Dom Pero Vaz
Caminha subiu ao convés para digerir o feijão com carne seca do almoço. Dali
podia ver os dois criminosos lá na praia, debaixo das palmeiras, rodeados de
índias peladinhas – Afonso Ribeiro e Antero Costa.
Bandidos
degredados, banidos para sempre do convívio civilizado, pelo jeito não se
aborreciam com o pernil de cotia que as cunhãs cuidavam de churrasquear e
servir-lhes na boquinha. Tampouco lamentavam trocar o vinho azedo de bordo por
uma agüinha de coco verde. Afinal, pensou o Escrivão da Armada, deve ser
difícil sofrer-se honestamente quando o mundo é azul acima e abaixo de um corpo
saudável, mais ainda se esse corpo está cercado de morenas bonitas. Nessa
moldura, lá estavam eles, Afonso e Antero, exilados...
Enquanto
apreciava um tal cenário, Dom Pero tentava escolher o nome que ornava mais:
Vera Cruz ou Santa Cruz? Por ele, se não fosse uma heresia, botava logo
Jardim do Éden, pois aquela paisagem era exatamente o que sempre imaginara como
Céu, sem tirar nem pôr. Ou então deixava o nome original, conforme já batizado
pelos proprietários do lugar – Pindorama, o país dos papagaios.
Estava
nisso, maior tédio, quando viu Afonso atravessar a faixa de areia branca para dar
uma lavadinha nas mãos, ali no Oceano Atlântico (banheira pouco modesta para
sua condição penal). A fim de limpar a gordurinha do churrasco que lhe grudara
nas mãos, foi ajudado por duas jovens nativas cuja formosura denunciava uma
completa falta de modéstia por parte de Quem as criara, Mavutsinim. Além das
abluções, talvez para aproveitar melhor a exaustiva pernada de ida e volta
entre o coqueiral e o mar, fizeram guerra de água, boiaram nas ondas mansas,
brincaram de tubarão mordendo perna de moça, e em seguida voltaram correndinho
para a sombra dos buritis, já que o desterrado mostrava pressa em continuar
cumprindo suas penas perpétuas. Vidão bão que-nem aquele só voltaria a
acontecer quinhentos anos depois, quando reinasse Dom Lula I.
Aí foi
batendo uma nhaca, uma moleza... Dom Pero se esticou todo, espreguiçou-se
gemendo, deu um suspiro digno de donzela morrendo virgem, apoiou nas mãos o
rosto, começou a piscar, bocejou, fechou os olhos, cochilou, dormiu. Despertou
assustado quando a cabeça resvalou das mãos e ele quase deu com o queixo na
mureta.
— Quanta
luz!...
Assim que
parou de esfregar os olhos e se acostumou ao brilho intenso, observou que
Afonso não se encontrava mais à vista, nem as duas acompanhantes que seu
tubarão comera. Antero, o outro condenado – termo inadequado para quem ia morar
o resto da vida naquele imenso jardim – continuava no mesmo lugar de antes,
soprando com tal entusiasmo uma gaita que se podia ouvir do barco quando o ar
ficava parado um instante. Só largava o diabo da gaitinha para gadunhar-se com
as meninas ou bicar uma cabacinha de cauim, após o que recomeçava sua alegre
litania. Era como se não atinasse ser um desterrado, não um fauno em plena
mitologia grega. De repente deu um guincho e o concerto por encerrado,
afundando na relva com uma dona em cada braço. Ali ficaria horas, dormindo ou
sei-lá-o-quê – de onde espiava, o Escrivão não podia enxergar detalhes do
bucólico episódio. Fosse o que fosse, era melhor mesmo não ver mais nada; o já
visto bastara para despertar nele certa melancolia e aumentar-lhe a preguiça de
retomar a carta que deveria enviar ao rei Dom Manuel Venturoso no dia seguinte,
pela nau de Gaspar Lemos, enquanto o restante da esquadra seguiria seu destino
às Índias Ocidentais.
Era uma
sexta-feira, 1.º de maio de 1500, o primeiro Dia do Trabalho comemorado ali, no
futuro Brazil, onde até então só era uso festejarem nos dias de vagabundagem,
isto é, todos. Mentira; quase todos – só o faziam nos meses terminados pela
letra O, já que não faria sentido comemorar nada em abril, que era seu mês de
férias coletivas.
