Vocês acreditam em lobisomem? Nem eu.
Mas eu vi um. Não só vi como passei a
menos de 1 metro dele. Não espero que ninguém acredite, até porque eu mesmo
continuo não acreditando, mas meus netos querem saber como aconteceu, então vou
contar – porque eles existem mesmo, saibam disso.
Foi em julho de 1961, na cidade em que
nasci e passei todas as minhas férias escolares. Itararé fica no Estado de São
Paulo, divisa com o Paraná. Nessa época os 100 quilômetros iniciais da estrada
desde a capital eram calçados com paralelepípedos, e só até Sorocaba; dali em
diante era um terrão brabo, que ia ficando mais vermelho e esburacado conforme
se avançava nos outros 200. Era mais comum viajar de trem, pela Estrada de
Ferro Sorocabana, que levava 12 horas se não atrasasse (o que acontecia dia
sim, dia sim). Os trilhos eram de bitola estreita, por isso os vagões
balançavam pra caramba, mas eram de madeira (tinham sido usados na Inglaterra,
no século XIX) e os comboios tinham carro-restaurante, onde se podia tomar uma
cerveja quentinha e optar: arroz com omelete ou omelete com arroz.
Quem podia ir de automóvel devia sair
de Sampa às 6 da manhã, para conseguir chegar lá um pouco antes do jantar –
isso se não houvesse contratempos mecânicos, coisa muito comum com os velhos
Chevrolet ou Ford da década de 1940, 8 cilindros bebendo muita gasolina. Meu
pai, que acreditava em quase tudo e era capaz de comprar uma caixinha de
fósforos queimados se lhe garantissem que acendiam duas ou três vezes nos dias
pares do mês, às vezes tinha carro, às vezes não tinha. Quando teve, sempre
achou que os carros europeus eram melhores do que os americanos, fossem novos
ou usados. O francês Citroën, por exemplo, devia ser o carro perfeito para
enfrentar aqueles magníficos lamaçais da Rodovia Raposo Tavares, tanto que a
fábrica dava um carro novo para quem conseguisse fazer o carro tombar (ao menos
foi isso que o vendedor afirmou ao vender-lhe um bem usado). Como ele não era
exatamente um ás no volante, várias vezes quase conseguiu realizar tal proeza,
e a gente se divertia muito com aquelas giradas de 360º, isso quando não
“garrava o mato” e a família rezava pra São Cristóvão; minha mãe não se
divertia nunca, devo registrar, talvez por não achar que o tal santo era mais
poderoso em matéria de proteção do que meu pai na incompetência
automobilística. Um ótimo carro, exceto porque eventualmente o motor pegava
fogo. Ou então o Austin A-70, que o Velho comprara zero Km quando acertou o
milhar no jogo do bicho; esse só não podia ser usado quando era preciso
importar alguma pecinha nova da Inglaterra – ou vocês imaginam que havia alguma
peça dele no Brasil?; aí levava uns três meses pra chegar, e alguém precisava
ir de ônibus buscá-la no porto de Santos.
Não estou saindo do assunto, não; só
achei melhor contar isso para dizer que Itararé não é uma cidade comum: é
fantástica, uma aventura, quase surrealista, a começar da viagem. Pra vocês não
dizerem que estou enrolando, deixo para outro dia contar o caso das lingüiças
desaparecidas, pois aí vocês não vão duvidar de mais nada que acontecia lá, por
estranho ou absurdo que pareça. Agora volto aos lobisomens.
O Cine-Teatro São José tinha uma sessão
diária às 8 da noite. Quando não havia algum circo visitando a cidade, era a
única diversão pública para quem não frequentava os bares e bilhares. Ou a zona
do meretrício, o que, para os meus 15 anos virgens, não era ainda uma opção.
Sendo uma segunda-feira e estando eu com meu dinheiro contadinho pro cinema ou
um sorvete, fui assistir “A Noiva de Frankenstein”, em branco e preto. Já tinha
assistido nas férias anteriores, mas entre ficar em casa escutando com minha
avó a rádio Nacional do Rio ou ver aquele filme de novo, optei pela reprise,
até porque o frio que faz lá em julho é coisa de chatear pingüim, de modo que
sorvete... nem pensar.
