terça-feira, 28 de maio de 2013

07 - AS BATALHAS DE ITARARÉ

A cidade de Itararé ficou famosa quando, na Revolução Constitucionalista de 1932, tropas paulistas e getulistas se defrontaram às margens do rio homônimo. Essa fama aumentou quando os livros contaram que a conhecida Batalha de Itararé não aconteceu. Quero esclarecer que aconteceu, sim, pois gosto de contar as histórias como na História foram.
Bem... aconteceu mas não houve, isto é, de fato ocorreram episódios propriamente bélicos mas as duas tropas beligerantes se colocaram em posições muito estratégicas. Realmente tão estratégicas que seus tiros jamais poderiam atingir os adversários do outro lado do rio, a menos que as leis da Física fossem alteradas e as balas passassem a fazer curvas espantosas. Porém teve tiroteio e canhonaço, meu avô me contou, ainda que só para malefício de árvores e peixes.
E guerra é guerra, uai! – mesmo que o ferimento mais contundente tenha sido causado por um espinho fincado fundo no traseiro de um tenente que estava pescando bagres no riacho do Funil, os itarareenses podemos afirmar com certo orgulho que nunca aconteceu, em outra época ou lugar, uma batalha mais travada do que essa, e talvez por isso mesmo a mais bela de todas. Pena que a História exija mais do que empates técnicos ou bundas machucadas para levar os fatos ao respeito da posteridade.
Talvez seja melhor contar que Deus parecia firmemente decidido a poupar Itararé dos horrores necessários a fazê-la figurar nos anais através de guerras sangrentas, pois a História também deixou de registrar uma outra batalha – anterior e muito mais interessante – que também não houve. Se bem que essa foi por um triz, como lhes contarei com todos os seus escabrosos detalhes.
Deu-se por volta de 1920, nela tomando parte os contemporâneos do meu tio-avô Rodolfinho, emérito violinista e amante das mulheres, às quais dedicou sua música e sua paixão com liberdade, igualdade e (em certos casos) até mesmo fraternidade.
Descendente de respeitáveis famílias do lugar – adventistas de exemplar conduta e católicos de reputação ilibada, incluindo vários pastores e até um sacristão –, consta que tio Rodolfinho tinha apenas dois defeitos, de resto veniais: um descontrolado fascínio pelos perfumes da noite e uma insaciável atração pelas fêmeas da espécie.
Contam os pósteros que não só era muito bom com sua rabeca como, em qualquer circo que ali armasse lona, capaz de executar bonitas valsas enquanto atravessava um arame esticado a cinco metros do chão. Isso numa época em que seria considerado ridículo usar rede protetora, mas ele nem tchum, divertia-se às pampas com aquilo, mantendo sempre uma alta performance. Morreria moço, é verdade, porém também é verdade que não se apresentaria ao Juízo sem antes atingir notável proficiência com a rabeca. E com seu arco.
Para quem consegue tocar polcas num arame, pular muros e janelas é coisa banal: pá buf.  Banal e útil para quem, como tio Rudy, cresceria privado de qualquer critério a respeito de uma membrana que as mulheres usavam antigamente, e que devia ser levada intacta ao leito nupcial: o hímen.
É de supor que meu avô Fritz, irmão mais velho de Rudy, tenha tentado ensinar-lhe os rudimentos desse tema sócio-morfológico, embora tudo indique um aproveitamento bem precário das lições, talvez porque viesse passando alguma morenaça rebolando exatamente no pedacinho da aula em que se falava sobre a virgindade; sendo ambos sensíveis a um bom lordo, o mestre pode ter ficado mudo, ou mouco o discípulo.
Outra coisa que também dever ter feito mais difícil o aprendizado era seu total desinteresse por anatomia interna, senão Deus teria dotado a gente de pele transparente, coisa horrorosa, a ele pois só interessando as coisas externas, explícitas e palpáveis como um todo – por exemplo, uma Mulier sapiens inteirinha.
Os fatos mostrariam que os princípios de tio Rodolfinho baseavam-se numa moral singela: dividir as mulheres em categorias básicas – mais gostosas e menos gostosas – e depois comê-las todas. Se não atingiu seus bons propósitos foi por insuficiência de tempo, não por desídia, já que quando não o fazia por desejo fazia-o por amor à arte, dedicando igual empenho e apetite às duas categorias – aliás, as únicas que lhe interessavam dentre todas as possíveis divisões da humanidade. Quanto aos hímens, dava-lhes o mesmo entendimento que se dá hoje ao selinho Zero Km no pára-brisa dos carros: não se deve esforçar demais o motor antes da segunda revisão.