Muita luz,
muita cor, muito tudo, exceto disposição para o batente. Coisas muito estranhas
aconteciam por ali, e não havia como espantar da cabeça aqueles pensamentos
indecentes, nem fugir daquelas bundinhas das índias rebolando pra lá e pra
cá... Devia ser coisa do Capeta.
Se não era
coisa do Demo, como explicar que o galeão comandado por Dom Vasco de Ataíde
houvesse desaparecido durante a noite de 22 para 23 de março? A brisa era
tranquila, o céu claro de lua cheia, estrelas brilhando no céu, um mar de
almirante, e quando amanheceu a frota só contava doze dos treze navios.
-- Cadê Dom
Vasco?
-- Dom Vasco
sumiu.
-- Como sumiu?!
-- Sumindo,
ora!
Assim, sem
mais nem menos, sem dar um pio, nenhum tchibum; apenas puf – Dom Vasco
desapareceu no ar, para sempre, com barco e tudo, e mais de cem tarimbados
marinheiros a bordo. Hmm...
E o que
dizer dos aborígenes, então? Ao invés de recebê-los, aos brancos, como os
brancos receberiam São Jorge apeando de um dragão em frente à Porta Férrea da
Universidade de Coimbra, esnobaram – do fundo de sua Idade da Pedra – o
esplendor e a glória da civilização ocidental. Para os comes e bebes fizeram
cara de nojo, cuspiram tudo fora. Aos capuzes de pano colorido, orgulho da
tinturaria lusa, retribuíram com cocares de plumas tão deslumbrantes que eram
um verdadeiro acinte, no mínimo uma descortesia. E os colares de pérolas?! Os
selvagens presenteavam-nos com visível satisfação, como se fossem um pequeno
mimo em agradecimento às fieiras de contas de vidro que levavam enroladas nos
braços para mostrar aos outros da tribo.
Para não
mentir de novo – dizendo que tenham desprezado todas as maravilhas europeias –
deve ser dito que adoraram as galinhas, a coisa mais engraçada que haviam
conhecido nos últimos dez mil anos.
-- Isso são
artimanhas do Demônio... – pensou Dom Pero.
Por exemplo,
os dois exilados: nas outras vezes em que, por obrigação do ofício, presenciara
atos de desterro, deixando-se os banidos nas costas de Moçambique, eles
choravam como crianças, implorando piedade, clamando por clemência. Viu um que
se enforcara numa árvore antes mesmo que as âncoras tivessem sido suspensas de
todo; viu outro, um facínora famoso por sua valentia, desesperar-se ao ponto de
sair nadando atrás quando a nau se pôs a navegar, afastando-se para nunca mais,
e o bandido nadara horas antes de ser tragado pelo abismo oceânico.
Antero e
Afonso, não; pareciam dementados, agindo como se apenas estivessem em férias ou
aguardando uma nave que os levasse de volta aos anéis de Saturno. Pareciam não
ter a mínima consciência de sua real situação, incapazes de perceber que teriam
ali cortados os últimos laços protetores da civilização humana, abandonados às
agruras de um sertão inóspito. Como podiam regozijar-se com seu próprio
desterro?! Parece coisa cristã?
E aquela
cunhã gostosa, de bunda empinadinha, que não lhe tirava os olhos de cima toda
vez que Dom Pero descia à terra? Que era lindinha, vá lá, e ele estava longe da
esposa há meses, porém daí a fixar-se em sua mente numa visão delirante, como
se ele ainda fosse um adolescente tarado, vamos e venhamos! Como é que uma
mulherzinha pagã e sem noção de vergonha, por bonita que fosse, rebolando
nuínha pra lá e pra cá, podia tirar-lhe o sono daquela maneira? Gozado, isso...
-- Chega de
bundar, ó Caminha!
E tinha mais
uma coisa: se não era tentação do Chifrudo, o que teria levado dois grumetes a
desertar na noite anterior? Por qual razão dois putos de primeira viagem, ambos
com dezesseis anos, escolheriam renunciar aos confortos da cristandade europeia
em troca de viver o resto de suas existências numa floresta virgem, em meio a
bestas feras e canibais? A quais motivos, senão de Satanás, poderia ele, Dom
Pero Vaz de Caminha, atribuir tamanhas loucuras?!
