terça-feira, 28 de maio de 2013

03 - CAUSO DE LOBISOMEM

Vocês acreditam em lobisomem? Nem eu.
Mas eu vi um. Não só vi como passei a menos de 1 metro dele. Não espero que ninguém acredite, até porque eu mesmo continuo não acreditando, mas meus netos querem saber como aconteceu, então vou contar – porque eles existem mesmo, saibam disso.
Foi em julho de 1961, na cidade em que nasci e passei todas as minhas férias escolares. Itararé fica no Estado de São Paulo, divisa com o Paraná. Nessa época os 100 quilômetros iniciais da estrada desde a capital eram calçados com paralelepípedos, e só até Sorocaba; dali em diante era um terrão brabo, que ia ficando mais vermelho e esburacado conforme se avançava nos outros 200. Era mais comum viajar de trem, pela Estrada de Ferro Sorocabana, que levava 12 horas se não atrasasse (o que acontecia dia sim, dia sim). Os trilhos eram de bitola estreita, por isso os vagões balançavam pra caramba, mas eram de madeira (tinham sido usados na Inglaterra, no século XIX) e os comboios tinham carro-restaurante, onde se podia tomar uma cerveja quentinha e optar: arroz com omelete ou omelete com arroz.
Quem podia ir de automóvel devia sair de Sampa às 6 da manhã, para conseguir chegar lá um pouco antes do jantar – isso se não houvesse contratempos mecânicos, coisa muito comum com os velhos Chevrolet ou Ford da década de 1940, 8 cilindros bebendo muita gasolina. Meu pai, que acreditava em quase tudo e era capaz de comprar uma caixinha de fósforos queimados se lhe garantissem que acendiam duas ou três vezes nos dias pares do mês, às vezes tinha carro, às vezes não tinha. Quando teve, sempre achou que os carros europeus eram melhores do que os americanos, fossem novos ou usados. O francês Citroën, por exemplo, devia ser o carro perfeito para enfrentar aqueles magníficos lamaçais da Rodovia Raposo Tavares, tanto que a fábrica dava um carro novo para quem conseguisse fazer o carro tombar (ao menos foi isso que o vendedor afirmou ao vender-lhe um bem usado). Como ele não era exatamente um ás no volante, várias vezes quase conseguiu realizar tal proeza, e a gente se divertia muito com aquelas giradas de 360º, isso quando não “garrava o mato” e a família rezava pra São Cristóvão; minha mãe não se divertia nunca, devo registrar, talvez por não achar que o tal santo era mais poderoso em matéria de proteção do que meu pai na incompetência automobilística. Um ótimo carro, exceto porque eventualmente o motor pegava fogo. Ou então o Austin A-70, que o Velho comprara zero Km quando acertou o milhar no jogo do bicho; esse só não podia ser usado quando era preciso importar alguma pecinha nova da Inglaterra – ou vocês imaginam que havia alguma peça dele no Brasil?; aí levava uns três meses pra chegar, e alguém precisava ir de ônibus buscá-la no porto de Santos.
Não estou saindo do assunto, não; só achei melhor contar isso para dizer que Itararé não é uma cidade comum: é fantástica, uma aventura, quase surrealista, a começar da viagem. Pra vocês não dizerem que estou enrolando, deixo para outro dia contar o caso das lingüiças desaparecidas, pois aí vocês não vão duvidar de mais nada que acontecia lá, por estranho ou absurdo que pareça. Agora volto aos lobisomens.
O Cine-Teatro São José tinha uma sessão diária às 8 da noite. Quando não havia algum circo visitando a cidade, era a única diversão pública para quem não frequentava os bares e bilhares. Ou a zona do meretrício, o que, para os meus 15 anos virgens, não era ainda uma opção. Sendo uma segunda-feira e estando eu com meu dinheiro contadinho pro cinema ou um sorvete, fui assistir “A Noiva de Frankenstein”, em branco e preto. Já tinha assistido nas férias anteriores, mas entre ficar em casa escutando com minha avó a rádio Nacional do Rio ou ver aquele filme de novo, optei pela reprise, até porque o frio que faz lá em julho é coisa de chatear pingüim, de modo que sorvete... nem pensar.
