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quarta-feira, 29 de maio de 2013

28 - CACETE

Recebi mensagem da minha amiga Baronesa, a respeito de um videozinho que publiquei na Internet sobre os 200 anos do nascimento de Richard Wagner.
Nélson Rodrigues disse: Todas as vaias são boas, inclusive as más. Esta sua, Sra. de Nhumirim, é das mais malvadas.
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Wagner, acho que o Sr. fez porque tinha que fazer... texto broxante... e medíocre... ''artistas desonestos'' é de doer, quais os honestos?... pela madrugada!... e um trem que não acaba, listagem de românticos... um por um... funcionário público fazendo relatório na marra... e eu anelando por W.!
(...) lembro que Munique + Speer filmados pela Leni fizeram cenas brilhantésimas sob a música wagneriana... que aula esplêndida de História sairia disso! há muito o que descobrir e contar.......
foi a sua primeira aula inaceitável !
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Nem vou copiar a mensagem inteira, foi daí pra baixo. Levei um cacete. Foi mais do que uma vaia, foram apupos, praticamente uma lapidação. Lamento que a Sra. não tenha postado esses comentários diretamente no meu blog; seria mais instigante e talvez uns 2 ou 7 dos meus leitores ficassem mais ilustrados, quem sabe até contentinhos de alguém ter escrito essa diatribe que eles podem achar merecida mas não têm tempo a perder. 
Helene Bertha Amalie Riefenstahl, de apelido Leni, só é conhecida por ter sido a cineasta que dirigia filmes de propaganda para Adolf Hitler -- aquele paranoico esquizofrênico que fazia o possível para tornar a cada dia mais ridículo o seu bigodinho e a cada noite mais cruéis os seus delírios patológicos. Na juventude, Leni tentara ser bailarina, mas não foi feliz; Adolf tentara ser pintor de quadros, mas também não foi feliz. Juntos, deram  certo, ao menos até 1945, quando ele desapareceu e ela foi filmar tribos negras na África.
Aos 80 anos se encheu disso tudo e virou fotógrafa submarina. Faleceu em 2003, aos 101 anos de idade, possívelmente comida por umas orcas preto-e-brancas, coitadas. Há especialistas em arte cinematográfica que a consideram um gênio; a tal respeito me calo, sei muito pouco, porém vou perguntar ao Danilo Warick (meu primo cineasta que trabalha na Europa), a Lucas dos Santos (cineasta emérito e compositor premiado) e à Baronesa de Nhumirim (crítica de cinema tão linda quanto impiedosa). De Leni Riefenstahl a Hitler, deste a Richard Wagner.
Cujas ideias sócio-políticas sempre foram rigorosamente fascistas. Não que ele desse a mínima importância a isso, ou a qualquer coisa da qual não pudesse tirar proveito pessoal; protegido por seus princípios amorais, dedicou-se sempre com afinco à prática de imoralidades. Em outras palavras: quando não estava escrevendo música genial, Wagner estava sacaneando alguém. 
Hitler tinha só 6 aninhos quando Wagner morreu. Quando escreveu seu livro "Minha Luta", na prisão, o maluco já escolhera a trilha sonora perfeita para o nazismo. Juntou a fome com a vontade de comer. Tudo isso vocês já sabiam, tá tudinho no Google; só estou aproveitando para explicar que diabo estou eu  fazendo aqui no Facebook. 
(1.º) Tenho absoluta certeza de que poucos dos meus facebookers sabem quem foi Albert Speer, portanto não se interessariam em ler aqui, ao som da "Cavalgada das Valquírias", um estudo sobre as relações estéticas entre um gênio da música e um arquiteto megalomaníaco.
(2.º) Não é uma aula do meu curso audiovisual de Introdução à História da Música; é um excerto, a parte final de uma única aula.
 (3.º) Conforme está escrito em letras grandes no início do vídeo, não é uma aula sobre Wagner; é sobre o final do período estético chamado Romantismo.
(4.º) Não acho que seja mera listagem burocrática de autores românticos; são alguns dos maiores compositores contemporâneos de Wagner, ao som de uma das mais lindas interpretações de uma das mais perfeitas canções de uma das melhores óperas jamais escritas
(5.º) Se alguma vez aparecer aqui na minha página um texto falando qualquer coisa boa de um nazista, só há duas possibilidades: ou é falso ou eu esquizei definitivamente. 
Tudo isto posto e argumentado, ordeno que
1.    a Sra. ajoelhe no milho – pode ser de pipoca, pra não ferir vossos belos joelhos -- e medite sobre o efeito dos raios gama nas margaridas dos campos da Bavária;
2.     peça-me perdão;
3.     renegue imediatamente tudo que me escreveu;
4.     jure por Deus que não me vem mais defender esses nazistinhas que o lixo da História já se encarregou de reciclar;
5.     cante dez vezes nossa canção favorita enquanto chupa drops de aniz.      
         



http://www.youtube.com/watch?v=pES9nedkML8

terça-feira, 28 de maio de 2013

19 - KOELLREUTTER

Estudei composição com Koellreutter de 1984 a 1995, dos quais 7 anos como aluno. Brigamos três ou quatro vezes, por razões musicais ou extra-musicais, e aí ficávamos de mal por um semestre ou dois, sem nos telefonarmos nem frequentarmos os mesmos lugares. Era um daqueles casos de amor eterno.
Duas vezes trabalhei com ele, convidado como seu assistente na série de 12 programas “Ouvido e Consciência”, na Rádio FM Cultura, e mais tarde como convidado para um grupo de estudos de renovação da pedagogia musical, realizado durante um ano no Instituto de Estudos Avançados da USP.
Foi casado muitas vezes, a última e mais duradoura delas com Margarite Schack, famosa soprano alemã nas últimas décadas do século XX. Ela passava metade do ano na Europa, enquanto ele circulava para atender todos os alunos possíveis em São Paulo, Rio, Curitiba, Belo Horizonte e Salvador. Certa vez deixou de ir receber um importante prêmio na Academia de Santa Cecília, em Roma, durante o verão europeu, para ir dar um curso de composição em La Paz, na Bolívia – Margarite ia receber a medalha na cerimônia, a grana eles depositavam numa conta bancária, enquanto ele ia se divertir ensinando (e aprendendo com) uns incas moderninhos.
Seu melhor aluno em todos os tempos, confidenciava a quem participou de sua intimidade, foi um médico de nome Mauro, que nunca se dedicou à música profissional, embora tivesse um gênio criador único. O Velho achava os elogios uma perda de tempo; o que interessa são as críticas. 
Nas paredes da sua sala, no apartamento de São Paulo, pedia para os "escolhidos" assinarem seus nomes em letras bem grandes; minha mulher, a pianista Maria Emília Tosin, que ele declarava ser sua pianista favorita, foi um desses dez ou doze privilegiados, junto com Magda Tagliaferro, Michel Phillipot, Anna Stella Schic e outros que não lembro. Euzinho nunca tive essa honra, embora fosse um dos raros convidados para uma cachacinha na cozinha, durante as aulas, que ele marcava sempre no último horário, começando às 9 e terminando quando acabavam. Recebi dele um único elogio explícito em todos os anos de nossa convivência, mas foi feito quando ele me apresentou a um grande compositor contemporâneo, Hans-Joachim Hespos – com quem, aliás, jantei nessa noite no Rubayat da Avenida Vieira de Carvalho, de onde voltamos de táxi porque eu não lembrava onde tinha estacionado meu carro (aliás sem a menor condição de dirigir nem um carrinho de brinquedo), saindo ambos de perna mole e babando, ele entupido das deliciosas batidas de maracujá (o melhor coisa brasileiro depois dos bundas morrenas) e eu jurando que nunca mais tomaria um maldito Campari na vida.
Transcrevo abaixo a última entrevista dele.