Não me foi possível, por ter nascido após sua morte, obter um perfil nítido desse meu tio-avô artista (ou arteiro, sei lá). Conforme fui conhecendo, ao longo dos anos, os causos de sua curta biografia – sempre tratada em voz baixa nas conversas de inverno ao pé do fogão de lenha, todas com mais reticências do que palavras. Comecei a perceber que, quando levados a recordá-lo, uma certa melancolia, uma tristeza contida tomava conta dos adultos envolvidos naqueles episódios. Até os rudes imigrantes alemães e as enérgicas matronas polonesas que deram raízes brasileiras à nossa família ficavam silenciosos e de olhar perdido ao lembrar “nossa ovelhinha desgarrada, tão cedo chamada ao seio do Senhor” – pródigo filho, irmão, sobrinho, primo, amante, centroavante da primeira boemia itarareense, cujo carinho ninguém sabia rejeitar, cuja saudade não conseguiam disfarçar ser aquela que se tem do mais querido – apesar de tudo ou, quem sabe, por causa disso mesmo. Depois dele, deixamos de ser alemães e polacos; tornamo-nos caipiras (modéstia à parte).
Todos os relatos coincidem sobre o feitiço e a graça permanentes que tornavam tio Rodolfinho capaz de impedir o mais severo sermonista de chegar até a moral da história sem abrir ao menos um sorriso, por desenxabido que fosse. Daí se deduz que os dias do Ovelha só variavam entre ótimos e excelentes talvez se explicando assim a pobreza quase franciscana de seus conhecimentos bíblicos, tão importantes para os Zimmermann daquele tempo. Nunca tendo nada a pedir, suas orações eram honestamente completas com duas palavras:
-- Obrigado, Deusão!
Nem de amém ele precisava. Na verdade, em verdade vos digo que ele nunca passeou muito longe do seu livro preferido, o Cântico dos Cânticos, nem chegou a dar aos evangelhos uma leitura convencional o bastante para fazer-se um exegeta aceitável por qualquer religião séria do planeta.
Acho que posso ilustrar melhor o caráter de tio Rudy se contar que, já aos quatorze anos, ele mostrava maior inclinação para o espírito da Letra do que para a Letra propriamente dita, como quando foi convidado pelo Pastor a discorrer sobre uma passagem evangélica de sua livre escolha, pondo-se então a falar com tão poética retórica das relações entre Jesus e Marta – uma bem lírica descrição daquelas massagens com óleos – que ninguém duvidaria se a qualquer momento ele dissesse também que fôra garçom na Santa Ceia, tal a riqueza de detalhes que inventava. O espanto era tanto que o Reverendo revirava os olhos ao Céu e se abanava, imitado por todos os presentes ao culto doméstico, exceto Seo Rodolfo e Dona Fortunata – os escandalizados genitores daquela indigna ovelha mutante, cujos olhares praticavam um dos esportes favoritos da família Zimmermann: esgrima telepática.
-- Mulher, eis o teu filho!... – espetava o alemãozão.
-- Toma que o filho é teu! – devolvia a velhota.
Calvino, Fritz e Loló (os irmãos mais velhos de Rodolfinho) não podiam ajudar grande coisa na formação do caçula. O primeiro era um bom sujeito, porém só pensava em dinheiro; o Fritz, que era ferreiro, quando largava o malho, a bigorna e o forno infernal no fim do dia precisava de um esporte radical para recompor os músculos e os nervos, de modo que caçava perdizes ou jogava um carteado de nome vada, mais violento em apostas do que o pôquer; Leônidas, o Loló, dotado de fertilíssima imaginação, dedicava-se a pensar o mundo de um ponto de vista patafísico, sendo portanto um filósofo – embora, incompreendido, tenha adquirido fama de maluco e mentiroso, chegando a ser hospedado compulsoriamente por uns tempos no manicômio, para acalmar a ideia e reduzir um pouquinho a sua criatividade.
Das irmãs de Rudy, tia Cornélia era a mais sensata. Casada com Willy Gorski, polaco da melhor estirpe adventista, se não estavam trabalhando estavam brincando nos Campos do Senhor, isto é, cantando hinos ou criando filhos. Pois nem eles conseguiram influenciar o Ovelha, ao menos não o bastante para interessá-lo também por algum trabalho (posto que para fazer música e nenês ele não carecia de estímulo ou conselhos). O certo é que tio Rudy não tomava conhecimento de nada além de violinos e donzelas.
