Surgiu ao sol da tardinha um par de pernas lindas,
levando a dona delas o meu olhar atrás...
O meu bom senso não quis me permitir palavras
sem que um olhar se fizesse esperança.
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Sérgio Ricardo
Tanto Charlie Parker quanto John
Coltrane tinham semelhanças morais e físicas com um saxofonista chamado
João Batista Pirahy, que cometeu um lento suicídio tomando oceanos de uísque
vagabundo.
Quando eu tinha 26 aninhos (e já
estava há 10 tocando em botequins e boates) inventei de estudar clarineta.
Nessa época eu ia freqüentemente ao Conservatório Musical Meirelles, na Av.
Brigadeiro Luís Antonio, onde, num quarto do porão, morava Johnny Alf (autor de
"Eu e a Brisa", conhecem?) – o verdadeiro criador do estilo
bossa nova, uma década antes de Antonio Carlos Jobim escrever aqueles arranjos
para o disco "Canção do Amor Demais", de Elizeth Cardoso, e de João
Gilberto reinventar o samba. Foi com Johnny que perdi o medo e o
preconceito dos homossexuais: apesar de me paparicar afetuosamente com drinques
e canapés que ele mesmo preparava, jamais me deu uma "cantada" nas
muitas tardes e happy hours que passei naquele quarto, bebendo
a sabedoria daquela fonte humana e musical.
Eu costumava ficar sentado no
parapeito da única janela, que dava para um pátio com uma jabuticabeira
enorme; e ficava lá, empoleirado no batente, geralmente com o violão no colo e
meio estuporado pelo respeito que votava àquele imenso músico. Acho que
sentava lá porque – além de um toca-discos ruinzinho, da cama, de um
guarda-pouca-roupa, de uma cadeira velha, da porta e dessa
janela – todo o resto das paredes era ocupado por pilhas de discos
que iam do chão ao teto, literalmente. E a cadeira não era pra sentar, era pra
subir e alcançar os discos que ficavam no alto das pilhas.
Às vezes a gente ia para uma das
salas de aula desocupadas, onde ele sentava ao piano, tocava coisas de jazz e
bossa nova, me ensinava novos acordes, explicava as harmonias de suas músicas,
e falava de George Gershwin ou Cole Porter como quem fala de amigos de
infância. Enfim: foi ele quem me encaminhou ao Mozarteum de São Paulo, para
estudar canto com Mariïnha Lacerda, harmonia com Castro Pinto Jr., piano com
Arnaldo Estrela e clarineta com Pirahy. Pouco depois disso Johnny voltou para
o Rio de Janeiro e só o reencontrei mais uma vez, muitos anos depois, nos
bastidores de um festival de música.
Eu era um bom aluno, cu-de-ferro pra
caramba – adorava música, conquanto não tivesse ainda a mais remota
noção de querer vir a ser um músico respeitado, muito menos de responder
"músico" quando alguém me perguntasse "qual é sua
profissão?" Na minha família, como em todas as famílias
"remediadas" de então, música era apenas um atributo lúdico de
boêmios brasileiros e gênios europeus (sem contar que eu já nascera
médico, apud meus familiares, que eram muito bem informados
pelos guias espirituais). Sei dizer que, após uns seis meses de aula, eu
estava meio caceteado com a lerdeza do que era ensinado, exceto nas aulas de
clarineta, onde o Pira me obrigava a fazer "um som bonito como o
de Benny Goodman e um ataque incisivo como o de Artie Shaw" (mas nem por
isso deixava de estimular minha criatividade, tocando em dueto comigo as
coisinhas que eu compunha durante a semana).
A glória foi quando ele me deixou
pela primeira vez soprar na sua clarineta francesa de ébano – lembro que saí da
aula até com um pouco de febre, zonzo. Hoje compreendo que os meus colegas no
conservatório eram apenas diletantes ou tinham pouco talento, e que viviam
a música como um hobby, não como uma coisa vital para suas
existências, razão pela qual os excelentes professores tinham que levar as
matérias em "banho-maria". Certo dia confessei a Pirahy o
meu tédio com todas as aulas em grupo que eu tinha lá, e que estava pensando em
largar aquilo; depois de muito tentar me convencer a não sair, ele acabou
aceitando minha vontade e me propôs que ao menos continuássemos as aulas
de clarineta na casa dele. Não precisou sugerir duas vezes: fui mesmo.
