obras. Em 1934, com Hitler já no poder, fundou com amigos o Círculo de Música Nova, em Berlim, e ainda naquele ano se apresentou como flautista em Paris. Pouco antes de vir ao Brasil, o músico irrequieto participou também da criação do Círculo de Música Contemporânea, em Genebra/Suíça – motivos mais que suficientes para atrair a ira dos nazistas, que execravam arte contemporânea.
Estabeleceu-se entre o Rio e São Paulo, não demorando a pôr em prática, aqui também, a sua notória "subversão" artística. Em 1939, criou a revista e o movimento Música Viva, responsável pela divulgação da música nova, trabalho que estendeu por toda a sua vida, estreando no Brasil composições de Stravinsky, Schönberg e Bàrtók, entre outros. As reações foram temerárias: numa mistura de medo, xenofobia e inveja, Koellreutter foi atacado pela imprensa como nazista, comunista, plagiário e mistificador. Apesar dos bons ouvidos, ele fez que não ouviu, decidindo não reagir à altura da agressividade dos ataques, entre eles aqueles desfechados por Camargo Guarnieri na sua Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil (1950), na qual, sem citar nomes, chamava o dodecafonismo de "refúgio de compositores medíocres" -- um delírio paranoide, posto que Koellreutter jamais compôs uma única peça em idioma dodecafônico. Antes disso, Koellreutter lançara o Manifesto de 1946, em que divulgava abertamente a defesa do atonalismo e a necessidade da divulgação da música contemporânea. Os nacionalistas não perdoaram o estrangeiro, embora poucos tivessem parado para ouvi-lo.
Entre os anos 1950 e 60, passou 13 anos no Japão e na Índia, países em que descobriu já realizadas muitas de suas teorias e filosofias estéticas. Na Índia, foi um dos fundadores da Filarmônica de Bombaim e o criador da Delhi School of Music – primeira escola de música ocidental na Índia. Na volta ao Brasil, em 1975, retomou sua paixão pelo ensino, alternando semanas de trabalho em Londrina, São Paulo, Rio, Salvador e Belo Horizonte. Seus alunos formariam a nata da música clássica brasileira: Cláudio Santoro, Edino Krieger, Roger Duprat, Isaac Karabtchevski, Diogo Pacheco, Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, Severino Araújo, Érlon Chaves, Heckel Tavares, Marlos Nobre, Tom Jobim, Tom Zé... Ainda assim, quando colegas propuseram sua candidatura à Academia Brasileira de Música, em 1981, não teve votação suficiente para ganhar uma das cadeiras.
Tampouco foi boa a experiência de dirigir, à sua maneira, o Conservatório de Música de Tatuí, onde não teve forças para vencer os inúmeros obstáculos colocados pela burocracia. O fato que causou maior reação às modificações que tentou introduzir lá (só conhecido de quem acompanhou de perto os episódios) foi a obrigatoriedade da disciplina “Música Popular” em todos os anos dos cursos, mínimo de duas horas por semana.
Morando em São Paulo e Rio de Janeiro ao mesmo tempo, o compositor ainda está ativo. Acaba de compor a peça Panta Rhei ("tudo flui", em grego), para vibrafone solo. No ano passado, em Santos, apresentou sua ópera O Café, de longa gestação, baseada em texto de Mário de Andrade. Nesta semana está no Rio, onde participa da Bienal de Música Contemporânea, porém a maior parte do seu tempo é dedicada aos alunos, aos quais ensina avisando antes que "o bom educador é aquele que não educa".
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Como começou sua relação com a música?
Koellreutter - É uma historia muito romântica. Aos 12 anos eu era um moleque e fiz uma série de bobagens na escola. Um dia exagerei: na minha classe havia colegas muito pobres, que obviamente também gostavam de chocolates, coisa só acessível aos filhos de burgueses. Então inventei de "socializar" todos os chocolates; enquanto mudávamos de roupa para fazer ginástica, pedi licença para fazer xixi e fui ao vestiário roubar dinheiro da roupa dos meus colegas ricos e comprar os doces para os colegas mais pobres. A bomba estourou no mesmo dia: o Diretor chamou meu pai, que era um médico muito conhecido em nossa cidade, ele ficou muito bravo e decidiu prender-me em casa como castigo. Fiquei no quarto, sem poder brincar na rua e sem saber como passar o tempo, mofando, porque uma criança não aguenta passar o tempo todo lendo, por mais que goste disso. Um dia resolvi mexer num armário do sótão e encontrei lá uma flauta velha do Exército austríaco, um flageolet, e comecei a estudá-la e a fazer música. Foi como dei meus primeiros passos para a música. Tive também o que chamávamos de detector ou rádio galena: uma caixinha com um cristal em que a gente procurava uma estação de rádio com uma agulha, e quando achava ouvia música de Paris e Londres. Foram as minhas primeiras sinfonias, óperas e operetas, e apaixonei-me por tudo aquilo. Melhorei meu comportamento, abandonei aquelas aventuras e me tornei um sujeito mais ou menos civilizado (risos).

