A primeira vez na vida que coloquei os dedos num
violão, em setembro de 1962, foi na casa do meu colega Rubinho de Oliveira,
hoje médico. Ele me ensinou a tocar “Este
Seu Olhar”, de Antônio Carlos Jobim, usando quatro acordes. Acho que tive
várias extra-sístoles naquela meia hora da aula. Nessa noite não consegui
dormir: fiquei tocando até a ponta dos dedos incharem, porque nunca sentira um
prazer tão grande como aquele – eu ainda era virgem de mulher. Como não tinha
os calos necessários, quando os dedos doíam pra valer eu punha umas pedras de
gelo numa cumbuca e deixava-os mergulhados lá até ficarem roxos e insensíveis,
depois recomeçava. Nem as “viagens” de ácido lisérgico, que experimentei anos
mais tarde, foram tão delirantes. Na manhã seguinte, no Liceu Pasteur, onde eu
estava fazendo o 2º ano do curso científico, mais de um colega fez piada com
minhas olheiras pretas:
-- Cê precisa
maneirar na punheta, Fred!
A partir daí eu às vezes jantava na casa dele,
geralmente numa quarta-feira, e depois íamos para o quarto fazer a aula. Tímido
do jeito que eu era, foram difíceis (os primeiros jantares, não as aulas).
Nunca vou esquecer a primeira vez que isso aconteceu, porque me servi mais
frugalmente que um monge trapista e não amassei o feijão: tinha aprendido que
era falta de educação fazer isso na casa dos outros. Os pais dele e a irmã,
gente que não podia ser mais simpática e carinhosa, riram muito daquilo:
-- Pode
amassar o feijão, Fred, não precisa ficar com vergonha.
Não sei o que resulta da mistura de amarelo com
roxo, mas tenho certeza de que era essa a cor da minha cara naquele momento.
Afinal, não há nada mais constrangedor para uma pessoa tímida do que dizerem a
ela que não precisa se envergonhar, mas ali comecei a saber que “casa dos
amigos” não é a mesma coisa que “casa dos outros”. E que a mãe dele fazia um
feijãozinho supimpa.
O diacho é que, já tocando e cantando meia dúzia de
músicas, eu comecei a achar uma tremenda chateação ter que parar de tocar para
ir estudar os sais de ácido carboxílico ou o efeito Doppler-Fizeau.
O segundo, na ordem dos culpados pela minha
metamorfose, foi outro colega de classe: Constâncio de Carvalho Filho, hoje
médico veterinário. Me
ensinou a tocar “I Wanna Hold Your Hand”,
dos Beatles. Pouco depois se tornaria meu primeiro parceiro de
composição – “Flip Flop”, um rockinho
tão senvergonha que hoje poderia bombar fácil no You Tube, daqueles que você
toca só uma vez e já gruda na orelha da gente, não sai nem com psicanálise. Sei
de cór até hoje. Do seu cardápio doméstico, o que me lembro é chicken alla king, costumeiro em suas
festas de aniversário.
Em terceiro veio Antero Costa Filho, que se
tornaria um renomado neurocirurgião e professor de Medicina na Santa Casa (de
Rubinho não sei a qual especialidade se dedicou, porém aposto meu violão
Segóvia que deu também um grande doutor). Fui várias vezes passar alguns dias
na casa dele, em Muzambinho/MG – na época, a cidade brasileira com maior número
de mulheres lindas por Km2. Embora Dona Zica, mãe dele, fosse o tipo da mãezona
mineira, e conquanto eu já fosse um pouco menos tímido, é dessa minha primeira
estadia fora do lar que guardo na memória meu segundo grande constrangimento
gastronômico. Acho que esse meu causo até merece um parágrafo.
Era o Carnaval de 1964. Carlos Alberto Martini
Bobbio (depois professor da Odontologia na USP) e Milton Joel Nordhäusen Pace
(cuja posteridade desconheço) tinham viajado um dia antes de mim, que só pude
ir no sábado. De São Paulo até Caconde, oito horas de viagem; lá se fazia baldeação
para ir, por estrada de terra, de jardineira,
até Muzambinho, mais duas horas. Sei dizer que cheguei às 9 da noite, tomei
um banho rápido – o baile começava às 10 em ponto, e a gente não queria perder
nem um minuto da festa – e sentei sozinho à mesa da cozinha de Dona Zica para
jantar, pois todos já tinham comido há horas. Em volta, os três colegas, as
três irmãs do Antero, a mãe, uns primos dele... só o pai não estava, que ainda
tinha que atender alguém no seu consultório médico. Enfim: uma multidão esperando
educadamente que eu acabasse o rango pra sair. Imaginem uma comida caseira
mineira, feita por mãe mineira, assim mal apreciada... é cruel. Acho que nunca
antes nem depois sofri tanto para engolir nada – nem mesmo as cápsulas de
remédio contra tuberculose que passei um ano tomando, muitos anos depois; de
resto, nunca gostei muito de plateias, mesmo quando me tornei músico
profissional, era sempre um sacrifício.
Fosse pouca essa odisseia, o baile mal havia
começado quando o Antero – que já estava com uma considerável taxa de etanol no
sangue na hora da minha janta – simplesmente resolveu quebrar o pau com alguém
que tinha (segundo ele) passado a mão na bunda da menina com quem ele estava
pulando. Quem já foi a um baile de Carnaval sabe como é banal uma briga assim,
acontece sempre; se a gente for bater em todo mundo que encosta na sua mulher,
melhor ficar em casa, porque vai ficar a noite inteira brigando. Só que o
futuro Doutor Costa Filho estava enlouquecido, e partiu babando pra cima do
outro. Euzinho, por acaso, estava perto nessa hora, dançando com a Fátima
Rezende (que foi minha primeira paixão na vida), e achei que devia segurar o
bicho. Se ele não estivesse bem próximo de um coma alcoólico ou estivesse ao
menos enxergando alguma coisa na frente dele, não teria me dado aquele soco no
estômago, mas deu, e eu descomi ali mesmo a pouca comida que tinha conseguido
jantar. Mais tarde, após 5cc de glicose na veia, já sentados na escadaria do
clube, ele me pediu milhões de perdões, chorando rios de arrependimento, como
só os bêbados conseguem chorar. É óbvio que tal incidente nem me machucou e
muito menos me magoou, mas estou lembrando dele pra contar que nada é mais
constrangedor do que vomitar no meio do salão num sábado de Carnaval: N-A-D-A.
Termino deixando-lhes um sábio conselho de velho
experiente: se um seu amigo do peito estiver muito bêbado e quiser brigar com
alguém, só chegue perto se ele estiver desmaiado ou morto; conforme o caso,
chame a ambulância ou a polícia.
*
* * *
P.S.: ninguém se esforçou tanto quanto Antero,
Constâncio e Rubinho para fazer de mim um médico, me arrastando nas costas pra
estudar nos meses que antecederam o exame vestibular, mas eu ainda não tinha
suficiente consciência dos meus sentimentos para explicar a eles que era um
desperdício de dedicação – eu não poderia ser feliz se não me tornasse aquilo
que já era e não sabia: um simples músico.
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