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' Música precisa ter conteúdo '

Nesta entrevista, publicada pelo 'Estado de São Paulo' em 1º de novembro de 1997, o compositor alemão Hans-Joachim Koellreutter falou sobre sua infância, a perseguição nazista, sua chegada ao Brasil, as aulas que deu a Tom Jobim, sua visão da música e do ensino dela. E também explicou porque sempre carrega consigo a Bíblia e o Fausto, de Goethe. Koellreutter morreu terça-feira passada, 13 de setembro de 2005, aos 90 anos.
Em novembro de 1937, chegava ao Brasil o maestro, compositor e educador alemão Hans-Joachim Koellreutter. Antifascista convicto, o jovem de 22 anos desafiara a Gestapo criando grupos de vanguarda que tocavam música de compositores judeus. Vinha ao País para uma série de concertos e, ainda no navio, ouviu sobre a instauração do Estado Novo e descobriu-se fugindo de uma ditadura para cair em outra. Mas a paixão pelo povo brasileiro foi mais forte e ele acabou ficando por aqui. Na sua bagagem, trazia a modernidade musical, sons estranhos a uma nação que cultuava o nacionalismo.
Nascido em Freiburg, Alemanha, em setembro de 1915, Koellreutter regeu em 1931 (portanto aos 16 anos) seu concerto de estreia, que foi a Sinfonia nº1 de Beethoven; dois anos depois publicava suas primeiras obras. Em 1934, com Hitler já no poder, fundou com amigos o Círculo de Música Nova, em Berlim, e ainda naquele ano se apresentou como flautista em Paris. Pouco antes de vir ao Brasil, o músico irrequieto participou também da criação do Círculo de Música Contemporânea, em Genebra/Suíça – motivos mais que suficientes para atrair a ira dos nazistas, que execravam arte contemporânea.
Estabeleceu-se entre o Rio e São Paulo, não demorando a pôr em prática, aqui também, a sua notória "subversão" artística. Em 1939, criou a revista e o movimento Música Viva, responsável pela divulgação da música nova, trabalho que estendeu por toda a sua vida, estreando no Brasil composições de Stravinsky, Schönberg e Bàrtók, entre outros. As reações foram temerárias: numa mistura de medo, xenofobia e inveja, Koellreutter foi atacado pela imprensa como nazista, comunista, plagiário e mistificador. Apesar dos bons ouvidos, ele fez que não ouviu, decidindo não reagir à altura da agressividade dos ataques, entre eles aqueles desfechados por Camargo Guarnieri na sua Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil (1950), na qual, sem citar nomes, chamava o dodecafonismo de "refúgio de compositores medíocres" -- um delírio paranoide, posto que Koellreutter jamais compôs uma única peça em idioma dodecafônico. Antes disso, Koellreutter lançara o Manifesto de 1946, em que divulgava abertamente a defesa do atonalismo e a necessidade da divulgação da música contemporânea. Os nacionalistas não perdoaram o estrangeiro, embora poucos tivessem parado para ouvi-lo.
Entre os anos 1950 e 60, passou 13 anos no Japão e na Índia, países em que descobriu já realizadas muitas de suas teorias e filosofias estéticas. Na Índia, foi um dos fundadores da Filarmônica de Bombaim e o criador da Delhi School of Music – primeira escola de música ocidental na Índia. Na volta ao Brasil, em 1975, retomou sua paixão pelo ensino, alternando semanas de trabalho em Londrina, São Paulo, Rio, Salvador e Belo Horizonte. Seus alunos formariam a nata da música clássica brasileira: Cláudio Santoro, Edino Krieger, Roger Duprat, Isaac Karabtchevski, Diogo Pacheco, Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, Severino Araújo, Érlon Chaves, Heckel Tavares, Marlos Nobre, Tom Jobim, Tom Zé... Ainda assim, quando colegas propuseram sua candidatura à Academia Brasileira de Música, em 1981, não teve votação suficiente para ganhar uma das cadeiras.
Tampouco foi boa a experiência de dirigir, à sua maneira, o Conservatório de Música de Tatuí, onde não teve forças para vencer os inúmeros obstáculos colocados pela burocracia. O fato que causou maior reação às modificações que tentou introduzir lá (só conhecido de quem acompanhou de perto os episódios) foi a obrigatoriedade da disciplina “Música Popular” em todos os anos dos cursos, mínimo de duas horas por semana.
Morando em São Paulo e Rio de Janeiro ao mesmo tempo, o compositor ainda está ativo. Acaba de compor a peça Panta Rhei ("tudo flui", em grego), para vibrafone solo. No ano passado, em Santos, apresentou sua ópera O Café, de longa gestação, baseada em texto de Mário de Andrade. Nesta semana está no Rio, onde participa da Bienal de Música Contemporânea, porém a maior parte do seu tempo é dedicada aos alunos, aos quais ensina avisando antes que "o bom educador é aquele que não educa".
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Como começou sua relação com a música?
Koellreutter - É uma historia muito romântica. Aos 12 anos eu era um moleque e fiz uma série de bobagens na escola. Um dia exagerei: na minha classe havia colegas muito pobres, que obviamente também gostavam de chocolates, coisa só acessível aos filhos de burgueses. Então inventei de "socializar" todos os chocolates; enquanto mudávamos de roupa para fazer ginástica, pedi licença para fazer xixi e fui ao vestiário roubar dinheiro da roupa dos meus colegas ricos e comprar os doces para os colegas mais pobres. A bomba estourou no mesmo dia: o Diretor chamou meu pai, que era um médico muito conhecido em nossa cidade, ele ficou muito bravo e decidiu prender-me em casa como castigo. Fiquei no quarto, sem poder brincar na rua e sem saber como passar o tempo, mofando, porque uma criança não aguenta passar o tempo todo lendo, por mais que goste disso. Um dia resolvi mexer num armário do sótão e encontrei lá uma flauta velha do Exército austríaco, um flageolet, e comecei a estudá-la e a fazer música. Foi como dei meus primeiros passos para a música. Tive também o que chamávamos de detector ou rádio galena: uma caixinha com um cristal em que a gente procurava uma estação de rádio com uma agulha, e quando achava ouvia música de Paris e Londres. Foram as minhas primeiras sinfonias, óperas e operetas, e apaixonei-me por tudo aquilo. Melhorei meu comportamento, abandonei aquelas aventuras e me tornei um sujeito mais ou menos civilizado (risos).