Ainda assim, o sr. enganou seu pai para ir a Berlim.
Quando resolvi dizer a meu pai que queria ser músico, ele não gostou. Além disso, eu tinha tendências esquerdistas e queria estudar em Berlim, já que me havia interessado pela música moderna, que naquele tempo era Stravinski, Ravel, Hindemith... Porém meu pai escolheu para mim um professor em Leipzig, uma cidade mais tradicional, musicalmente conservadora, e me obrigou a ir para lá. Na estação, mudei de trem e fui para Berlim, onde queria estudar com Hindemith, que era conhecido na Alemanha como um bolchevista cultural. Hoje ele é visto como muito acadêmico (risos). Além do mais, Berlim era uma cidade muito progressista e cosmopolita, onde muitas coisas me interessavam. Mudei para lá.

Como foi trabalhar com Paul Hindemith e Hermann Scherchen?
Apesar do que algumas enciclopédias dizem, nunca fui aluno de Hindemith. Por um desses acasos, o compositor mais acadêmico de Leipzig, Kurt Thomas, se mudara naquela mesma época para Berlim e meu pai insistiu que eu estudasse com ele. Era um grande regente de coral, mas um compositor neoclassicista, superacadêmico e tradicional. De Hindemith só assisti às primeiras apresentações que fez de sua técnica, a harmonia acústica, na Universidade de Berlim. Tivemos, sim, contatos pessoais, pois ele também teve de deixar a Alemanha por não concordar com o regime de Hitler.
Já de Scherchen me aproximei por razões políticas. A Gestapo queixou-se de mim ao meu pai, porque no Natal, em vez de passar a festa com a família, como todo cristão normal, eu “andava (como eles diziam) com judeus”. Telefonei para Scherchen, que estava em Zurique/Suíça, e ele me convidou para passar o Natal com ele. A partir daí, ele me introduziu à música dodecafônica, ao atonalismo e a todas as outras correntes de vanguarda da época.

Como reagiram as autoridades nazistas?
Viram que eu e meus amigos tínhamos atitudes antifascistas. Eu era estudante de música na Academia de Berlim e organizara um círculo para apresentar compositores judeus, o que era proibido. Com amigos entrosei-me na ideologia dos estudantes daquela época. Fundamos grupos de música como reação à política cultural do governo nazista. A polícia perseguiu-nos, fecharam nossa associação de concertos, mas não aconteceu nada muito trágico. Numa certa altura, fui obrigado a deixar a academia, porque eles queriam que eu entrasse numa espécie de UNE nazista. Neguei-me, disse que não queria nada com aquele governo, e eles, é claro, me expulsaram. Fui para Genebra, na Suíça, terminar meus estudos.

Sua cidadania alemã foi cassada por causa da apresentação de judeus em Berlim?
Não, os nazistas cassaram-na mais tarde. Antes, comecei a fazer turnês como flautista, cheguei a ficar famoso pela Europa. Numa dessas viagens, vim parar no Brasil para tocar no norte do país, de Manaus a Salvador, levado por uma organização chamada Instrução Cultural Brasileira. Fui primeiro a Manaus e, em 1939, quando a guerra estourou, chamaram-me para que eu me alistasse na Wermacht (o exército regular alemão) em Ulm. Eu escrevi dizendo que estava no Brasil e não queria nada com a Alemanha, muito menos entrar na guerra ao lado de Hitler. Virei desertor. Nesse ínterim, fiquei noivo de uma mulher que era parte judia, enfatizando minha ideologia antinazista com esse casamento, que fiz no Brasil. Claro que contra a vontade de meus pais, que me denunciaram à Gestapo para eu não me casar com a moça. Eu me casei com ela, separamo-nos mais tarde e, hoje, ela vive no Rio Grande do Sul.

