Tempos atrás, assistindo ao programa
Observatório da Imprensa, ouvi jornalistas e especialistas em mídia falando
sobre as concessões de rádio no Brasil, que são assinadas pelo presidente da
República e referendadas pelo Congresso Nacional, portanto concedidas por mim,
lá representado por eles. Daí que fiquei um pouco preocupado (embora nada
surpreso) quando alguém, não me lembro quem, disse que nem a Anatel nem o
Ministério das Comunicações sabem a quem pertencem hoje tais concessões. São
milhares de emissoras no Brasil. Do pouco que alguns deles pesquisaram a
respeito, é certo que a brutal maioria está nas mãos de políticos ou de seus
familiares. O levantamento disso levaria muitos meses, talvez anos de
investigação, pois tais concessões foram vendidas e revendidas diversas vezes
durante anos, estando agora registradas em nome de "laranjas".
Em 1980 eu me mudara para a cidade de Olímpia/SP
(tentando pela última vez salvar meu primeiro casamento para ficar junto dos
meus filhos) e sobrevivi durante alguns meses dando aulinhas de violão. Naquele
momento fiquei sabendo que o Conselho de Segurança Nacional, com o país então
sob a ditadura do General Figueiredo, decidira ser necessário
"cercar" o espaço radiofônico nacional porque a Rádio Havana, então a
mais potente do mundo, era captada até por radinhos de pilha em qualquer ponto
das Américas, do Alasca à Patagônia. Em função disso o famigerado Senado
Biônico vigente na época aprovou milhares de concessões para novas emissoras;
não é modo de dizer, foram mesmo milhares, conquanto ninguém saiba hoje
oficialmente quantas. Para aproveitar o embalo, foi decretado que não poderia
mais haver emissoras com menos de 1 quilowatt de potência – sendo que 90% das
rádios brasileiras tinham apenas 250 watts nos seus transmissores. Potência de
1 kw abrange ouvintes entre 10 e 100 km de distância, dependendo da formação
geológica do solo nas várias direções a partir da antena transmissora. Ou seja:
além das novas estações haveria cerca de 3 ou 4 mil rádios antigas que seriam
obrigadas a trocar seus equipamentos, inclusive torres de transmissão (de custo
astronômico).
Corria o boato (?!) de que as concessões saíam
do Congresso Nacional assim: 10 para o general Beltrano, 20 para o senador Tal,
25 para o ministro Não-Sei-Quem, 5 para a mulher do deputado Fulano, mais 5
para a amante do Doutor Quizumba, 5 para o presidente do Sindicato Legal, 20
para o líder da ALGATO na Câmara (Aliança da Gatunagem Total, que dois anos
depois mudaria de nome, mas eu não posso contar qual, vocês tratem de imaginar
o que bem quiserem)... Depois as rádios eram, quase sempre, vendidas a preços
apetitosos. Apetitosos para todos, tanto os que vendiam como aqueles que
perceberam a alavanca eleitoral que representava ser “dono” de uma rádia -- no
interior o substantivo é usado no feminino, rádia, pelo povo com menor
instrução.
Em Olímpia montou-se imediatamente uma FM nova,
e a velha rádia AM Difusora-Olímpia – cujo proprietário há 30 anos fazia todos
os programas, exceto os de música caipira, tendo apenas um faxineiro e um
caipira profissional como funcionários – foi vendida a um grupo de cinco
ricaços da cidade. Dizem as más línguas que a concessão original saíra
para um certo deputado federal de nome Waldemar Lopez Ferraz, cacique por lá –
cuidado para não confundir com aquele outro Waldemar que é presidente do
Partido Liberal e outro dia renunciou ao mandato após as acusações que o
deputado Roberto Jefferson lhe fez com o dedo na cara, em pleno escândalo do
“Mensalão”, depois confirmadas pela ex-mulher dele — melhor o Capeta do que uma
ex-mulher, diz a sabedoria popular.