Ele morava em Pinheiros, lá no final
da Rua Cardeal Arcoverde. Minha mulher tinha acabado de me abandonar,
levando com ela as crianças, de modo que fiquei morando sozinho -- como
convém a um músico inconspícuo e pobretão -- em cima de uma quitanda na Rua
Joaquim Antunes, a 200 metros da Av. Rebouças, pertinho do Pirahy, e então
comecei a ir quase diariamente à casa dele.
Dona Isa, a esposa alagoana, me
adotou como um filho. Eles tinham um único filho, João Eudes, cujo único
defeito – do ponto de vista do Pirahy – era ser pintor (aliás um artista de
grande talento). Mas não era músico, o que, para o Pirahy, filho e neto de
grandes músicos, devia ser uma espécie de defeito físico. E João era
homossexual, o que Pirahy não considerava propriamente um defeito mas achava
uma grande pena: justo o filho único dele – ele, que não podia ver uma mulher
bonita sem emitir suspiros profundos – ó mundo cruel! Então penso que
eu completava o João naquela sua afetividade simples, profunda e franca: era
jovem, musicófilo e gostava de mulheres.
Aos sábados eu ia já de manhã, pra
tomar junto o café, e ficava até a noite, quando ele saía para ir trabalhar
na orquestra de Ciro Pereira, na TV Record – banda que,
além de programas como “O Fino da Bossa” e “Bossaudade”, acompanhou gente como
Nat King Cole, Sammy Davis Jr., Ella Fitzgerald, Sarah Vaughn... Ele não
tinha carro – poderia ter, mas achava delicioso andar de ônibus
(pois nessa época era possível ser delicioso andar de ônibus em São Paulo,
tempo em que as famílias passeavam na Praça da Sé ou iam à noite ao Cine
Ipiranga ou Marabá ou Marrocos ou República, ou jantavam com música ao vivo no
restaurante Brahma da Avenida São João, ou tomavam chope no Bar Pinguim da
Praça Antonio Prado). Às vezes íamos juntos até o Sumaré, onde ficavam os
estúdios da TV Tupi (ele tinha muitos amigos entre os músicos da orquestra
de Luiz Arruda Paes) e eu dali descia para o Arouche, onde tocava violão e
cantava num puteiro chique da Rua General Jardim, lá embaixo, quase no
Largo Santa Cecília. Aos sábados eu me sentia tão feliz que não andava,
só flutuava e deslizava sobre o chão: pudera!, tinha passado o dia inteiro
escutando as melhores big bands, e o Pira me mostrando:
-- "Essa é uma seção de
trompetes com surdina straight", "presta atenção no diálogo entre a
bateria do Buddy Rich e o trombone do J. J. Johnson", "olha que
maravilha esse solo de Paul Desmond"... Parava nos
intervalos das faixas para pegar o saxofone e me mostrar: "Lee
Konitz toca assim... Eric Dolphy assado..." – esse tipo de
coisas, aulas ao vivo, com o melhor do melhor. Lição de casa: "tem
uma semana para aprender a cantar o solo de Maynard Fergusson em Body
and Soul. Ah: aproveita e escreve o naipe de trombones que Stan Kenton
usou nos compassos 65 a 72". Era a lua, o sol e as estrelas
também, tudo meu!
Podem não acreditar e podem também
me chamar de arrogante – é um dos poucos elogios que eu gosto de
receber – mas eu era bonito, esbelto, tesudo, músico profissional e amigo
das melhores damas de São Paulo, ou seja, só não era completamente feliz
por causa da saudade dos meus filhos. Mas era muito feliz, e sabia disso.
Acho que Dona Isa não cheirava as
roupas do Pira quando ele voltava de madrugada; penso que desconfiava que ele
gostasse tanto das fêmeas e que fazia o maior sucesso com a mulherada, mas
afirmo que ela não estava nem aí, contanto que cuidasse bem da família. Às
vezes, quando ele e eu esticávamos muito as nossas viagens musicais, ela vinha
e dizia:
-- "Desculpe,
Frederico, mas Pirahy ainda não pegou no sax hoje. Pirahy, chega de papo, vai
estudar".
E ele ia, muito humildemente,
obediente como qualquer criança bem comportada.
Toda segunda-feira, dia de folga nas
orquestras, ia tocar na gafieira Som de Cristal, na Rua Amaral Gurgel,
encostada ao Largo do Arouche, onde os melhores músicos (mesmo ganhando
uma graninha mixuruca) se reuniam apenas pelo prazer de fazer o
melhor do samba-choro paulistano.
– “Vou fazer a feira” –
ele dizia, isso porque no dia seguinte sairia de casa bem cedinho
com uma lista preparada por D. Isa, indo fazer as compras da semana. Levava a
manhã inteira para cumprir tal tarefa, não porque a lista fosse muito grande
mas porque tinha amizades em todas as barracas e gastava um tempão jogando
conversa fora, feliz da vida. Nem precisava escolher as frutas e verduras:
sempre lhe vendiam só o melhor.
