Cite apenas uma música dos
compositores Joaquim Barroso Neto, Luciano Gallet, Fructuoso Viana, Hekel
Tavares, Brasílio Itiberê da Cunha, Francisco Mignone, Oscar Lorenzo Fernández,
Assis Republicano, Radamés Gnatalli, Mozart Camargo Guarnieri e Luís Cosme.
Seria lamentável se você não conseguisse citar nenhuma, pois – ao lado de
Heitor Villa-Lobos – são considerados, pela grande maioria dos críticos e
musicólogos, como os maiores compositores eruditos do Brasil no século XX. Eram
todos adeptos da estética conhecida como nacionalismo, que é uma das vertentes
do neoclassicismo.
Não vale dizer que Francisco Mignone
fez “Da Cor do Pecado” e “Curare”, porque ele não se orgulhava delas, tanto que
as escondia sob o pseudônimo de Chico Bororó. Afinal, chique é música erudita;
que diriam os futuros compêndios de História da Música sobre sua arte se ele
ficasse por aí compondo sambinhas, não é mesmo?
Alguém aí é capaz de dizer o nome de
59 compositores brasileiros? – vale pagode, rock, funk, rap, pode incluir qualquer
um, até aquele da “Egüinha
Pocotó”. Não sabe? Hmm...
Então saiba que em 1938 foram catalogadas 107 óperas brasileiras, de 59
autores! Todas com libreto em italiano, é claro, porque nós somos chiques e
ninguém aceitaria uma ópera verdadeiramente séria cantada em português, não é?
Em arte, ou se é revolucionário ou
plagiário. Esta frase, de Paul Cézanne, é usada como epígrafe no primeiro
capítulo de “Introdução à
Música de Nosso Tempo”, de
Juan Carlos Paz – compositor argentino (1901-1972), também reconhecido como o
mais importante musicólogo das Américas. Trabalhou com Vincent d’Indy no
Conservatório de Paris e lecionou vinte anos em universidades dos Estados
Unidos. Sua obra foi inicialmente neoclássica, sob influência de César Franck,
Richard Strauss e Igor Stravinsky, passando depois por um longo período
serialista, na linha de Arnold Schönberg e Anton Webern. Como compositor,
talvez não tenha deixado nada realmente importante, mas enquanto filósofo e
esteta deveria ser leitura obrigatória nos conservatórios e faculdades de
música.
Tais referências indicam que Paz
nunca foi adepto dos nacionalistas, que só “...
contribuíram para avolumar a enorme quantidade de produtos mais ou menos
híbridos, pitorescos ou redundantes que,
há um século, acumulam-se em todos os lugares”. E acrescenta: “Na realidade, a síntese e a
culminância do nacionalismo no Brasil pode ficar circunscrita à obra de
Villa-Lobos.”
É essa a visão dele, com a qual eu
concordo. Porém nenhuma opinião individual significa mais do que um grão de
areia no oceano, seja de um grande musicólogo como ele, seja de um modesto
músico, como euzinho; nem as mães amorosas dão muito valor aos achismos de seus
filhotes. O único juiz definitivo de valor em arte é o meritíssimo Tempo, que
se encarrega de varrer ao lixo da História tudo aquilo que não serve mais a
ninguém. Por isso mesmo, aceitemos que todo o entulho musical deixado por
aquela lista de brasileiros citados lá no primeiro parágrafo já foi devidamente
varrida. Repito: entulho.
– Ó – dirão alguns – que sujeitinho herético é esse tal
Frederico!
Bem, isso até seria um alto elogio,
posto que todos os avanços da civilização foram iniciados pelos passos dos
heréticos. Ademais, sei que os urubus preferem carniça a qualquer outra comida,
e não penso que deveriam ser eliminados por causa disso, tenho o maior respeito
por eles (ainda que eu prefira lagosta à Thermidor com vinho branco de Macon,
se possível da safra de 1962). Digo isso apenas para permitir, a quem queira me
xingar, que além de herético me chame de arrogante e esnobe – são meus elogios
favoritos.
Então vou aos museus para depois
chegar ao Heitor. Se imaginarmos que 1 milhão de pessoas no mundo assista
diariamente um concerto, num planeta com 7 bilhões de habitantes seriam
necessários 20 anos para que todos tivessem assistido algum; supondo ainda uma
vida média de 80 anos por terráqueo, cada um de nós morreria com 4 concertos na
biografia. Presumindo, então, que cada concerto dure duas horas, na muito
otimista hipótese de que todos agüentem ficar sentadinhos e quietos tanto
tempo, apenas vendo os músicos tocando lá no palco, ninguém ouviria 1/10 da
obra de Jobim ou 1/100 da obra de Bach. Puxa, que miséria, não?!
Felizmente inventaram o fonógrafo e
seus sucedâneos, pois não haveria teatros suficientes para tanta gente, e
seriam necessários mais músicos competentes do que se possa imaginar, e não se
prepara um músico assim em menos de 20 anos de estudo dedicado, e mesmo os
estudantes precisam comer um pouquinho todos os dias, e não há grana suficiente
para fornecer-lhes alguma comida durante tanto tempo e ainda financiar as
campanhas dos políticos... Não, é impossível.
Então vamos gravar, ué! Gravo eu,
grava você, gravemos nós: segundo a associação dos produtores de discos dos
Estados Unidos (ASCAP) são lançados semanalmente 200 discos novos no mercado de
música, 10.400 por ano, e qualquer um pode também gravar em casa e publicar na
Internet, portanto já vivemos num planeta totalmente musical. Neste cenário,
qual é a função dos museus? Preservar apenas o que possa ser qualificado de “o
melhor da produção artística da humanidade”. Mas eles já estão lotados, e o ser
humano continua produzindo alguma beleza, de modo que é inevitável ser cada vez
mais criteriosa a escolha do que deve ser guardado lá.
Quando eu ouço uma canção piegas que
começa assim
Acorda, vem ver a lua cheia na
noite escura...
e procuro imaginar como é que a
noite pode ser escura se há lua cheia, minha crença na humanidade piora muito,
se transforma em desconsolo, e tenho vontade de ir ao jardim zoológico. Além de
cônsul em Nova York, a autora dessa besteira (e de muitas outras) escrevia
“poesia” nas horas vagas e promoveu muito o compositor Villa-Lobos, que tem
mais de 6 músicas ainda não varridas pelo Sr. Tempo.
Então com licença: vou ouvir um
disco do Cartola, que fazia letra e música, e continuará genial de verdade
durante milênios. Perdoem-me os adeptos da paz dos cemitérios.
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