Chamavam-se
Darcy e Levy, os rapazes fujões. Um era portuga, de sobrenome Ribeiro, e já
mulherengo apesar da tenra idade; o outro era um francês, de sobrenome Strauss,
magrinho porém taludo o bastante para tornar-se em pouco tempo o favorito das
morenas locais.
Na verdade
nem tinham abandonado o barco com intenção de fugir; queriam só passar uma
noite em terra firme e, quem sabe, com as bênçãos do Senhor, dar sua modesta
contribuição ao cristianismo, ensinando o Padre Nosso a algumas cunhatãs
(motivação até aí bem louvável, diga-se).
Fugiram do
barco. Depois de passarem a noite em vigília dedicada à expansão do
conhecimento bíblico (lato sensu),
acabaram surpreendidos pela alvorada, e em tal disposição de corpo e alma que,
totalmente desatinados, decidiram adiar a volta para a noite seguinte. Com base
na hipótese de que sua insignificância podia nem ser percebida como ausência
numa tripulação numerosa e eufórica, arriscariam dez ou vinte chibatadas para
comemorar ali o Dia do Trabalho. Convém ressaltar, por oportuno, que essa
resolução não foi tomada assim, sem mais nem menos — não! Antes prometeram
regressar tão logo a próxima noite caísse.
-- Quê que
cê acha? – vacilou Levy.
-- Podes
crer, meu! – animou Darcy.
Sem dúvida
foram esses os primeiros brasileiros típicos, a semente dos futuros
congressistas. Prova disso está em que, uma vez tomada a decisão de esticar a
gandaia trabalhista, dormiram até as onze e gastaram o resto do dia na folgança
e no furdunço. Introduzidos à mais fina sociedade pindoramense por Antero e
Afonso – que já eram praticamente veteranos e estavam bem enturmados – os dois
garotos festejaram a efeméride do Primeiro de Maio como autênticos precursores
do brazilian way of life e da estética lulopetista: homenageando o
trabalho que Mamãe Natureza teve para preparar-lhes um cenário de tanto
esplendor.
-- Viva o
trabalho!
-- Vivaaa!
-- E pro
trabalho, nada?!
-- Tudooo!!!
Então as
índias tiraram da brasa mais um espeto de camarões e destamparam outra cabaça
de cauim. Nem por isso descuidaram de seus propósitos evangélicos, tanto que à
noitinha, quase na hora das despedidas, várias cecis já recitavam de cór (e com
que graça de sotaque!) até o pedaço do "venha a nós o vosso
reino."
Quando não
podiam mais fingir que ainda era dia – não era, não, por mais que aquela
absurda lua amarela parecesse um enorme sol noturno – tiveram que render-se à
evidência, dobrar-se à obrigação, resignar-se ao retorno. Mas vejam vocês como
são as coisas... Indo à aldeia para despedir-se dos tuxauas, conheceram
Tserenh, um pajé feio como a peste e coroca de uns duzentos anos, ganhando dele
duas cabaças de um cauim muito especial, Saliva de Virgem, guardadas
desde o último Kuarup e agora no ponto exato de estalar a língua.
Escoltados
de volta à praia por um bando de ninfas e sátiros nacionais, deram com os
degredados Afonso e Antero acabando de botar umas costeletas de porco no
braseiro, ao que acharam por bem “fazer uma boquinha” ali mesmo, antes
de encarar a natação — até porque era sexta-feira, noite em que o cardápio
naval trocava o eterno feijão com charque por bacalhau com centeio. Aliás, foi
nos jantares de bordo que os marujos criaram a conhecida frase “Ninguém merece”.
Aberta a Saliva
de Virgem, começaram logo o pagode. Conversa vai, conversa vem – cês sabem
como brasileiro é – o papo foi animando, as cunhãs almiscarando, a lua subindo
no céu, a chicha subindo na cabeça, todo mundo se soltando, e o deboche tomou
conta.
Até que
chegou o momento mais difícil de suas jovens vidinhas, dessas ocasiões em que a
gente precisa pensar e o sapo Cuiauá não deixa. Senão vejamos: tinham jurado
por Deus que regressariam mesmo, porém podia ser que um tal juramento
não tivesse validade ali, onde o correto seria jurar por Tupã ou Jaci, não é
razoável? De qualquer modo, tinham jurado, e tentaram resistir:
-- Agora é a
última, hem?!