O que o levou ao dodecafonismo?
Ele me prestava, porque ampliava a minha linguagem musical e estética. Eu admirava muito Schönberg, Alban Berg, Webern, que faziam o grupo dodecafônico. Mas não escrevi obras dodecafônicas. Foi Scherchen quem me introduziu, dizendo-me que, como músico, precisava conhecer aquelas novas linguagens musicais.

Dessa Segunda Escola de Viena, quem mais o influenciou?
Nenhum deles em especial. Admito que fiquei muito interessado nas tentativas de Berg, com as óperas Wozzeck e Lulu, mas o que me chamava mesmo a atenção, então, era estruturar gestalticamente a música, a teoria da informação e a psicologia da gestalt.

Como foi sua chegada ao Brasil em 1937?
Foi um choque. Conhecia toda a Europa, mas essa era sempre a mesma coisa. Aqui estava um mundo diferente, e tive de apreender o modo de viver deste país. Gostei. Havia acabado de fazer uma turnê pela América Latina, mas preferi o Brasil. Não pelo país em si, mas adorei a gente daqui.

O sr. chegou em pleno Estado Novo.
Um pouco depois. Pensei como era trágico e engraçado ter saído de uma ditadura para cair em outra, mas tudo bem. Afinal, o Brasil não era a Alemanha e senti que não haveria comparação entre os dois regimes autoritários fascistas, mesmo que, aqui, houvesse simpatia pelo nazismo. De fato, não senti muito a ditadura de Vargas.

Mas o sr. foi preso poucos anos depois.
É verdade, por suspeita de espionagem. Não tinha mais nacionalidade, estava sem passaporte. Nos primeiros anos, tive a sorte de poder colaborar com Francisco Curt Lange, o musicólogo que redescobriu a música barroca de Minas, que morava —  ainda mora — em Montevidéu. Ele me convidou para fazer parte da sua Editora Interamericana de Música. Lange era progressista, gostava da música moderna e achava que seria bom trabalharmos juntos.
Eu vivia em São Paulo e sabia mexer com a impressão de música em chapas de chumbo, coisa que aprendera desde a publicação de minhas primeiras partituras. O problema é que eu, um alemão, recebia dinheiro de outro alemão, do Uruguai, e um dia a polícia me prendeu, jogaram- me no xadrez e depois, na “Imigração” — uma espécie de campo de concentração — onde convivi com nazistas, japoneses, italianos e outros.

Foram tempos difíceis...
Nos primeiros meses, passei fome de doer, e o primeiro "bico" foi o negócio da impressão de música, numa empresa chamada Fuchs. O filho do dono gostava de mim, via que eu passava fome e não tinha dinheiro. Ofereceu para eu aprender a técnica daquele artesanato e disse que, por saber música, eu dirigiria o ateliê de impressão. Demorei um ano aprendendo e, quando concluí o aprendizado, eles faliram (risos). E "venderam-me", com as ferramentas e máquinas, para outra firma de impressão em São Paulo, onde meses depois fiquei intoxicado gravemente com o chumbo, e deixei aquele negócio.
Esse foi o tempo em que Camargo Guarnieri chegou de Paris, onde fora estudar, e ficamos amigos. Saí em busca de um novo trabalho. Encontrei um alemão que dirigia uma loja chamada Casa e Jardim e me disse ter uma galeria de pintura de que eu poderia tomar conta. Ganhava o suficiente para o arroz e o feijão e só precisava trocar os quadros. Usava o tempo para dar aulas e compor. Dei até concertos lá, e foi onde me prenderam, porque estava falando em alemão com o proprietário.
Já havia a suspeita de espionagem e nos levaram para cadeia. Fiquei numa cela com um judeu e um jovem comunista. Quando nos soltaram, esse judeu disse que eu poderia trabalhar com ele, vendendo guarda-chuvas e papel carbono, o que fiz por um tempo. Afinal, o dono da galeria estava preso. Não fui bom vendedor e, quando saiu da prisão, o outro me convidou para voltar à Casa e Jardim e trabalhar embalando caixotes. Logo fui promovido a vendedor, depois virei caixa e me apaixonei de novo (risos). O proprietário, meu amigo, não gostou, e me transferiu para uma filial no Rio.