Ainda assim, o sr. enganou seu pai para ir a Berlim.
Quando resolvi dizer a meu pai que queria ser músico, ele não gostou. Além disso, eu tinha tendências esquerdistas e queria estudar em Berlim, já que me havia interessado pela música moderna, que naquele tempo era Stravinski, Ravel, Hindemith... Porém meu pai escolheu para mim um professor em Leipzig, uma cidade mais tradicional, musicalmente conservadora, e me obrigou a ir para lá. Na estação, mudei de trem e fui para Berlim, onde queria estudar com Hindemith, que era conhecido na Alemanha como um bolchevista cultural. Hoje ele é visto como muito acadêmico (risos). Além do mais, Berlim era uma cidade muito progressista e cosmopolita, onde muitas coisas me interessavam. Mudei para lá.

Como foi trabalhar com Paul Hindemith e Hermann Scherchen?
Apesar do que algumas enciclopédias dizem, nunca fui aluno de Hindemith. Por um desses acasos, o compositor mais acadêmico de Leipzig, Kurt Thomas, se mudara naquela mesma época para Berlim e meu pai insistiu que eu estudasse com ele. Era um grande regente de coral, mas um compositor neoclassicista, superacadêmico e tradicional. De Hindemith só assisti às primeiras apresentações que fez de sua técnica, a harmonia acústica, na Universidade de Berlim. Tivemos, sim, contatos pessoais, pois ele também teve de deixar a Alemanha por não concordar com o regime de Hitler.
Já de Scherchen me aproximei por razões políticas. A Gestapo queixou-se de mim ao meu pai, porque no Natal, em vez de passar a festa com a família, como todo cristão normal, eu “andava (como eles diziam) com judeus”. Telefonei para Scherchen, que estava em Zurique/Suíça, e ele me convidou para passar o Natal com ele. A partir daí, ele me introduziu à música dodecafônica, ao atonalismo e a todas as outras correntes de vanguarda da época.

Como reagiram as autoridades nazistas?
Viram que eu e meus amigos tínhamos atitudes antifascistas. Eu era estudante de música na Academia de Berlim e organizara um círculo para apresentar compositores judeus, o que era proibido. Com amigos entrosei-me na ideologia dos estudantes daquela época. Fundamos grupos de música como reação à política cultural do governo nazista. A polícia perseguiu-nos, fecharam nossa associação de concertos, mas não aconteceu nada muito trágico. Numa certa altura, fui obrigado a deixar a academia, porque eles queriam que eu entrasse numa espécie de UNE nazista. Neguei-me, disse que não queria nada com aquele governo, e eles, é claro, me expulsaram. Fui para Genebra, na Suíça, terminar meus estudos.

Sua cidadania alemã foi cassada por causa da apresentação de judeus em Berlim?
Não, os nazistas cassaram-na mais tarde. Antes, comecei a fazer turnês como flautista, cheguei a ficar famoso pela Europa. Numa dessas viagens, vim parar no Brasil para tocar no norte do país, de Manaus a Salvador, levado por uma organização chamada Instrução Cultural Brasileira. Fui primeiro a Manaus e, em 1939, quando a guerra estourou, chamaram-me para que eu me alistasse na Wermacht (o exército regular alemão) em Ulm. Eu escrevi dizendo que estava no Brasil e não queria nada com a Alemanha, muito menos entrar na guerra ao lado de Hitler. Virei desertor. Nesse ínterim, fiquei noivo de uma mulher que era parte judia, enfatizando minha ideologia antinazista com esse casamento, que fiz no Brasil. Claro que contra a vontade de meus pais, que me denunciaram à Gestapo para eu não me casar com a moça. Eu me casei com ela, separamo-nos mais tarde e, hoje, ela vive no Rio Grande do Sul.

O que o levou ao dodecafonismo?
Ele me prestava, porque ampliava a minha linguagem musical e estética. Eu admirava muito Schönberg, Alban Berg, Webern, que faziam o grupo dodecafônico. Mas não escrevi obras dodecafônicas. Foi Scherchen quem me introduziu, dizendo-me que, como músico, precisava conhecer aquelas novas linguagens musicais.

Dessa Segunda Escola de Viena, quem mais o influenciou?
Nenhum deles em especial. Admito que fiquei muito interessado nas tentativas de Berg, com as óperas Wozzeck e Lulu, mas o que me chamava mesmo a atenção, então, era estruturar gestalticamente a música, a teoria da informação e a psicologia da gestalt.

Como foi sua chegada ao Brasil em 1937?
Foi um choque. Conhecia toda a Europa, mas essa era sempre a mesma coisa. Aqui estava um mundo diferente, e tive de apreender o modo de viver deste país. Gostei. Havia acabado de fazer uma turnê pela América Latina, mas preferi o Brasil. Não pelo país em si, mas adorei a gente daqui.

O sr. chegou em pleno Estado Novo.
Um pouco depois. Pensei como era trágico e engraçado ter saído de uma ditadura para cair em outra, mas tudo bem. Afinal, o Brasil não era a Alemanha e senti que não haveria comparação entre os dois regimes autoritários fascistas, mesmo que, aqui, houvesse simpatia pelo nazismo. De fato, não senti muito a ditadura de Vargas.

Mas o sr. foi preso poucos anos depois.
É verdade, por suspeita de espionagem. Não tinha mais nacionalidade, estava sem passaporte. Nos primeiros anos, tive a sorte de poder colaborar com Francisco Curt Lange, o musicólogo que redescobriu a música barroca de Minas, que morava —  ainda mora — em Montevidéu. Ele me convidou para fazer parte da sua Editora Interamericana de Música. Lange era progressista, gostava da música moderna e achava que seria bom trabalharmos juntos.
Eu vivia em São Paulo e sabia mexer com a impressão de música em chapas de chumbo, coisa que aprendera desde a publicação de minhas primeiras partituras. O problema é que eu, um alemão, recebia dinheiro de outro alemão, do Uruguai, e um dia a polícia me prendeu, jogaram- me no xadrez e depois, na “Imigração” — uma espécie de campo de concentração — onde convivi com nazistas, japoneses, italianos e outros.