Foi quando se estabeleceu na cidade um estrangeiro, Mr. Paul Nixon, que adquirira lá um vasto latifúndio. Logo se tornaram bem relacionadas as famílias Nixon e Zimmermann, particularmente Mrs. Nixon e D. Izabel, ambas católicas e carolíssimas, padriqueiras ao máximo, unha e carne com o Cônego Sizenando, membros da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, do Manto de Nossa Senhora, do Cajado de Moisés, da Santíssima Trindade, do Creio Em Deus Padre, do diabo a quatro, além de promoverem quermesses juninas e romarias à Gruta da Barreira, sem contar que se revezavam na presidência do Asilo São Vicente de Paulo.
Para a facção adventista, o único defeito dos Nixon – tirando as diferenças religiosas – era terem uma filha que, além de muito jovem, era muito boa e muito dada. Isso mostra até que ponto são relativos o Defeito e a Virtude, posto que as graças de Miss Lizzy Nixon continham a semente do seu avesso, a desgraça.
Penso que essa miscigenação de adventistas e católicos na família pode ajudar-nos a esclarecer que tio Rudy, espremido entre protestantes e protestados, tenha levado à exacerbação os seus imanentes pendores ao pecado da luxúria, perdido que ficou no meio de uma guerra rolando acima e além de sua natureza irresponsável. Para antecipar o quase óbvio, contarei logo que tio Rodolfinho conheceu a quintessência da cultura inglesa, esmerando-se ao ponto de atingir sua maestria nas serenatas feitas sob a janela de Miss Lizzy (de resto muito mais baixa, a janela, do que os cinco metros costumeiros da corda que usava em suas apresentações circenses).
Nessa altura, Míster Pau (que é como se pronuncia esse nome em idioma caipira) começou a nos consolar com o fato de que Deus dá o frio conforme o cobertor e escreve certo por linhas tortas, vale dizer: se vocês não derem um jeito de amarrar o bimbo furioso dessa sua ovelha negra, as coisas podem acabar mais pretas do que o bicho.  Chiii...
Vovó Nanata, que não deixava barato quando o caso era de defender a honra da família, deu de reclamar que as moças de hoje em dia estão ficando cada vez mais lambisgóias, uma indecência; do jeito que as coisas iam, Itararé acabava virando uma Nova Gomorra, que Deus nos livre e guarde.
Na medida em que se armava o temporal, o bate-perna entre as casas das comadres parecia um carreiro de formigas que pressentem aguaceiro – nuvens escuras, alerta geral, conferências políticas nos clãs... E muita, muuuita reza: rosários, terços e novenas. Faltaram velas na cidade para tantas promessas à Virgem Maria – a santa que pareceu mais adequada àquelas circunstâncias. Nunca se abusou tanto do Seu santo nome – felizmente não em vão, já que Deus, pressionado pelas doses maciças de cultos e missas, não quis permitir que as coisas chegassem ao apocalíptico advento de uma ovelhinha anglo-brasileira. Aleluia! Amém!
Só que Ele começou a desconfiar que poderia haver grande inconveniente para Itararé caso tio Rudy pretendesse chegar até a velhice, salvo sendo devidamente controlado até que o futuro da família providenciasse algum adepto da Umbanda, pois era caso mais pra Pombo-Gira do que para o Espírito Santo. Sem falar que – sabia Ele em Sua onisciência – também alguns lobos em pele de cordeiro estavam previstos para aqueles lares, de modo que era melhor regular desde logo a estabilidade ecológica do rebanho doméstico.
Uma batalha himenêutica vinha em nuvens pretas do horizonte. Todo mundo sabia (ou achava que sabia), mas a verdade verdadeira é que nunca se conseguiu um flagrante das tais coisas, por mais que vigiassem cada passo dos jovens artistas ou espalhassem espiões atrás do coreto e pelas esquinas principais. Tornou-se hábito que os pais de donzelas e até alguns maridos ressabiados saíssem tomar a fresca quando ouviam sons de seresta, mesmo ao longe, pois podiam estar fazendo isso só para despistar assaltos aos seus próprios alpendres.
Lizzy & Rudy, contudo (a quem não faltava, entre outros, o talento de que precisavam para ensaiar duetos silenciosos), parece que não estavam nem aí: continuavam a frequentar as melhores salas-de-visitas, sempre recebidos com carinho proporcional à sua simpatia.