O filme acabou às 10 e só tinha uns
gatos pingados assistindo – quem é que encarava sair de casa com aquele frio
pra ver um filme velho e ruim? Só em desespero de causa, como era o meu caso.
Terminada a sessão, rapidamente os gatos se espalharam, cada um na direção de
sua casa, onde haveria um fogão de lenha com as brasas do jantar esperando para
aquecer o frio e o tédio.
Eu tinha que subir a Rua Quinze umas
dez quadras até meu destino. Além do frio, uma neblina que quase nem deixava
ver as luzinhas fracas e amarelas dos postes; não se enxergava de uma esquina a
outra, embora fosse possível escutar gente andando pra lá da Vila Osório (se
houvesse ao menos uma assombração andando por lá naquele inverno tenebroso). Um
silêncio espectral, só quebrado de vez em quando por algum cachorro jaguara ou
pelas locomotivas manobrando ao longe na estação ferroviária. Enfim, era o
cenário ideal para uma caminhada sinistra após um filme de cadáveres e
monstros. Não que eu estivesse com medo, só um pequeno receio, aliás achando
muito bom, pois em nenhum outro lugar se poderia ter a mesma sensação, exceto
talvez nalgum subúrbio de Londres.
Para evitar passar na calçada da Casa
Funerária, que ficava bem no meu caminho e tinha uma bela vitrine com dois ou
três caixões de defunto em exposição, e também para não arriscar dar de cara
com um zombie ao passar por alguma esquina, eu caminhava pelo meio da rua. Sem
os óculos, que ficavam embaçados com o bafo da respiração. Até pensei em
assobiar uma musiquinha qualquer, porém eu lera numa revistinha de terror que
os fantasmas podem ouvir e querer assobiar junto; melhor então ficar quietinho,
de orelha em pé. Eu sei que bruxas não existem, mas... vai que existem, né
mesmo? Afinal, há mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe a nossa vã
filosofia, já dizia um poeta muito mais sabido que eu. Sem contar que em boca
fechada não entra mosca, minha avó já me dizia, e era bem sabida das coisas.
Lá ia eu, pimpão e saltitante, quando
escutei passos à distância. Aveludando minhas pisadas, estiquei as orelhas e
engatei uma segunda. O som dos passos ia aumentando, uns sons ocos... hmm, não
achei aquilo bonito, não mesmo. Bem, a criatura monstruosa não podia ser, tinha
acabado de morrer queimada no castelo do Dr. Frankenstein, mas quem iria para o
centro da cidade àquelas horas? Só se estivesse indo para a Santa Casa, mas
essa ficava na Rua São Pedro, uai! Nesse momento me arrependi de ter deixado a
vontade de fazer xixi pra quando chegasse em casa, mas banquei dignidade e
pensei:
-- Tarde piastes, macuco; agora já mandei
bala.
Noutra rua, mais sombria, eu até
poderia mijar num poste, mas ali, em plena Rua Quinze?! E se tivesse alguém
espiando pela veneziana, o que diria se visse meu pintinho congelado, ahn?
Então respirei fundo e continuei andando, fazer o quê?
O vulto apareceu quando eu ia passando
bem na frente da Funerária, e vinha também pelo meio da rua, na minha direção.
Andando que-nem um marinheiro no convés de um barco em noite de mar funesto,
balançando prum lado e pro outro. Alto e preto, com calça e paletó pretos. Pra
falar a verdade, não juro que era alto, mas é assim que aparece quando visita
meus pesadelos. Porém era preto e peludo, isso garanto. Vinha que vinha,
devagar, soltando baforadas de vapor e batendo o salto das botinas no
calçamento. Era uma figura feia, e não ficou nem um pouco mais bonita quando um
longo apito melancólico veio da estação: piiiii...
Ao passar por mim o peludo me olhou de
esguelha – uns zóião vermelho de quem fumou um baseado “da lata” –, fungou o
focinho e soltou uma espécie de grunhido, que não posso descrever aqui; vocês
imaginem o que quiserem (por exemplo, um cachorrão boxer dos grandes te olhando
enviesado e dando aquele rosnado surdo de quem não foi nadinha com a tua cara).
Confesso que deixei escapar ali um pouquinho do xixi, quentinho... Ele
prosseguiu seu caminho; eu fiquei fingindo que era estátua.
Foi assim. E se alguém disser que cu
não tem arrepio, é um mentiroso.
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