Foram tempos difíceis...
Nos primeiros meses, passei fome de doer, e o primeiro "bico" foi o negócio da impressão de música, numa empresa chamada Fuchs. O filho do dono gostava de mim, via que eu passava fome e não tinha dinheiro. Ofereceu para eu aprender a técnica daquele artesanato e disse que, por saber música, eu dirigiria o ateliê de impressão. Demorei um ano aprendendo e, quando concluí o aprendizado, eles faliram (risos). E "venderam-me", com as ferramentas e máquinas, para outra firma de impressão em São Paulo, onde meses depois fiquei intoxicado gravemente com o chumbo, e deixei aquele negócio.
Esse foi o tempo em que Camargo Guarnieri chegou de Paris, onde fora estudar, e ficamos amigos. Saí em busca de um novo trabalho. Encontrei um alemão que dirigia uma loja chamada Casa e Jardim e me disse ter uma galeria de pintura de que eu poderia tomar conta. Ganhava o suficiente para o arroz e o feijão e só precisava trocar os quadros. Usava o tempo para dar aulas e compor. Dei até concertos lá, e foi onde me prenderam, porque estava falando em alemão com o proprietário.
Já havia a suspeita de espionagem e nos levaram para cadeia. Fiquei numa cela com um judeu e um jovem comunista. Quando nos soltaram, esse judeu disse que eu poderia trabalhar com ele, vendendo guarda-chuvas e papel carbono, o que fiz por um tempo. Afinal, o dono da galeria estava preso. Não fui bom vendedor e, quando saiu da prisão, o outro me convidou para voltar à Casa e Jardim e trabalhar embalando caixotes. Logo fui promovido a vendedor, depois virei caixa e me apaixonei de novo (risos). O proprietário, meu amigo, não gostou, e me transferiu para uma filial no Rio.

E a música?
No Natal, chegou ao Rio a mulher de um regente húngaro que fundara a Orquestra Sinfônica Brasileira com Eleazar de Carvalho. Ela me conhecia da Europa e disse não acreditar que eu não estivesse tocando. Daí falou com seu marido, o regente titular da orquestra, maestro Eugen Zemka. Entrei na orquestra e fui flautista por quatro ou cinco anos. Foi então que iniciei minha carreira de músico no Brasil.

Em 1939, o sr. criou o movimento Música Viva, e as reações foram as piores possíveis. Como as recebeu?
Não sei o porquê de tudo aquilo. Há várias fofocas. Quando fiquei intoxicado, o Guarnieri me visitou, fomos muito amigos e, de repente, não éramos mais. Não sei por quê. Contam que na casa de chá do Mappin, certa vez, minha mulher e a dele puseram-se a brigar sobre quem era o introdutor do dodecafonismo no Brasil. Não sei se foi por  causa dessa discussão delas, que realmente aconteceu, mas ele virou meu inimigo n° 1. Isso durou até 1977, quando ele fez 70 anos e participamos de um concerto em Teresópolis. Viramos não amigos, mas bons colegas.

E quanto às outras reações?
Eram fofocas. Pessoas que não me conheciam achavam que eu era antinacionalista. Mas eu era amigo do Villa-Lobos, do Basílio Itiberê, do Francisco Mignone... Certo, eu não era nacionalista, mas poderia até ter sido, em meio a essa constelação. De qualquer forma, atacavam-me.

O sr. não se revoltou com o país?
Desde que eu fui preso, sempre preferi pensar que essas eram coisas pelas quais se precisa passar num novo país. Nunca sofri, nunca estive infeliz. Tampouco me revoltei com os ataques. Percebi que eram pessoas com outra formação, uma cultura nova que precisava passar pelo nacionalismo a fim de criar sua identidade. Defendi-me, quando me atacavam pelos jornais: um dia, eu era nazista e, no outro, comunista. Mas sabia que estava lutando por uma estética.

Não ser nacionalista não o impediu de admirar Mário de Andrade.
Tive um contato muito bom, embora superficial, com ele. Li “O Café”, e gostei. “O Banquete” e “Macunaíma” são textos que indico a todos os meus alunos que ainda não leram. Mário era um nacionalista, porém moderado, não um fanático, como o Camargo daquela fase ou os comunistas de verdade, como Cláudio Santoro, meu discípulo. Já eu nunca fui do “Partido”, só um simpatizante, como não deixarei de ser.

Entre comunistas e nacionalistas, o sr. não ficou entre dois fogos?
Num certo sentido, sim. Além dos nacionalistas, que me detestavam, vi-me diante de discípulos e amigos que acharam que deviam mudar seu estilo.

Isolado?
Um artista é sempre isolado. Quanto aos outros inimigos, quando 12 anos mais tarde voltei do Oriente, fui convidado para dirigir o Museu da Imagem e do Som do Rio. De cara, quis convidar meus inimigos. Na primeira reunião, pedi a palavra e disse: "Quero fazer agradecimentos aos meus inimigos. Eles merecem, porque eu sofri muito tempo, mas isso foi importante para a minha vida. Agradeço toda essa campanha que fizeram contra mim. Se não tivesse tido isso, não seria quem sou, não me teria esforçado tanto, aprofundado tanto, para chegar à essência das coisas. Isso só aconteceu porque vocês me obrigaram. O adversário é muito mais importante que a pessoa que só o elogia”. Ninguém fez nenhum comentário.

Qual é a importância de sua viagem ao Oriente?
Do ponto de vista ideológico e filosófico, sempre tive muito em comum com aqueles países. Senti que muitas das minhas idéias já estavam realizadas nesses lugares. Há muita equivalência entre o pensamento moderno, da Física Quântica e de outras ciências, e o misticismo metafísico da Índia, do Japão e da Indonésia. Na Índia, há uma fusão entre o rigor sintático e a improvisação, a liberdade de expressão. Acho que até hoje os ocidentais só têm a aprender com eles e nada a ensinar. Mesmo a Delhi School of Music, que fundei na Índia, foi apenas para criar um núcleo de comparações entre o Ocidente e eles.
É possível também aprender a relação não hedonista do indiano com a música. Eles sentem realmente a linguagem. Isso porque a música clássica da Índia tem maior divulgação do que a nossa. Trabalhamos com 12 notas na oitava do piano; eles, com mais de 70, com quartos e oitavos de tom em vez de semitons. É um repertório diferente do nosso, que é mais racional ou racionalista. A liberdade na sua música é imensa e, ao mesmo tempo, há um grande rigor. Lá tudo é moderno, porque é improvisado, mesmo em trechos anotados. E o improvisado está sempre mais próximo do homem comum do que o organizado racionalmente.

Foi da Índia que o Sr. trouxe o conceito de música utilitária, lançado, com grande polêmica, nos anos 70?

A música deve ser funcional no sentido da musicoterapia, da música feita para o rádio, a TV. O futuro da música será sua fusão com atividades extramusicais: a música estará sempre junto com outra linguagem. É um palpite, não sou profeta, mas acho que o concerto é uma forma social em declínio, após ter funcionado mal por anos. Quem vai realmente a um concerto, pelo concerto em si? Eu vivo da música, mas não vou a concertos, a não ser que alguém esteja apresentando uma composição nova com a qual eu possa aprender algo. Vou para enriquecer meu repertório de conhecimento. O concerto não está mais em função da composição. Eu mesmo não componho mais pensando em apresentações.