Que mal
havia em confortar com sua companhia cristã um último brinde civilizado
daqueles pobres exilados? Era até uma caridade, pôxa!
Adiaram
novamente a volta, para depois da última. Como sabem os boêmios
sinceros, considera-se extrema falta de educação o uso dessa palavra – aliás,
em brasileiro castiço, última não significa nada, devia nem constar dos
dicionários. Por isso postergaram só mais um pouquinho, para uma ultimíssima.
Por outro
lado, seria descortesia despedirem-se das morenas com um simples beijinho de
adeus, e eles toparam mostrar a elas como eram galantes os namorados europeus.
E ficaram para uma transadinha mais, só para efeito de boa recordação, aliança
de eterna amizade entre o Brazil e o mundo, após a qual necessitavam de um
tempinho para recuperar o fôlego, senão perigava se afogarem antes de alcançar
o barco, inda mais com a língua mole, babando daquele jeito. Faltava só um
restinho da manguaça, caramba!, não iam fazer essa desfeita a Afonso e Antero,
como se estivessem morrendo de pressa, doidos pra dar o fora da festa. Então,
após molharem a goela com água de coco, cantaram a "Valsa do Adeus",
que é meio baixo astral, razão por que resolveram terminar com
-- ... tá chegando a hora
o dia já vem raiando, meu bem
eu tenho que
ir embora.
Já estavam
nos acordes finais quando chegaram alguns nativos com mais algumas garrafinhas
“da boa”, e aí foi preciso despedir tudo de novo, de modo que só
voltaram a pensar no assunto ao perceber que o sol do sábado já estava dando as
caras por trás da esquadra rubro-verde. E foi aí, somente aí, exatamente aí que
Darcy Ribeiro e Levy Strauss chegaram à peremptória conclusão de que não tinham
elementos suficientes para decidir nada antes do Natal.
Ora:
pensando bem, era totalmente duvidoso que o Almirante Cabral concordasse em
esperá-los até lá, de forma que iam mesmo perder a condução pra casa; assim, o
mais sensato era adiarem de uma vez para fevereiro próximo, podendo então
inaugurar pessoalmente o Carnaval de Pindorama, o que também lhes daria tempo
de organizar um campeonato decente de futebol-de-praia e preparar uma escola de
samba legalzinha, ensinar umas sacanagens pros índios, aprender ecologia numa
escola sem doutores, inventar leis bem filhas-da-puta pra sustentar os sacanas
todos, enfim: mil-e-umas curtições. E, já que tinham a pretensão de ser
brasileiros sérios, escolheram logo o tema do enredo e puseram-se imediatamente
a ensaiar a bateria:
--
Buuun-dão, mas que bundão!
Aí entrava a
ala dos caetés, cantando o tema, “Apoteose do Trabalho”, fazendo isso num ritmo
cadenciado, não como os bobões frenéticos de 500 anos depois. E era lindo
quando a ala das vovós entrava no terreiro, o vozerio crescendo e crescendo:
--
Buuun-dão, mas que bundão!
Do barco,
deitado em seu beliche abafado, Dom Pero escutava ao longe o baticum,
meditando:
-- O mais
perdido é aquele que se esconde...
Bem, não
está nos Evangelhos, mas que podia, podia. Não importa; enquanto Jesus não
volta pra revisar o texto pessoalmente, o melhor que se pode fazer é salvar
essa gente. Resta saber de quê.
Subindo ao
tombadilho deu de cara com Cabral, que já vinha em seu encalço. O outro fez
meia volta e entrou apressado no castelo de popa, com o Escrivão atrás.
-- Ó,
Caminha, vamos logo! Estás com bicho-preguiça, homem de Deus? Anda com isso,
que Dom Gaspar já está a partir.
-- Tô
indo...
-- Escreva
lá: o Almirante manda avisar a El Rey, para bom uso de Vosso discernimento, que
tem um porém.
-- Man-da...
a-vi-sar...
-- Dois
pontos: não tem Joaquim Barbosa que salve estes brazis.
-- Amém.
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