Gafieira era o maior respeito, como
se sabe, mas ele nunca desfilava inutilmente o seu belo pixaim
grisalho cortado à moda black power: saía sempre com a mulata
mais gostosa disponível. E uma vez por ano era convidado especial
na Festa da Colheita de um sítio vinícola na Aldeia de Carapicuíba (me
levou lá várias vezes, depois que ficamos amigos), onde se produzia o
"vinho do padre" que supria a Arquidiocese da Sé de São Paulo, de
modo que Dom Paulo Evaristo Arns só bebia do melhor (imagino que também por
isso suas missas eram tão boas).
Lá na Aldeia acontecia, além do
churrasco, uma roda de choro que só quem esteve presente pode saber o que
se tocava no Olimpo dos músicos. Eu já tocava bastante bem o violão
(modéstia não é um dos meus defeitos), mas só participava da roda porque era
"filhote" do Pira. Aquilo era um verdadeiro santuário, uma
confraria mais fechada do que a Máfia siciliana, e eu toquei com eles; por
condescendência, eu sei, mas toquei.
Pirahy era mestiço de índio
e negro, um caboclo típico. Nascera filho de um mestre-de-banda numa
cidadezinha do interior de Goiás, onde seu pai tocara muitos anos na banda
de Anacleto de Medeiros. Começara tocando tarol aos 7 anos e fora
percorrendo todos os instrumentos, conforme sua idade permitia coisas mais
difíceis. Quando o conheci, seus instrumentos profissionais eram clarineta e
sax alto; seus instrumentos "domésticos" eram a flauta contralto e
o bandoneón. Resumindo, nesses instrumentos não tinha rivais no
Brasil em seu tempo, com absoluta certeza.
Astor Piazzolla e ele se
correspondiam regularmente, em cartas apaixonadas que ele às vezes me dava pra
ler, e o mestre do tango moderno não vinha ao Brasil sem passar ao menos uma
noite inteira na casa do Pira, trocando figurinhas musicais, fazendo duetos de
bandoneón, improvisando tangos e chorinhos, e bebendo litros de... chá
preto! Eu bebia vodka – não me sentia à altura de tomar chá
preto com aqueles dois incríveis “malucos beleza”; só olhava e babava
embasbacado.
E a gente já se conhecia de muitos
anos antes, sem saber. Meu baile de formatura no ginásio do Liceu Pasteur, em
dezembro de 1960, fôra no salão do Esporte Clube Pinheiros, com a
orquestra de Enrico Simonetti, na qual Pirahy era o 1.º alto (o spalla das big
bands de jazz). Meu baile de formatura no curso científico,
em 1963, também foi no Pinheiros e também com a banda de
Simonetti – aliás, foi essa a última temporada da orquestra no
Brasil, pois o maestro se mudou definitivamente para a Itália, sua terra natal,
e só o vi depois pela TV, regendo num daqueles festivais de San Remo.
Nos bailes dos "Anos
Dourados" os formandos e os convidados só iam de smoking (alguns
iam de summer, mas isso era meio cafajeste naquela época), todos charmosíssimos
e elegantérrimos. Eu e alguns colegas enchíamos a cara de screw
driver, cuba libre ou whisky com guaraná, e
dançávamos praticamente o tempo todo, pois gostávamos muito de moças e de
bebidas alcoólicas – posto que naquele tempo ainda não tinham
inventado o homo nem o bissexualismo (Simone de Beauvoir ainda não
chegara a Pindorama), e muito menos maconha ou cocaína ou crack ou ecstasy, de
forma que tais coisas não existiam em nosso universo mental.
Agitávamos incansavelmente desde as 10 até as 4 da matina, mas enquanto os
colegas procuravam ficar longe do palco eu tratava de levar a menina
pr'aquele lado, só para ficar apreciando a banda mais de perto, imerso naquela
quantidade de som, ali na cara dos músicos, dançando de rosto colado e
imaginando a maravilha que devia ser estar ali tocando e dizendo piadinhas no
meio de um trabalho tão bom. Eu era Gene e a menina era Grace, ambos Kelly,
porém sem parentesco. A Medicina começava a perder ali um dos seus futuros
gênios: eu.
Dez anos depois desse
baile seria esse mesmo Pirahy quem me daria a grande notícia, a espantosa
revelação:
-- “Você não
quer ser instrumentista, Ferderico (sempre me chamava assim);
você nasceu arranjador e compositor”.