Sabendo disso – das novas concessões, não que
ex-mulher é pior que praga de madrinha – e apesar de não entender nadinha de
rádio, fiz um projeto para reforma e adaptação da rádio antiga. Tal projeto foi
aceito, a contragosto do mais ratazana dos novos sócios, simplesmente porque
era tecnicamente viável e proposto a um custo dez vezes menor do que pedia uma
empresa especializada de São Paulo. Li rapidamente tudo que pude a respeito,
viajei diversas vezes à capital para administrar a compra e instalação dos
novos equipamentos, gerenciei a reforma do prédio e da programação e,
principalmente, encontrei um antigo profissional da Rádio Globo, com 20 anos de
experiência, que tinha dois filhos pequenos e estava doido pra ir morar
sossegadamente no interior.
O sujeito sabia tudo, desde ligar um fio até
operar o transmissor, além de que me ensinou muito a respeito de programação,
discoteca, locução, comercialização, permutas, enfim: foi sopa no mel. Fosse
pouco, conhecia todos os divulgadores das grandes gravadoras, o que significava
recebermos mensalmente dezenas de discos recém-lançados. Só para dar uma ideia
do que ele representava naquela situação, quando começou a Guerra das Malvinas
ele conseguiu uma conexão direta com um seu amigo que era repórter da Globo, lá
no cenário da guerra, e eu entrevistei o jornalista "ao vivo", coisa
que só uma ou duas megaemissoras conseguiram fazer.
Para tocar inicialmente o projeto sem nadica de
nadoca – sem dinheiro (que os novos proprietários eram tão "pão
duros" quanto ricos), sem disc-jockeys profissionais e com uma discoteca
que devia ter sido formada pela faraoa Hatshepsut no século XVIII antes de
Cristo – fiz o seguinte: chamei diversos jovens recém-formados (engenheiros,
médicos, agrônomos, arquitetos etc.) que estavam retornando à cidade natal para
realizar lá suas profissões, e botei todo mundo produzindo programas. Eles
tinham todos os discos necessários, muitas ideias e a vontade de fazer – a
custo zero. Ao mesmo tempo eu e o Ariovaldo (o tal radialista tarimbado)
selecionamos meia dúzia de adolescentes que estavam terminando o curso médio, e
inventamos lá um cursinho ultrarrápido para capacitar os meninos a manipular
pick-ups e cartucheiras e gravadores e os badulaques todos, inclusive a mesa de
som.
O projeto geral foi copiado de uma revista
americana que eu descobrira (Networks) e realizado por um recém-engenheiro da
Escola Politécnica da USP, que deitou e rolou (até porque era filho único de um
dos novos sócios), ficando a sala da técnica parecida com a cabine de uma nave
espacial, da qual uma única pessoa, sentada, era capaz de controlar tudo, inclusive
o transmissor e a torre que ficavam a 3 km do centro da cidade. Gastamos uma
boa grana dos donos, porém ainda assim um custo mínimo para o nível da coisa
que resultou.
