terça-feira, 28 de maio de 2013

21 - AMIGO É PRA ESSAS COISAS

A primeira vez na vida que coloquei os dedos num violão, em setembro de 1962, foi na casa do meu colega Rubinho de Oliveira, hoje médico. Ele me ensinou a tocar “Este Seu Olhar”, de Antônio Carlos Jobim, usando quatro acordes. Acho que tive várias extra-sístoles naquela meia hora da aula. Nessa noite não consegui dormir: fiquei tocando até a ponta dos dedos incharem, porque nunca sentira um prazer tão grande como aquele – eu ainda era virgem de mulher. Como não tinha os calos necessários, quando os dedos doíam pra valer eu punha umas pedras de gelo numa cumbuca e deixava-os mergulhados lá até ficarem roxos e insensíveis, depois recomeçava. Nem as “viagens” de ácido lisérgico, que experimentei anos mais tarde, foram tão delirantes. Na manhã seguinte, no Liceu Pasteur, onde eu estava fazendo o 2º ano do curso científico, mais de um colega fez piada com minhas olheiras pretas:
-- Cê precisa maneirar na punheta, Fred!  
A partir daí eu às vezes jantava na casa dele, geralmente numa quarta-feira, e depois íamos para o quarto fazer a aula. Tímido do jeito que eu era, foram difíceis (os primeiros jantares, não as aulas). Nunca vou esquecer a primeira vez que isso aconteceu, porque me servi mais frugalmente que um monge trapista e não amassei o feijão: tinha aprendido que era falta de educação fazer isso na casa dos outros. Os pais dele e a irmã, gente que não podia ser mais simpática e carinhosa, riram muito daquilo:
-- Pode amassar o feijão, Fred, não precisa ficar com vergonha.
Não sei o que resulta da mistura de amarelo com roxo, mas tenho certeza de que era essa a cor da minha cara naquele momento. Afinal, não há nada mais constrangedor para uma pessoa tímida do que dizerem a ela que não precisa se envergonhar, mas ali comecei a saber que “casa dos amigos” não é a mesma coisa que “casa dos outros”. E que a mãe dele fazia um feijãozinho supimpa.
O diacho é que, já tocando e cantando meia dúzia de músicas, eu comecei a achar uma tremenda chateação ter que parar de tocar para ir estudar os sais de ácido carboxílico ou o efeito Doppler-Fizeau.
O segundo, na ordem dos culpados pela minha metamorfose, foi outro colega de classe: Constâncio de Carvalho Filho, hoje médico veterinário. Me ensinou a tocar “I Wanna Hold Your Hand”, dos Beatles. Pouco depois se tornaria meu primeiro parceiro de composição – “Flip Flop”, um rockinho tão senvergonha que hoje poderia bombar fácil no You Tube, daqueles que você toca só uma vez e já gruda na orelha da gente, não sai nem com psicanálise. Sei de cór até hoje. Do seu cardápio doméstico, o que me lembro é chicken alla king, costumeiro em suas festas de aniversário.
Em terceiro veio Antero Costa Filho, que se tornaria um renomado neurocirurgião e professor de Medicina na Santa Casa (de Rubinho não sei a qual especialidade se dedicou, porém aposto meu violão Segóvia que deu também um grande doutor). Fui várias vezes passar alguns dias na casa dele, em Muzambinho/MG – na época, a cidade brasileira com maior número de mulheres lindas por Km2. Embora Dona Zica, mãe dele, fosse o tipo da mãezona mineira, e conquanto eu já fosse um pouco menos tímido, é dessa minha primeira estadia fora do lar que guardo na memória meu segundo grande constrangimento gastronômico. Acho que esse meu causo até merece um parágrafo.
Era o Carnaval de 1964. Carlos Alberto Martini Bobbio (depois professor da Odontologia na USP) e Milton Joel Nordhäusen Pace (cuja posteridade desconheço) tinham viajado um dia antes de mim, que só pude ir no sábado. De São Paulo até Caconde, oito horas de viagem; lá se fazia baldeação para ir, por estrada de terra, de jardineira, até Muzambinho, mais duas horas. Sei dizer que cheguei às 9 da noite, tomei um banho rápido – o baile começava às 10 em ponto, e a gente não queria perder nem um minuto da festa – e sentei sozinho à mesa da cozinha de Dona Zica para jantar, pois todos já tinham comido há horas. Em volta, os três colegas, as três irmãs do Antero, a mãe, uns primos dele... só o pai não estava, que ainda tinha que atender alguém no seu consultório médico. Enfim: uma multidão esperando educadamente que eu acabasse o rango pra sair. Imaginem uma comida caseira mineira, feita por mãe mineira, assim mal apreciada... é cruel. Acho que nunca antes nem depois sofri tanto para engolir nada – nem mesmo as cápsulas de remédio contra tuberculose que passei um ano tomando, muitos anos depois; de resto, nunca gostei muito de plateias, mesmo quando me tornei músico profissional, era sempre um sacrifício.
Fosse pouca essa odisseia, o baile mal havia começado quando o Antero – que já estava com uma considerável taxa de etanol no sangue na hora da minha janta – simplesmente resolveu quebrar o pau com alguém que tinha (segundo ele) passado a mão na bunda da menina com quem ele estava pulando. Quem já foi a um baile de Carnaval sabe como é banal uma briga assim, acontece sempre; se a gente for bater em todo mundo que encosta na sua mulher, melhor ficar em casa, porque vai ficar a noite inteira brigando. Só que o futuro Doutor Costa Filho estava enlouquecido, e partiu babando pra cima do outro. Euzinho, por acaso, estava perto nessa hora, dançando com a Fátima Rezende (que foi minha primeira paixão na vida), e achei que devia segurar o bicho. Se ele não estivesse bem próximo de um coma alcoólico ou estivesse ao menos enxergando alguma coisa na frente dele, não teria me dado aquele soco no estômago, mas deu, e eu descomi ali mesmo a pouca comida que tinha conseguido jantar. Mais tarde, após 5cc de glicose na veia, já sentados na escadaria do clube, ele me pediu milhões de perdões, chorando rios de arrependimento, como só os bêbados conseguem chorar. É óbvio que tal incidente nem me machucou e muito menos me magoou, mas estou lembrando dele pra contar que nada é mais constrangedor do que vomitar no meio do salão num sábado de Carnaval: N-A-D-A.
Termino deixando-lhes um sábio conselho de velho experiente: se um seu amigo do peito estiver muito bêbado e quiser brigar com alguém, só chegue perto se ele estiver desmaiado ou morto; conforme o caso, chame a ambulância ou a polícia.     

*    *    *    *
P.S.: ninguém se esforçou tanto quanto Antero, Constâncio e Rubinho para fazer de mim um médico, me arrastando nas costas pra estudar nos meses que antecederam o exame vestibular, mas eu ainda não tinha suficiente consciência dos meus sentimentos para explicar a eles que era um desperdício de dedicação – eu não poderia ser feliz se não me tornasse aquilo que já era e não sabia: um simples músico.



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