O filme acabou às 10 e só tinha uns gatos pingados assistindo – quem é que encarava sair de casa com aquele frio pra ver um filme velho e ruim? Só em desespero de causa, como era o meu caso. Terminada a sessão, rapidamente os gatos se espalharam, cada um na direção de sua casa, onde haveria um fogão de lenha com as brasas do jantar esperando para aquecer o frio e o tédio.
Eu tinha que subir a Rua Quinze umas dez quadras até meu destino. Além do frio, uma neblina que quase nem deixava ver as luzinhas fracas e amarelas dos postes; não se enxergava de uma esquina a outra, embora fosse possível escutar gente andando pra lá da Vila Osório (se houvesse ao menos uma assombração andando por lá naquele inverno tenebroso). Um silêncio espectral, só quebrado de vez em quando por algum cachorro jaguara ou pelas locomotivas manobrando ao longe na estação ferroviária. Enfim, era o cenário ideal para uma caminhada sinistra após um filme de cadáveres e monstros. Não que eu estivesse com medo, só um pequeno receio, aliás achando muito bom, pois em nenhum outro lugar se poderia ter a mesma sensação, exceto talvez nalgum subúrbio de Londres.
Para evitar passar na calçada da Casa Funerária, que ficava bem no meu caminho e tinha uma bela vitrine com dois ou três caixões de defunto em exposição, e também para não arriscar dar de cara com um zombie ao passar por alguma esquina, eu caminhava pelo meio da rua. Sem os óculos, que ficavam embaçados com o bafo da respiração. Até pensei em assobiar uma musiquinha qualquer, porém eu lera numa revistinha de terror que os fantasmas podem ouvir e querer assobiar junto; melhor então ficar quietinho, de orelha em pé. Eu sei que bruxas não existem, mas... vai que existem, né mesmo? Afinal, há mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia, já dizia um poeta muito mais sabido que eu. Sem contar que em boca fechada não entra mosca, minha avó já me dizia, e era bem sabida das coisas.
Lá ia eu, pimpão e saltitante, quando escutei passos à distância. Aveludando minhas pisadas, estiquei as orelhas e engatei uma segunda. O som dos passos ia aumentando, uns sons ocos... hmm, não achei aquilo bonito, não mesmo. Bem, a criatura monstruosa não podia ser, tinha acabado de morrer queimada no castelo do Dr. Frankenstein, mas quem iria para o centro da cidade àquelas horas? Só se estivesse indo para a Santa Casa, mas essa ficava na Rua São Pedro, uai! Nesse momento me arrependi de ter deixado a vontade de fazer xixi pra quando chegasse em casa, mas banquei dignidade e pensei:
-- Tarde piastes, macuco; agora já mandei bala.
Noutra rua, mais sombria, eu até poderia mijar num poste, mas ali, em plena Rua Quinze?! E se tivesse alguém espiando pela veneziana, o que diria se visse meu pintinho congelado, ahn? Então respirei fundo e continuei andando, fazer o quê?
O vulto apareceu quando eu ia passando bem na frente da Funerária, e vinha também pelo meio da rua, na minha direção. Andando que-nem um marinheiro no convés de um barco em noite de mar funesto, balançando prum lado e pro outro. Alto e preto, com calça e paletó pretos. Pra falar a verdade, não juro que era alto, mas é assim que aparece quando visita meus pesadelos. Porém era preto e peludo, isso garanto. Vinha que vinha, devagar, soltando baforadas de vapor e batendo o salto das botinas no calçamento. Era uma figura feia, e não ficou nem um pouco mais bonita quando um longo apito melancólico veio da estação: piiiii...
Ao passar por mim o peludo me olhou de esguelha – uns zóião vermelho de quem fumou um baseado “da lata” –, fungou o focinho e soltou uma espécie de grunhido, que não posso descrever aqui; vocês imaginem o que quiserem (por exemplo, um cachorrão boxer dos grandes te olhando enviesado e dando aquele rosnado surdo de quem não foi nadinha com a tua cara). Confesso que deixei escapar ali um pouquinho do xixi, quentinho... Ele prosseguiu seu caminho; eu fiquei fingindo que era estátua.
Foi assim. E se alguém disser que cu não tem arrepio, é um mentiroso.


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