Aí inventamos uma programação que pretendia
abranger todos os gostos. Fomos atrás de um antigo caipira e um ex-palhaço de
circo que estavam no ostracismo, para fazer os programas diários de cultura
regional. Para o "Fim de Noite", último da nova grade de programação,
das 23 horas à 1 da manhã, convidei uma donona loira da alta sociedade olimpiense,
com voz de gata no cio, verdadeira Julie London tupiniquim. Criamos também um
programa com os velhos seresteiros e boêmios da região, feito dentro do
magnífico estúdio com microfones Neumann e som de alta fidelidade, cantando e
contando causos antigos (devidamente turbinados a cerveja e birinaites, sendo
que os gastos disso eu mandava o contador botar como manutenção em
"Despesas Gerais", uma lista tão grande de rebimbocas que nunca os
chefões iam ter saco de verificar). Eu, que nunca tinha feito isso na vida,
comecei a apresentar os programas noturnos, e acabei gostando da coisa ao ponto
de até fazer algum sucesso, recebendo dezenas de cartas de tiazinhas
agradecendo os boleros, tangos, sambas-canções, big bands e temas cinematográficos que eu tocava. Um outro,
dirigido às donas de casa, que eu batizei como "Lugar de Mulher" e
provocou muita discussão a respeito de preconceitos (o que aliás era exatamente
a minha intenção), apresentado por uma viúva de meia idade que acabou se
tornando profissional e trabalha até hoje em rádio, maior sucesso numa grande
cidade do interior. Outro ainda só com estudantes discutindo sexualidade,
drogas, ética e os cambaus, com especialistas de diversas áreas. "Hoje É
Dia de Rock", no sábado à noite, com recadinhos para a moçada que ficava
nas lanchonetes com o rádio do carro ligado no último volume. Futebol regional
em transmissão direta, com o Olímpia Futebol Clube disputando a 2ª. Divisão do
Campeonato Paulista. Um festival permanente de música caipira e brega, que acontecia
todos os sábados na melhor churrascaria da cidade — vinha gente que largava a
roça duas horas antes para poder chegar a tempo de participar, inclusive
artistas de real talento; além de ser muito divertido apresentar o programa,
que era transmitido ao vivo, era ótimo ver a alegria geral e o entusiasmo de
disputarem os prêmios (picanhas, costelas, cupins e outras gostosuras
oferecidas pelo restaurante em permuta de propaganda). Três jornalísticos
diários, apresentados pelo Ariovaldo, que tinha ótima voz para ler jornais e
queria muito (mas nunca conseguiu) me convencer a produzir um programa onde só
fossem veiculadas notícias boas e alegres.
-- “ Tá
legal, Ari: com tanta coisa boa acontecendo por aí, vai ser fácil fazer. Que
tal batizarmos de 'Segundo Baseado'?”
A turma dos "doutores" cuidava do
horário entre 20 e 23 horas, com absoluta liberdade para tocar o que quisesse,
pois as rádios não competiam com a TV nesse horário de novelas, filmes e
humorísticos, de modo que podíamos também realizar programas previamente
gravados sobre música, poesia, cinema, política, enfim: coisa de Primeiro
Mundo, um luxo de diversão e cultura.
Claro que isso incomodou um bocado de gente. Os
padres não, porque eu tinha feito amizade com os franciscanos e dominicanos de
lá, inclusive transmitindo diariamente uma oração às 18 horas, mais a missa das
7 de domingo. Como ainda não tinha acontecido no Brasil essa avalanche de
seitas autodenominadas "evangélicas", nas quais os autoconsagrados
pastores e bispos foram assumindo posse exclusiva sobre os direitos autorais da
Bíblia Cristã, os pentecostais e quetais eram muito poucos e ainda não tinham
grana para comprar nossos horários da madrugada, aleluia! Só sei dizer que o
cacete na minha inconspícua pessoinha começou na rádio concorrente e nos
hebdomadários locais: esse rapaz é subversivo.
Comecei a “dançar” mesmo foi quando, nas
eleições de 1982, recebi ordem expressa dos proprietários: não pode entrevistar
gente do PT nem do PDT e nem de nenhum partido “de esquerda”. Pergunta se eu
não entrevistei pessoalmente o Aloysio Mercadante e o Zé Dirceu quando
visitaram a cidade durante a campanha para deputado estadual. Naquele momento
eu não sabia que estava ajudando a chocar o ovo da serpente, porém fiz o que
era decente. Quero registrar isto: nunca antes ou depois vi nenhum deles
pessoalmente. E, nas muitas vezes que subira em caminhões para cantar nos
comícios do PT e do PCB, "fi-lo porque qui-lo" (como dizia
aquele presidente paranoico, Jânio Quadros), sendo eu então ingênuo o bastante
para não perceber que aquilo era mesmo uma quadrilha fascista digna de
Mussolini e Stálin.