Sair das salas de concerto é a forma de aproximar o público da modernidade?
A música é como uma linguagem qualquer que se quer aprender. Leva tempo, precisamos ouvir muito e acostumar nossa percepção a cada estilo musical. Sim, acho que a fusão com outras áreas seria uma boa ponte para aproximar o público da modernidade, por meio dos jingles, do teatro, vídeos etc. A música pura, a "música pela música", teremos cada vez menos. Mas cada um ouve e julga música ao seu modo. Não creio que se possa julgar e dar razão ou não a alguém que defenda ou ataque a música nova. O problema maior é que o público não escuta música nova, ele apenas ouve. Gostar da música contemporânea exige esforço, tempo, e quem não está disposto faz melhor deixando a música de lado. Nem todo mundo precisa interessar-se por ela.

O que pensa do novo tonalismo da música contemporânea, da volta a uma sonoridade "agradável" que faz sucesso entre o público?
A fusão entre agradável e moderno é muito perigosa, pois é o que a média das pessoas gostaria de ter. Só que média é mediocridade. Quando me dizem "isso é um sucesso", espero que não seja, porque, se há sucesso, algo não vai bem. Isso nos leva a pensar qual é a função da música. Para mim, o artista tem a função de contribuir na divulgação das grandes ideias que formam a época em que vive.

Como superar a abstração da música para conseguir isso?
Não é abstrata para mim. É uma linguagem, e eu a entendo como você entende português, com vocabulário e sintaxe. Mas precisa ter conteúdo. A música tem uma série de regras, princípios, tantos quanto os que regem a nossa vida hoje. Mesmo em seus contrastes, que não vejo como oposições, mas como elementos que se unem a uma entidade, a um todo. São holísticos, coisas que se complementam. Não existe bem e mal, transcendência e imanência, vida e morte. Tudo, no fundo, é uma coisa só. E são elementos que valem não só na música, mas também na vida. Afinal, não faço diferença entre ser homem e ser artista: é uma coisa só, com seus negativos e seus positivos. Penso também que essa briga com o público é mais importante que a sua solução. Se chegamos a um resultado, esse mudará amanhã. A verdade são sempre as contradições. Eu sou artista e pedagogo com a mesma paixão. Assim, vejo sempre que esses elementos são um só. É importante trabalhar por essa ideia para que, se isso funcionar, possamos criar um mundo mais interessante e de paz.

A música é assim tão valiosa?
O valor, para mim, está no conteúdo da música. Uma música representa todas as ideias importantes do mundo em que vivemos. Por exemplo, essa superação dos opostos. Ou, então, a ideia de um outro tipo de tempo, a quarta dimensão, no sentido de uma transcendência. Essa dimensão não é um fator físico, mas uma forma de pensar. Também é importante ressaltar a ausência da causalidade, no sentido clássico do ser previsível. Em verdade, são inúmeras as causalidades que dão a sensação de uma única causa. Essa é a base filosófica e ideológica do artista. Respeito quem acha que música é entretenimento, mas para mim o artista tem de causar um choque. O choque é importante, pois você volta para casa, discute e temos, assim, um mundo mais rico do que o nosso.

Isso exige um músico diferente.
E também um novo homem, o apreciador. Um homem que esquece seu ego, que vive realmente o todo em que vivemos. Essa é a função do novo artista.

Qual é a função do educador? O sr. gosta de dizer que o bom educador é o que não educa.
Acho que o educador deve dialogar. Eu só posso educar se aprendo com meu interlocutor. A Rádio de Estocolmo pediu, há anos, que eu enviasse fitas com música de meus discípulos. Eles ouviram e o diretor da rádio me perguntou se todos eram alunos de um mesmo professor, pois eram muito diferentes entre si. Isso acontece porque eu aprendo do aluno o que eu tenho de ensinar. Posso dizer "eu não faria isso, mas desse ou daquele modo". No entanto, digo isso como sugestão. Há conceitos que sempre repito antes de começar meus cursos. Não há erro absoluto em arte. O erro é sempre relativo a alguma coisa. Por isso chamo a minha estética de arte do impreciso e do paradoxal. Isso serve para libertar o aluno de todo o tipo de imitação. Ele deve experimentar e inventar algo que antes não existia. Ele precisa de coragem para isso e só a adquire se perder o medo do erro. Depois, digo também que não acreditem em nada do que o professor disser, para não acreditarem no que lêem e, mais importante, não acreditarem em nada do que pensarem. Em outras palavras, questionar tudo, de agora ao fim da vida.

Como foi ser o professor de Tom Jobim?
Ele tinha uma cultura musical e ideológica muito ampla. Nós dois éramos praticamente meninos quando nos conhecemos. Os pais dele tinham uma escola, o Colégio Brasileiro, e eu era o professor de música das crianças. Acho, aliás, que o mais moderno e o mais contemporâneo são as crianças. Devemos aprender a aprender com as crianças. A mãe de Tom pediu-me para orientá-lo e ele estudou comigo contraponto, harmonia e piano. E, apesar de eu próprio ser um péssimo pianista, ensinei-o a tocar piano (risos). Infelizmente, nossa relação não durou muito. O filho e o neto dele estudaram comigo também.

Jobim foi um discípulo de Koellreutter que se empolgou pela música de Villa-Lobos?
É possível que as duas coisas convivam bem. Respeito Villa, mas sem paixão. Ele é um fenômeno especial. Não me entendam errado mas, como músico profissional, ele foi quase amador. Ainda assim, tem a força da personalidade que cria, o que dá grande valor à sua obra. Para mim, o estilo próprio é o critério mais objetivo da obra de arte, e não só para o músico.

Por que o sr. sempre carrega a Bíblia, o Fausto, de Goethe, e  A Arte da Fuga, de Bach?
Tudo o que falamos até agora está na Bíblia ou no Fausto. Quanto à Arte da Fuga, de Bach, já a regi mais de 50 vezes. É uma obra fascinante, em que cada nota tem significado e, ao mesmo tempo, há uma unidade fantástica. Muitos me perguntam como chego a essas conclusões estranhas e lhes respondo que estudei o futebol na Copa do Mundo de 1994, quando o Brasil ganhou seu quinto campeonato. Em campo, vi que a disciplina incrível do time brasileiro convivia com uma liberdade extraordinária diante do adversário. Isso é a música. Pensei na hora na Arte da Fuga, rigorosamente disciplinada e, ao mesmo tempo, de uma liberdade de interpretação total. Desde então, trabalho deste modo: misturo aquilo que acho que é a estrutura básica, os pilares da composição, com uma mudança constante do que está entre esses pilares. Espero não abandonar essa forma de compor antes de desaparecer.

[ texto da publicação original por  Carlos Haag ]



05 - HISTÓRIA DO HYMNO NACIONAL BRAZYLEIRO


Não é verdade que o Brasil só tenha políticos corruptos e professores despreparados; tem também velhinhas simpáticas que afirmam ser plana a Terra, posto que não tiveram oportunidade de se informar melhor sobre Galileu e Copérnico. Elas acreditaram em seus professores e continuam acreditando em tudo, dando seus pitacos para perpetuar o erro. O problema é que, quando ensinam uma bobagem a crianças ou adolescentes, eles acreditam no erro até o fim da vida — ou não poderiam mais acreditar em nada que os professores dizem. Vamos corrigir ao menos esta.