E a música?
No Natal, chegou ao Rio a mulher de um regente húngaro que fundara a Orquestra Sinfônica Brasileira com Eleazar de Carvalho. Ela me conhecia da Europa e disse não acreditar que eu não estivesse tocando. Daí falou com seu marido, o regente titular da orquestra, maestro Eugen Zemka. Entrei na orquestra e fui flautista por quatro ou cinco anos. Foi então que iniciei minha carreira de músico no Brasil.

Em 1939, o sr. criou o movimento Música Viva, e as reações foram as piores possíveis. Como as recebeu?
Não sei o porquê de tudo aquilo. Há várias fofocas. Quando fiquei intoxicado, o Guarnieri me visitou, fomos muito amigos e, de repente, não éramos mais. Não sei por quê. Contam que na casa de chá do Mappin, certa vez, minha mulher e a dele puseram-se a brigar sobre quem era o introdutor do dodecafonismo no Brasil. Não sei se foi por  causa dessa discussão delas, que realmente aconteceu, mas ele virou meu inimigo n° 1. Isso durou até 1977, quando ele fez 70 anos e participamos de um concerto em Teresópolis. Viramos não amigos, mas bons colegas.

E quanto às outras reações?
Eram fofocas. Pessoas que não me conheciam achavam que eu era antinacionalista. Mas eu era amigo do Villa-Lobos, do Basílio Itiberê, do Francisco Mignone... Certo, eu não era nacionalista, mas poderia até ter sido, em meio a essa constelação. De qualquer forma, atacavam-me.

O sr. não se revoltou com o país?
Desde que eu fui preso, sempre preferi pensar que essas eram coisas pelas quais se precisa passar num novo país. Nunca sofri, nunca estive infeliz. Tampouco me revoltei com os ataques. Percebi que eram pessoas com outra formação, uma cultura nova que precisava passar pelo nacionalismo a fim de criar sua identidade. Defendi-me, quando me atacavam pelos jornais: um dia, eu era nazista e, no outro, comunista. Mas sabia que estava lutando por uma estética.

Não ser nacionalista não o impediu de admirar Mário de Andrade.
Tive um contato muito bom, embora superficial, com ele. Li “O Café”, e gostei. “O Banquete” e “Macunaíma” são textos que indico a todos os meus alunos que ainda não leram. Mário era um nacionalista, porém moderado, não um fanático, como o Camargo daquela fase ou os comunistas de verdade, como Cláudio Santoro, meu discípulo. Já eu nunca fui do “Partido”, só um simpatizante, como não deixarei de ser.

Entre comunistas e nacionalistas, o sr. não ficou entre dois fogos?
Num certo sentido, sim. Além dos nacionalistas, que me detestavam, vi-me diante de discípulos e amigos que acharam que deviam mudar seu estilo.

Isolado?
Um artista é sempre isolado. Quanto aos outros inimigos, quando 12 anos mais tarde voltei do Oriente, fui convidado para dirigir o Museu da Imagem e do Som do Rio. De cara, quis convidar meus inimigos. Na primeira reunião, pedi a palavra e disse: "Quero fazer agradecimentos aos meus inimigos. Eles merecem, porque eu sofri muito tempo, mas isso foi importante para a minha vida. Agradeço toda essa campanha que fizeram contra mim. Se não tivesse tido isso, não seria quem sou, não me teria esforçado tanto, aprofundado tanto, para chegar à essência das coisas. Isso só aconteceu porque vocês me obrigaram. O adversário é muito mais importante que a pessoa que só o elogia”. Ninguém fez nenhum comentário.