Garanto que não foi maior o choque
de Saulo na estrada de Damasco: esse foi o Big Bang (ou Big
Band?) da minha vida – nasci ali, meu destino foi traçado ali, dentro
de um ônibus subindo a Rua Teodoro Sampaio. Foi então me introduzindo no meio
profissional, me dando serviços de cópias musicais, arranjos, jingles, trilhas
de teatro e cinema, tudo que eu mais queria fazer. E eu queria tudo. Até tentei
ser também instrumentista, a duras penas; era competente, mas confesso que não
me esforçava nada para ser minimamente brilhante e, como me acontecia
freqüentemente de delirar com os arranjos, esquecia de entrar tocando nas horas
certas, mudava as harmonias, até que acabei desistindo – é que
instrumentistas têm de prestar total atenção nas notas, enquanto os
arranjadores têm mais é que viajar no som. Também fui montando as minhas
primeiras bandas de jazz e rhythm'n'blues, nas quais tocava guitarra com o
maior sacrifício, pois meu "barato" era mesmo escrever a música, a
ponto de, sempre que pintava um cachezinho a mais da produção, o primeiro
músico extra que eu contratava era um guitarrista, pra poder ficar só cantando,
apresentando os shows da banda e pensando nos arranjos.
Aqui entra nesta crônica saudosista
o saxofonista argentino Hector Costita, que tocara no famoso sexteto original
de Piazzolla em Buenos Ayres, depois com Sérgio Mendes em Nova York, depois com
Gato Barbieri em Paris – voltando, para morar no Brasil, já casado
com uma francesa tipo Françoise Sagan, simpática e culta e bonita e charmosa e
gostosa. Costita logo arregimentou uma banda para tocar às segundas-feiras na
melhor casa de jazz que já houve no Brasil, Opus 2004, na Rua da Consolação, à
direita de quem sobe da Praça Roosevelt em direção à Avenida Paulista, um
pouco acima do cemitério. Banda com dez músicos, dez "cobras" que
ensaiavam à tarde para tocar à noite – coisa possível
para instrumentistas daquele nível artístico e profissional. Pirahy me
ligou na hora do almoço:
-- “Escolhe aí uns dois ou três
arranjos seus e leva as partituras no ensaio”.
Ora, se fui! Fui e tremi,
sentado em frente ao palquinho da boate, encarando aquelas feras todas, sem
acreditar que não estava apenas tendo uma alucinação. Sentia uma espécie
de enjoo enquanto esperava a hora de escutar meus arranjos ali, ao
vivo, com aquela banda. Até que chegou a hora H, apertaram o
botão vermelho sobre Hiroshima.
Lembro-me que eram três músicas... e
eu achei todos os arranjos horríveis, simplesmente decepcionantes. A certa
altura o trombonista Azevedo me chamou para perto da estante dele:
-- “Ô,
general da banda, chega perto. Tá vendo isto que você escreveu aqui? Ó como é
que soa... nhóimmm... isso não se escreve, cara!”
Fiquei desconsolado, queria que o
chão se abrisse e eu pudesse sumir no Estige para sempre. Olhava para
o Pirahy, esperando que ele fizesse alguma coisa pra me salvar daquilo, mas ele
me olhava de volta e apenas ria, enquanto cochichava alguma coisa muito
divertida com o Bauru (do sax barítono) e o Botina (do 1.º trompete). Mas em
seguida o Azevedo continuou:
-- “Quando
escrever de novo, escreve oitava acima, que soa assim ó...”
E aquilo ficou bonito, talvez o som
mais lindo que eu jamais escutei na vida. Dali pra frente, no meio da
risadeira geral, o meu apelido ficou sendo General da Banda.
No terceiro arranjo o baixista
Juvenal se levantou e veio sentar à mesa em que eu estava, enquanto o pianista
Amílson Godoy combinava uns solos com Costita. Esse Juvenal era o mais
velho daquela turma, tinha já uns 60 anos, e era o que eu mais temia, porque
tinha uma cara de poucos amigos e porque eu sabia que ele tocara contrabaixo na
banda de Gordon Jenkins durante os 12 anos em que essa banda acompanhou Frank
Sinatra nos cassinos e nas gravações da Capitol Records. Sentou ao meu lado com
minhas partituras de contrabaixo e, enquanto a música rolava, ia paternalmente
me apontando os defeitos e os acertos do que eu tinha escrito. Foi o Jardim do
Éden.