(1.º) O autor da música hoje chamada "Hino Nacional Brasileiro" foi Francisco Manuel da Silva, nomeado Maestro di Capella (espécie de Ministro da Música) em 1831 por Dom Pedro II, então príncipe regente, ou seja, quando ainda era apenas um "poste" guardando o lugar do pai enquanto ele ia a Portugal — pois “quem vai a Portugal perde o lugar”, já dizia a rima pós-moderna;
(2.º) Entre as atribuições do cargo de Maestro di Capella estava dar aulas de música aos jovens príncipes, princesas, duquesas e viscondes, o que devia ser um enorme bode, pois não se tem notícia de algum talento naquela nobreza — exceto Dom Pedro I, que foi ótimo pianista e compositor. Fosse pouco, o Maestro tinha que compor música coral para as efemérides religiosas, música de concerto (sonatas, tocatas e óperas) para divertir as altas rodas da granfinagem, e muitas valsinhas, gigas, minuetos e sarabandas para os bailes da corte. Além de dobrados militares, para agradar almirantes e marechais;

(3.º) Embora ex-aluno do genial Padre José Maurício, nosso Chico Mané da Silva não compunha grandes coisas; era pouco acima de medíocre, porém Dom Pedro II não tinha nada melhor disponível naquela ocasião — aliás, quando adulto e imperador, viria a patrocinar com fervor uma outra grande mediocridade nacional de nome Carlos Gomes;

(4.º) Como qualquer compositor profissional, Chico tinha um montinho de rascunhos e anotações em seu baú, muito úteis em caso de encomendas urgentes ou falta de inspiração. Tinha inclusive um dobrado muito bom, que nunca fôra usado senão em desfiles mixurucas nos quartéis. Talvez ele pensasse: “Este aqui eu vou guardar, ainda vai bombar no You Tube”. O fato musical é que a indicação do andamento (mM=120) e a tonalidade de banda militar (Fa Maior) não deixam dúvida quanto a ter sido, em sua concepção, uma marcha militar; aliás, em 1831 já era cantada por soldados escrachados com uma letra que ironizava a abdicação de D. Pedro I;

(5.º) No pega-pra-capar — “Que merda de império é este, que não tem nem um hino nacional?!” (reclamou Dom Pedro II); —“Tratem de me arranjar um bem bonito antes do domingo”. Dito e feito; Chico chamou o Joaquim e tacaram na melodia uma letra fantástica, que a par de ser um poema de qualidade é uma obra-prima de uso da ordem inversa no idioma luso;

(6.º) Joaquim Osório Duque Estrada escrevia bem pra caramba, inclusive odes, églogas e sonetos; mas alguns deputados acharam que a introdução era muito comprida pra ficar só instrumental, então alguém (que teve o cuidado de não deixar registrado seu nome para execração das gerações futuras) acrescentou lá uns versos absolutamente monstruosos, cheios de melismas (típicos de letristas ruins), esses mesmos que foram cantados com entusiasmo no inicio do vídeo anexo pela Senhorinha Ana Arcanjo;

(7.º) Deputados e senadores não costumam saber música, além de serem geralmente cretinos juramentados e apedeutas divinos, mas isso não é propriamente um assunto artístico; devido a tal ignorância específica, em leis diversas ao longo do tempo os políticos adotaram aquele dobrado como hino, e ninguém até hoje tratou de contar-lhes que, com esse andamento e nessa tonalidade, 2/3 dos brasileiros mortais não conseguiriam jamais cantar dois compassos em seguida sem desafinar. E daí? Daí que deveria ser cantado em Re Maior e com andamento em torno de 90, como uma marcha-rancho (qualquer molequinho na Portela saberia disso, era só perguntar pra eles);

(8.º) Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque detestam esse hino, porque evidentemente não têm o conhecimento necessário para analisá-lo e porque não conseguem desgrudar os olhos dos seus conspícuos umbigos, e até já propuseram que se fizesse um concurso nacional para eleger um outro, novinho em folha e mais bonitinho: o nosso oficial está fora de moda, pontificaram. Vale dizer que poderíamos fazer um novo a cada 10 anos — não seria divertido um hino nacional que nunca antes nesse país ficaria fora de moda? — e eles também poderiam passar à História como autores de um hino nacional, e o Caetano iria ao Teatro Municipal do Rio usando saias para receber o Prêmio Sharp de melhor compositor da Era Lula;

(9.º) A velhinha é bonitinha, mas já tá xarope.

(10.º) Sus ? Ó, não !