Qual é a importância de sua viagem ao Oriente?
Do ponto de vista ideológico e filosófico, sempre tive muito em comum com aqueles países. Senti que muitas das minhas idéias já estavam realizadas nesses lugares. Há muita equivalência entre o pensamento moderno, da Física Quântica e de outras ciências, e o misticismo metafísico da Índia, do Japão e da Indonésia. Na Índia, há uma fusão entre o rigor sintático e a improvisação, a liberdade de expressão. Acho que até hoje os ocidentais só têm a aprender com eles e nada a ensinar. Mesmo a Delhi School of Music, que fundei na Índia, foi apenas para criar um núcleo de comparações entre o Ocidente e eles.
É possível também aprender a relação não hedonista do indiano com a música. Eles sentem realmente a linguagem. Isso porque a música clássica da Índia tem maior divulgação do que a nossa. Trabalhamos com 12 notas na oitava do piano; eles, com mais de 70, com quartos e oitavos de tom em vez de semitons. É um repertório diferente do nosso, que é mais racional ou racionalista. A liberdade na sua música é imensa e, ao mesmo tempo, há um grande rigor. Lá tudo é moderno, porque é improvisado, mesmo em trechos anotados. E o improvisado está sempre mais próximo do homem comum do que o organizado racionalmente.

Foi da Índia que o Sr. trouxe o conceito de música utilitária, lançado, com grande polêmica, nos anos 70?

A música deve ser funcional no sentido da musicoterapia, da música feita para o rádio, a TV. O futuro da música será sua fusão com atividades extramusicais: a música estará sempre junto com outra linguagem. É um palpite, não sou profeta, mas acho que o concerto é uma forma social em declínio, após ter funcionado mal por anos. Quem vai realmente a um concerto, pelo concerto em si? Eu vivo da música, mas não vou a concertos, a não ser que alguém esteja apresentando uma composição nova com a qual eu possa aprender algo. Vou para enriquecer meu repertório de conhecimento. O concerto não está mais em função da composição. Eu mesmo não componho mais pensando em apresentações.

Sair das salas de concerto é a forma de aproximar o público da modernidade?
A música é como uma linguagem qualquer que se quer aprender. Leva tempo, precisamos ouvir muito e acostumar nossa percepção a cada estilo musical. Sim, acho que a fusão com outras áreas seria uma boa ponte para aproximar o público da modernidade, por meio dos jingles, do teatro, vídeos etc. A música pura, a "música pela música", teremos cada vez menos. Mas cada um ouve e julga música ao seu modo. Não creio que se possa julgar e dar razão ou não a alguém que defenda ou ataque a música nova. O problema maior é que o público não escuta música nova, ele apenas ouve. Gostar da música contemporânea exige esforço, tempo, e quem não está disposto faz melhor deixando a música de lado. Nem todo mundo precisa interessar-se por ela.

O que pensa do novo tonalismo da música contemporânea, da volta a uma sonoridade "agradável" que faz sucesso entre o público?
A fusão entre agradável e moderno é muito perigosa, pois é o que a média das pessoas gostaria de ter. Só que média é mediocridade. Quando me dizem "isso é um sucesso", espero que não seja, porque, se há sucesso, algo não vai bem. Isso nos leva a pensar qual é a função da música. Para mim, o artista tem a função de contribuir na divulgação das grandes ideias que formam a época em que vive.

Como superar a abstração da música para conseguir isso?
Não é abstrata para mim. É uma linguagem, e eu a entendo como você entende português, com vocabulário e sintaxe. Mas precisa ter conteúdo. A música tem uma série de regras, princípios, tantos quanto os que regem a nossa vida hoje. Mesmo em seus contrastes, que não vejo como oposições, mas como elementos que se unem a uma entidade, a um todo. São holísticos, coisas que se complementam. Não existe bem e mal, transcendência e imanência, vida e morte. Tudo, no fundo, é uma coisa só. E são elementos que valem não só na música, mas também na vida. Afinal, não faço diferença entre ser homem e ser artista: é uma coisa só, com seus negativos e seus positivos. Penso também que essa briga com o público é mais importante que a sua solução. Se chegamos a um resultado, esse mudará amanhã. A verdade são sempre as contradições. Eu sou artista e pedagogo com a mesma paixão. Assim, vejo sempre que esses elementos são um só. É importante trabalhar por essa ideia para que, se isso funcionar, possamos criar um mundo mais interessante e de paz.