Muitas vezes, depois desse dia
maravilhoso, eu pude contratá-lo para gravações em estúdio, inclusive em vários
programas que fiz na TV Cultura, com ótimos cachês. Ele e os outros: o General
da Banda saberia e soube reconhecer o enorme carinho que aqueles músicos
dedicaram à sua humilde pessoa naquela tarde. Se eu sou ou não um bom músico, o
tempo dirá; mas que convivi e toquei com os melhores dos melhores, isso é um
fato que me aquece o coração só de lembrar.
Hector Costita era o sujeito
mais elegante e distinto que se possa pensar. Naquela noite de estréia,
terminada a primeira entrada da banda, me chamou até o saguão e, enquanto
tomávamos um belo Johnny Walker rótulo preto às custas da casa, e os clientes
assistiam comédias do cinema mudo (Chaplin, Laurel & Hardy, Keystone Cops,
Buster Keaton), ele educadamente me explicou que não tocaria um dos arranjos
porque não estava muito bom (era fino o bastante para não dizer que estava uma
bosta), e depois sugeriu que eu deixasse de lado aqueles velhos standards, porque
já haviam sido trabalhados pelos maiores arranjadores de todos os tempos,
e procurasse fazer arranjos de alguns temas mais recentes. Daí que, na semana
seguinte, o meu arranjo de "Here, There and Ev'rywhere" (Lennon &
McCartney) foi elogiado por todos os músicos e tocado duas vezes. Meu caminho
não teria mais volta: eu nunca mais seria infeliz nesta existência. Mas
foi nessa noite que Pirahy começou a morrer.
Dois meses antes eu convidara mestre
Pira para um jantar de comida baiana na casa de uma grande amiga minha, Edi,
ex-colega na Faculdade de História, uma das melhores alunas que jamais sentaram
a bunda nas carteiras da USP (e uma das mais belas bundas). Mulata de
tirar o fôlego e parar o trânsito, nascida em favela, empregada doméstica até
concluir o Curso de Madureza (hoje Supletivo), mais tarde historiadora de
renome. Depois foi morar em Paris e fazer seu doutorado na Sorbonne; aliás
obteve seus títulos lá à custa de preparar feijoadas aos domingos, pois
naqueles tempos a ditadura fascista dos milicos não dava bolsas de estudo para
cursos na área de ciências humanas. Era casada com um engenheiro
(doutorado em Londres e, mais tarde, um dos criadores do metrô de Sampa), ambos
pessoas maravilhosas, realmente fora do comum, inteligentes, boníssimos,
alegres, afetuosos como conheci poucos.
Pirahy foi o sucesso daquele jantar,
com sua verve e sua simplicidade, sua música e sua simpatia, seu humor e sua
vivência única. Apaixonou-se perdidamente pela Edi e nunca conseguiu livrar-se
dessa incontrolável paixão, ainda que já soubesse lucidamente que nunca poderia realizar aquele
amor insano. Nem tentou, é claro, mas a partir do dia seguinte,
embora continuássemos todos nos encontrando sempre, e rindo de tudo, e sendo
felizes, o Pira começou a beber uísque Drury's puro
em copos de água, desde a manhã até a noite. Começava a se matar, porque a
dor era grande demais, proporcional ao tamanho do seu coração, de sua alma
e da sua paixão.
Na noite que descrevi antes,
quando mostrei meu arranjo dos Beatles, ele estava tão bêbado que chegava a
dormir durante o show, sendo acordado por algum dos músicos para
entrar tocando suas partes como se fosse um sonâmbulo, e tocando
maravilhosamente, sem errar uma única nota, com o melhor som que ele jamais
tinha produzido na vida. Depois desmaiava de novo, e acordava de novo
tocando... Desceu do tablado carregado, aplaudido como nunca, andou meio
cambaleando entre as mesas – os clientes de todas as mesas disputando
que ele se sentasse lá – e continuou rindo e bebendo até o fim
da noite, com um bando de mulheres lindas se jogando pra cima
dele. Morreu exatamente um mês depois, em noite de lua cheia, após uma parada
cardíaca.
Estive tentando, a pedido de Dona
Isa, fazer alguma coisa que o tirasse daquela depressão suicida, porém tive meu
diagnóstico de tuberculose duas semanas depois desse episódio, e
precisei me afastar de todos. Quando já estava quase bom, passando
uns dias no interior para visitar meus filhos, aquela
tragédia se consumava. Querendo me poupar de tão enorme desgraça,
meus amigos só me contaram vários dias depois que ele tinha sido
enterrado.
Até hoje não consegui chorar sua
morte. É que ele não morreu: the bird apenas se cansou de
sua gaiola e foi tocar flauta no espaço sideral.
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