04 - O VERDADEIRO DESCOBRIMENTO DO BRASIL

Dom Pero Vaz Caminha subiu ao convés para digerir o feijão com carne seca do almoço. Dali podia ver os dois criminosos lá na praia, debaixo das palmeiras, rodeados de índias peladinhas – Afonso Ribeiro e Antero Costa.
Bandidos degredados, banidos para sempre do convívio civilizado, pelo jeito não se aborreciam com o pernil de cotia que as cunhãs cuidavam de churrasquear e servir-lhes na boquinha. Tampouco lamentavam trocar o vinho azedo de bordo por uma agüinha de coco verde. Afinal, pensou o Escrivão da Armada, deve ser difícil sofrer-se honestamente quando o mundo é azul acima e abaixo de um corpo saudável, mais ainda se esse corpo está cercado de morenas bonitas. Nessa moldura, lá estavam eles, Afonso e Antero, exilados...
Enquanto apreciava um tal cenário, Dom Pero tentava escolher o nome que ornava mais: Vera Cruz ou Santa Cruz?  Por ele, se não fosse uma heresia, botava logo Jardim do Éden, pois aquela paisagem era exatamente o que sempre imaginara como Céu, sem tirar nem pôr. Ou então deixava o nome original, conforme já batizado pelos proprietários do lugar – Pindorama, o país dos papagaios.
Estava nisso, maior tédio, quando viu Afonso atravessar a faixa de areia branca para dar uma lavadinha nas mãos, ali no Oceano Atlântico (banheira pouco modesta para sua condição penal). A fim de limpar a gordurinha do churrasco que lhe grudara nas mãos, foi ajudado por duas jovens nativas cuja formosura denunciava uma completa falta de modéstia por parte de Quem as criara, Mavutsinim. Além das abluções, talvez para aproveitar melhor a exaustiva pernada de ida e volta entre o coqueiral e o mar, fizeram guerra de água, boiaram nas ondas mansas, brincaram de tubarão mordendo perna de moça, e em seguida voltaram correndinho para a sombra dos buritis, já que o desterrado mostrava pressa em continuar cumprindo suas penas perpétuas. Vidão bão que-nem aquele só voltaria a acontecer quinhentos anos depois, quando reinasse Dom Lula I.
Aí foi batendo uma nhaca, uma moleza... Dom Pero se esticou todo, espreguiçou-se gemendo, deu um suspiro digno de donzela morrendo virgem, apoiou nas mãos o rosto, começou a piscar, bocejou, fechou os olhos, cochilou, dormiu. Despertou assustado quando a cabeça resvalou das mãos e ele quase deu com o queixo na mureta.
—  Quanta luz!...
Assim que parou de esfregar os olhos e se acostumou ao brilho intenso, observou que Afonso não se encontrava mais à vista, nem as duas acompanhantes que seu tubarão comera. Antero, o outro condenado – termo inadequado para quem ia morar o resto da vida naquele imenso jardim – continuava no mesmo lugar de antes, soprando com tal entusiasmo uma gaita que se podia ouvir do barco quando o ar ficava parado um instante. Só largava o diabo da gaitinha para gadunhar-se com as meninas ou bicar uma cabacinha de cauim, após o que recomeçava sua alegre litania. Era como se não atinasse ser um desterrado, não um fauno em plena mitologia grega. De repente deu um guincho e o concerto por encerrado, afundando na relva com uma dona em cada braço. Ali ficaria horas, dormindo ou sei-lá-o-quê – de onde espiava, o Escrivão não podia enxergar detalhes do bucólico episódio. Fosse o que fosse, era melhor mesmo não ver mais nada; o já visto bastara para despertar nele certa melancolia e aumentar-lhe a preguiça de retomar a carta que deveria enviar ao rei Dom Manuel Venturoso no dia seguinte, pela nau de Gaspar Lemos, enquanto o restante da esquadra seguiria seu destino às Índias Ocidentais.
Era uma sexta-feira, 1.º de maio de 1500, o primeiro Dia do Trabalho comemorado ali, no futuro Brazil, onde até então só era uso festejarem nos dias de vagabundagem, isto é, todos. Mentira; quase todos – só o faziam nos meses terminados pela letra O, já que não faria sentido comemorar nada em abril, que era seu mês de férias coletivas.
Muita luz, muita cor, muito tudo, exceto disposição para o batente. Coisas muito estranhas aconteciam por ali, e não havia como espantar da cabeça aqueles pensamentos indecentes, nem fugir daquelas bundinhas das índias rebolando pra lá e pra cá... Devia ser coisa do Capeta.
Se não era coisa do Demo, como explicar que o galeão comandado por Dom Vasco de Ataíde houvesse desaparecido durante a noite de 22 para 23 de março? A brisa era tranquila, o céu claro de lua cheia, estrelas brilhando no céu, um mar de almirante, e quando amanheceu a frota só contava doze dos treze navios.
-- Cadê Dom Vasco?
-- Dom Vasco sumiu.
-- Como sumiu?!
-- Sumindo, ora!
Assim, sem mais nem menos, sem dar um pio, nenhum tchibum; apenas puf – Dom Vasco desapareceu no ar, para sempre, com barco e tudo, e mais de cem tarimbados marinheiros a bordo. Hmm...
E o que dizer dos aborígenes, então? Ao invés de recebê-los, aos brancos, como os brancos receberiam São Jorge apeando de um dragão em frente à Porta Férrea da Universidade de Coimbra, esnobaram – do fundo de sua Idade da Pedra – o esplendor e a glória da civilização ocidental. Para os comes e bebes fizeram cara de nojo, cuspiram tudo fora. Aos capuzes de pano colorido, orgulho da tinturaria lusa, retribuíram com cocares de plumas tão deslumbrantes que eram um verdadeiro acinte, no mínimo uma descortesia. E os colares de pérolas?! Os selvagens presenteavam-nos com visível satisfação, como se fossem um pequeno mimo em agradecimento às fieiras de contas de vidro que levavam enroladas nos braços para mostrar aos outros da tribo.
Para não mentir de novo – dizendo que tenham desprezado todas as maravilhas europeias – deve ser dito que adoraram as galinhas, a coisa mais engraçada que haviam conhecido nos últimos dez mil anos.
-- Isso são artimanhas do Demônio... – pensou Dom Pero.
Por exemplo, os dois exilados: nas outras vezes em que, por obrigação do ofício, presenciara atos de desterro, deixando-se os banidos nas costas de Moçambique, eles choravam como crianças, implorando piedade, clamando por clemência. Viu um que se enforcara numa árvore antes mesmo que as âncoras tivessem sido suspensas de todo; viu outro, um facínora famoso por sua valentia, desesperar-se ao ponto de sair nadando atrás quando a nau se pôs a navegar, afastando-se para nunca mais, e o bandido nadara horas antes de ser tragado pelo abismo oceânico.
Antero e Afonso, não; pareciam dementados, agindo como se apenas estivessem em férias ou aguardando uma nave que os levasse de volta aos anéis de Saturno. Pareciam não ter a mínima consciência de sua real situação, incapazes de perceber que teriam ali cortados os últimos laços protetores da civilização humana, abandonados às agruras de um sertão inóspito. Como podiam regozijar-se com seu próprio desterro?! Parece coisa cristã?
E aquela cunhã gostosa, de bunda empinadinha, que não lhe tirava os olhos de cima toda vez que Dom Pero descia à terra? Que era lindinha, vá lá, e ele estava longe da esposa há meses, porém daí a fixar-se em sua mente numa visão delirante, como se ele ainda fosse um adolescente tarado, vamos e venhamos! Como é que uma mulherzinha pagã e sem noção de vergonha, por bonita que fosse, rebolando nuínha pra lá e pra cá, podia tirar-lhe o sono daquela maneira? Gozado, isso...
-- Chega de bundar, ó Caminha!
E tinha mais uma coisa: se não era tentação do Chifrudo, o que teria levado dois grumetes a desertar na noite anterior? Por qual razão dois putos de primeira viagem, ambos com dezesseis anos, escolheriam renunciar aos confortos da cristandade europeia em troca de viver o resto de suas existências numa floresta virgem, em meio a bestas feras e canibais? A quais motivos, senão de Satanás, poderia ele, Dom Pero Vaz de Caminha, atribuir tamanhas loucuras?!