A partir daí – eu já estava morando num hotel,
aguardando a audiência do divórcio – comecei a receber bilhetinhos do tipo
"se você não sair da cidade em 24 horas vai ganhar um olho no meio da
testa". Todo dia tinha um papelzinho novo na recepção, muito divertido,
espantoso mesmo. Eu “não dava bola”, achando o máximo estar vivendo aquela
experiência, coisa de filme de espionagem, me sentindo o próprio Smiley
enfrentando a KGB. Até que um dia, chegando na rádio às 7 da manhã, fui barrado
logo na porta por um gorila de terno preto surrado:
--
"Não pode entrar."
--
"Mas eu sou o gerente!"
--
"Não é mais.”
-- “Como
assim?”
-- “Ordem
do Doutor Baiocchi."
Na minha mesa já havia outro gerente, que me
substituíra sub-repticiamente em algum momento entre 1 e 5 da manhã. Achei
muito bacana aquilo, porque sempre tive um recôndito desejo de ser protagonista
de um evento do qual se pudesse dizer que acontecera "na calada da
noite". Dois dias depois eu estava devidamente divorciado e me mandei de
lá, pra nunca mais. Uma pena: mudaram tudo e, em menos de um ano, morreram
todos os programas, morreu a audiência, morreu a rádio. Está lá até hoje, porém
melancolicamente pífia, como sempre fôra antes daqueles breves dois anos de
brilho radialístico.
Todo esse lero para contar-lhes que aquela
rádia, ZYK-530, nunca esteve registrada em nome de nenhum dos cinco sócios.
Multipliquem isso por 10.000 e terão uma vaga noção do que se passa no Brasil
radiofônico de hoje. E entenderão melhor como é que se elegem tantas figuras
canhestras para fazer deste país o mais atrasado do mundo (isso porque, no
Zimbábue, ao menos se cortam cabeças, já é mais próximo da democracia francesa do
que comprar votos com esmolas à metade da população).
Por falar em alhos e bugalhos, essa rádia me
propiciou conhecer melhor o funcionamento da mídia no Brasil. Desde 1809, por
obra e graça de Dom João VI, o único registro válido para garantir direitos de
propriedade intelectual, autorais e conexos, era feito no Instituto de Música
da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Custava R$40,00 por música para
fazer o registro da partitura, isso se você tivesse uma partitura. Não bastava
uma fita K7 nem os versos escritos a mão; tinha que ser partitura musical e 5
cópias da letra datilografada em papel A4 com tipo gráfico Times New Roman em
espaço duplo. No caso de você não saber escrever partituras musicais, devia era
deixar de ser vagabundo, virar um trabalhador e entrar num bom Conservatório
(ou num bom partido político). A outra opção: gastando apenas uns R$100,
poderia encontrar alguém que escrevesse pra você, de forma que, com uns míseros
R$1.400, equivalentes na época a quatro salários mínimos, qualquer Zé Ninguém
podia sair por aí tentando colocar dez de suas composições nas mãos dos
produtores de discos.
Hoje temos o ECAD, muito mais sofisticado, mas
eu não aconselho nenhum autor a entrar lá incauto; é muito perigoso se você não
for petista nem filiado a algum dos partidos que dão sustentação política ao
sombrio esquema que chamam eufemisticamente "governabilidade" — isso
tem também um outro nome, mas eu não vou dizer aqui, porque é muito feio. E eu
sou bem educado, como vocês sabem.
Em resumo: se você não conhecer algum Donga ou
Chico Alves para dividir com você a autoria da música que você fez sozinho, pode muito bem guardá-la no baú ou jogar fora,
ninguém “tá nem aí”. Melhor guardar no baú: este é o país do futuro, de modo
que seus netos ou bisnetos poderão, quem sabe, com alguma sorte, preservar a
sua arte e oferecê-la um dia ao prazer do mundo.
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