A música é assim tão valiosa?
O valor, para mim, está no conteúdo da música. Uma música representa todas as ideias importantes do mundo em que vivemos. Por exemplo, essa superação dos opostos. Ou, então, a ideia de um outro tipo de tempo, a quarta dimensão, no sentido de uma transcendência. Essa dimensão não é um fator físico, mas uma forma de pensar. Também é importante ressaltar a ausência da causalidade, no sentido clássico do ser previsível. Em verdade, são inúmeras as causalidades que dão a sensação de uma única causa. Essa é a base filosófica e ideológica do artista. Respeito quem acha que música é entretenimento, mas para mim o artista tem de causar um choque. O choque é importante, pois você volta para casa, discute e temos, assim, um mundo mais rico do que o nosso.

Isso exige um músico diferente.
E também um novo homem, o apreciador. Um homem que esquece seu ego, que vive realmente o todo em que vivemos. Essa é a função do novo artista.

Qual é a função do educador? O sr. gosta de dizer que o bom educador é o que não educa.
Acho que o educador deve dialogar. Eu só posso educar se aprendo com meu interlocutor. A Rádio de Estocolmo pediu, há anos, que eu enviasse fitas com música de meus discípulos. Eles ouviram e o diretor da rádio me perguntou se todos eram alunos de um mesmo professor, pois eram muito diferentes entre si. Isso acontece porque eu aprendo do aluno o que eu tenho de ensinar. Posso dizer "eu não faria isso, mas desse ou daquele modo". No entanto, digo isso como sugestão. Há conceitos que sempre repito antes de começar meus cursos. Não há erro absoluto em arte. O erro é sempre relativo a alguma coisa. Por isso chamo a minha estética de arte do impreciso e do paradoxal. Isso serve para libertar o aluno de todo o tipo de imitação. Ele deve experimentar e inventar algo que antes não existia. Ele precisa de coragem para isso e só a adquire se perder o medo do erro. Depois, digo também que não acreditem em nada do que o professor disser, para não acreditarem no que lêem e, mais importante, não acreditarem em nada do que pensarem. Em outras palavras, questionar tudo, de agora ao fim da vida.

Como foi ser o professor de Tom Jobim?
Ele tinha uma cultura musical e ideológica muito ampla. Nós dois éramos praticamente meninos quando nos conhecemos. Os pais dele tinham uma escola, o Colégio Brasileiro, e eu era o professor de música das crianças. Acho, aliás, que o mais moderno e o mais contemporâneo são as crianças. Devemos aprender a aprender com as crianças. A mãe de Tom pediu-me para orientá-lo e ele estudou comigo contraponto, harmonia e piano. E, apesar de eu próprio ser um péssimo pianista, ensinei-o a tocar piano (risos). Infelizmente, nossa relação não durou muito. O filho e o neto dele estudaram comigo também.

Jobim foi um discípulo de Koellreutter que se empolgou pela música de Villa-Lobos?
É possível que as duas coisas convivam bem. Respeito Villa, mas sem paixão. Ele é um fenômeno especial. Não me entendam errado mas, como músico profissional, ele foi quase amador. Ainda assim, tem a força da personalidade que cria, o que dá grande valor à sua obra. Para mim, o estilo próprio é o critério mais objetivo da obra de arte, e não só para o músico.

Por que o sr. sempre carrega a Bíblia, o Fausto, de Goethe, e  A Arte da Fuga, de Bach?
Tudo o que falamos até agora está na Bíblia ou no Fausto. Quanto à Arte da Fuga, de Bach, já a regi mais de 50 vezes. É uma obra fascinante, em que cada nota tem significado e, ao mesmo tempo, há uma unidade fantástica. Muitos me perguntam como chego a essas conclusões estranhas e lhes respondo que estudei o futebol na Copa do Mundo de 1994, quando o Brasil ganhou seu quinto campeonato. Em campo, vi que a disciplina incrível do time brasileiro convivia com uma liberdade extraordinária diante do adversário. Isso é a música. Pensei na hora na Arte da Fuga, rigorosamente disciplinada e, ao mesmo tempo, de uma liberdade de interpretação total. Desde então, trabalho deste modo: misturo aquilo que acho que é a estrutura básica, os pilares da composição, com uma mudança constante do que está entre esses pilares. Espero não abandonar essa forma de compor antes de desaparecer.

[ texto da publicação original por  Carlos Haag ]