Chamavam-se Darcy e Levy, os rapazes fujões. Um era portuga, de sobrenome Ribeiro, e já mulherengo apesar da tenra idade; o outro era um francês, de sobrenome Strauss, magrinho porém taludo o bastante para tornar-se em pouco tempo o favorito das morenas locais.
Na verdade nem tinham abandonado o barco com intenção de fugir; queriam só passar uma noite em terra firme e, quem sabe, com as bênçãos do Senhor, dar sua modesta contribuição ao cristianismo, ensinando o Padre Nosso a algumas cunhatãs (motivação até aí bem louvável, diga-se).
Fugiram do barco. Depois de passarem a noite em vigília dedicada à expansão do conhecimento bíblico (lato sensu), acabaram surpreendidos pela alvorada, e em tal disposição de corpo e alma que, totalmente desatinados, decidiram adiar a volta para a noite seguinte. Com base na hipótese de que sua insignificância podia nem ser percebida como ausência numa tripulação numerosa e eufórica, arriscariam dez ou vinte chibatadas para comemorar ali o Dia do Trabalho. Convém ressaltar, por oportuno, que essa resolução não foi tomada assim, sem mais nem menos — não! Antes prometeram regressar tão logo a próxima noite caísse.
-- Quê que cê acha? – vacilou Levy.
-- Podes crer, meu! – animou Darcy.
Sem dúvida foram esses os primeiros brasileiros típicos, a semente dos futuros congressistas. Prova disso está em que, uma vez tomada a decisão de esticar a gandaia trabalhista, dormiram até as onze e gastaram o resto do dia na folgança e no furdunço. Introduzidos à mais fina sociedade pindoramense por Antero e Afonso – que já eram praticamente veteranos e estavam bem enturmados – os dois garotos festejaram a efeméride do Primeiro de Maio como autênticos precursores do brazilian way of life e da estética lulopetista: homenageando o trabalho que Mamãe Natureza teve para preparar-lhes um cenário de tanto esplendor.
-- Viva o trabalho!
-- Vivaaa!
-- E pro trabalho, nada?!
-- Tudooo!!!
Então as índias tiraram da brasa mais um espeto de camarões e destamparam outra cabaça de cauim. Nem por isso descuidaram de seus propósitos evangélicos, tanto que à noitinha, quase na hora das despedidas, várias cecis já recitavam de cór (e com que graça de sotaque!) até o pedaço do "venha a nós o vosso reino."
Quando não podiam mais fingir que ainda era dia – não era, não, por mais que aquela absurda lua amarela parecesse um enorme sol noturno – tiveram que render-se à evidência, dobrar-se à obrigação, resignar-se ao retorno. Mas vejam vocês como são as coisas... Indo à aldeia para despedir-se dos tuxauas, conheceram Tserenh, um pajé feio como a peste e coroca de uns duzentos anos, ganhando dele duas cabaças de um cauim muito especial, Saliva de Virgem, guardadas desde o último Kuarup e agora no ponto exato de estalar a língua.
Escoltados de volta à praia por um bando de ninfas e sátiros nacionais, deram com os degredados Afonso e Antero acabando de botar umas costeletas de porco no braseiro, ao que acharam por bem “fazer uma boquinha” ali mesmo, antes de encarar a natação — até porque era sexta-feira, noite em que o cardápio naval trocava o eterno feijão com charque por bacalhau com centeio. Aliás, foi nos jantares de bordo que os marujos criaram a conhecida frase “Ninguém merece”.
Aberta a Saliva de Virgem, começaram logo o pagode. Conversa vai, conversa vem – cês sabem como brasileiro é – o papo foi animando, as cunhãs almiscarando, a lua subindo no céu, a chicha subindo na cabeça, todo mundo se soltando, e o deboche tomou conta.
Até que chegou o momento mais difícil de suas jovens vidinhas, dessas ocasiões em que a gente precisa pensar e o sapo Cuiauá não deixa. Senão vejamos: tinham jurado por Deus que regressariam mesmo, porém podia ser que um tal juramento não tivesse validade ali, onde o correto seria jurar por Tupã ou Jaci, não é razoável? De qualquer modo, tinham jurado, e tentaram resistir:
-- Agora é a última, hem?!
Que mal havia em confortar com sua companhia cristã um último brinde civilizado daqueles pobres exilados? Era até uma caridade, pôxa!
Adiaram novamente a volta, para depois da última. Como sabem os boêmios sinceros, considera-se extrema falta de educação o uso dessa palavra – aliás, em brasileiro castiço, última não significa nada, devia nem constar dos dicionários. Por isso postergaram só mais um pouquinho, para uma ultimíssima.
Por outro lado, seria descortesia despedirem-se das morenas com um simples beijinho de adeus, e eles toparam mostrar a elas como eram galantes os namorados europeus. E ficaram para uma transadinha mais, só para efeito de boa recordação, aliança de eterna amizade entre o Brazil e o mundo, após a qual necessitavam de um tempinho para recuperar o fôlego, senão perigava se afogarem antes de alcançar o barco, inda mais com a língua mole, babando daquele jeito. Faltava só um restinho da manguaça, caramba!, não iam fazer essa desfeita a Afonso e Antero, como se estivessem morrendo de pressa, doidos pra dar o fora da festa. Então, após molharem a goela com água de coco, cantaram a "Valsa do Adeus", que é meio baixo astral, razão por que resolveram terminar com 
-- ... tá chegando a hora
o dia já vem raiando, meu bem
eu tenho que ir embora.
Já estavam nos acordes finais quando chegaram alguns nativos com mais algumas garrafinhas “da boa”, e aí foi preciso despedir tudo de novo, de modo que só voltaram a pensar no assunto ao perceber que o sol do sábado já estava dando as caras por trás da esquadra rubro-verde. E foi aí, somente aí, exatamente aí que Darcy Ribeiro e Levy Strauss chegaram à peremptória conclusão de que não tinham elementos suficientes para decidir nada antes do Natal.
Ora: pensando bem, era totalmente duvidoso que o Almirante Cabral concordasse em esperá-los até lá, de forma que iam mesmo perder a condução pra casa; assim, o mais sensato era adiarem de uma vez para fevereiro próximo, podendo então inaugurar pessoalmente o Carnaval de Pindorama, o que também lhes daria tempo de organizar um campeonato decente de futebol-de-praia e preparar uma escola de samba legalzinha, ensinar umas sacanagens pros índios, aprender ecologia numa escola sem doutores, inventar leis bem filhas-da-puta pra sustentar os sacanas todos, enfim: mil-e-umas curtições. E, já que tinham a pretensão de ser brasileiros sérios, escolheram logo o tema do enredo e puseram-se imediatamente a ensaiar a bateria:
-- Buuun-dão, mas que bundão!
Aí entrava a ala dos caetés, cantando o tema, “Apoteose do Trabalho”, fazendo isso num ritmo cadenciado, não como os bobões frenéticos de 500 anos depois. E era lindo quando a ala das vovós entrava no terreiro, o vozerio crescendo e crescendo:

-- Buuun-dão, mas que bundão!
Do barco, deitado em seu beliche abafado, Dom Pero escutava ao longe o baticum, meditando:
-- O mais perdido é aquele que se esconde...
Bem, não está nos Evangelhos, mas que podia, podia. Não importa; enquanto Jesus não volta pra revisar o texto pessoalmente, o melhor que se pode fazer é salvar essa gente. Resta saber de quê.
Subindo ao tombadilho deu de cara com Cabral, que já vinha em seu encalço. O outro fez meia volta e entrou apressado no castelo de popa, com o Escrivão atrás.
-- Ó, Caminha, vamos logo! Estás com bicho-preguiça, homem de Deus? Anda com isso, que Dom Gaspar já está a partir.
-- Tô indo...
-- Escreva lá: o Almirante manda avisar a El Rey, para bom uso de Vosso discernimento, que tem um porém.
-- Man-da... a-vi-sar...
-- Dois pontos: não tem Joaquim Barbosa que salve estes brazis.
-- Amém.