É fácil imaginar as religiosas de sábado ou domingo rezando, com Bíblia ou Terço nas mãos – umas para aquilo ser tudo mentira, outras para nada daquilo ser verdade. Ocorre que ao imaterial das preces se opunha uma realidade bem concreta: Miss Lizzy não se esforçava minimamente para entender que um hímen tinha alguma utilidade; pelo contrário, só atrapalhava. Quando uma colega contou-lhe que tinha sido proibida de andar com ela porque era uma gringa lambisgóia, resolveu investigar o significado exato daquela palavra. Foi consultar fontes sábias, porém o máximo de informação que conseguiu foram conselhos de nunca usar aquele termo, incompatível à boca de uma moça “de família”. Pois bem: tratava-se de um palavrão secreto e proibido para donzelas solteiras, portanto de uso reservado aos coroas, de modo que (no raciocínio lógico de qualquer jovem), se os velhos usavam porém proibiam, só podia ser coisa boa, ainda mais vindo de uma megera como a mãe daquela sua amiga. Além disso, lambisgóia devia ter algo a ver com lamber; vocês conhecem alguma coisa lambível, tirando selo de carta, que não seja gostoso? Nem ela.
Dura também, porém inconteste, outra concretude é que tio Rodolfinho estava cada vez mais firme com seu arco e continuava gastando mais do seu tempo nos quartos do que em qualquer outro cômodo, evidentemente por sentir-se mais confortável ali – ainda que os aflitos não sentissem conforto algum em ter sobre suas cabeças um monte de nuvens que ameaçavam mas nunca choviam, como se aquilo fosse um conto sinistro de Edgar Allan Poe. Nesse chove-não-molha, quando alguém cometeu a imprudência de pronunciar a palavra casamento (que existe até em dicionário de sânscrito), todo mundo correu abrir um guarda-chuva:
-- Agora vem!
Mas não veio. Ou melhor: não veio porque veio, isto é, o único sangue finalmente derramado foi o de Miss Lizzy – que pela primeira vez nem sentiu cólicas. Para assegurar a chegada da bonança, tio Rudy teve a bondade de despencar da corda-bamba no circo seguinte, destroncando pé e mão.
Ufa! Para seu maior azar (e sorte das duas famílias), ambas as contusões foram do lado direito, o que o impediria até de usar muletas. Bendito acidente: não só deixou-o temporariamente impossibilitado de usar seu arco – e ele achava totalmente obsceno tocar com a mão esquerda – como incapacitado de frequentar lugares mais elevados que salas-de-visitas, já que seu potencial atlético ficara reduzido de 5 metros para 5 centímetros.  Aproveitando a ocasião fortuita, Vovó Nanata botou o peste na ceva: estava magro que-nem bacalhau de porta de venda, e com um bronzeado lunar cuja cor me foi descrita como algo entre verde-abacate e branco-defunto.
Em breve fortalecido por toneladas de agrião e cevada, e tendo como sobremesa outras toneladas de pé-de-moleque trazidas por tia Cornélia, Rudy achou por bem reformular as prescrições médicas para o seu caso clínico, decidindo que já estava suficientemente aprumado para antecipar sua volta às ribaltas.
Para tanto convocou dois companheiros de farra e estabeleceu como estratégia que a canícula do meio-dia, de fritar os miolos naquele mês de fevereiro, seria o horário ideal para voltar à prática do seu esporte favorito. Se fosse apenas uma questão de privacidade, a coisa até seria fácil, porque as ruas estavam desertas, não se via nem cachorro magro. Duro foi carregar o moço estropiado e fazê-lo escalar terraço acima. Pior ainda foi carregar o moço de volta até a charrete, que tinham deixado na esquina, quando ele despencou ao dar de cara com Mrs. Nixon no quarto da moça. Foi um buchicho e uma costela fraturada.
Felizmente ninguém ficou sabendo – Mrs. Nixon só confidenciou o incidente a D. Izabel, que não teria coragem de esconder uma coisa tão grave do Fritz, que foi se aconselhar com a sensatez de tia Cornélia, que informou Vovó Nanata, que passou chave no quarto do Ovelha e criou uma escala de sentinelas para o lado de fora da janela. Dizendo de outra forma, tio Rodolfinho ficou confinado, só podendo sair do quarto para ir ao banheiro (e naquela época as “casinhas” não tinham vitrô, eram inescapáveis).
O tempo que levou para curar seus ossos permitiu à pacata Itararé reviver antigos momentos de paz e tranquilidade. Nem foi tanto tempo assim, talvez uns seis meses; bastantes, porém, para que sua ex-donzela arranjasse um novo namorado – apostólico romano, mais casável que Rudy, e bem mais interessado em bois do que em música, por isso indiferente ao fato de faltarem uma ou duas cordas no violino de Miss Lizzy.
Já recuperado, tio Rodolfinho era o mais contente na cerimônia e na festa do casamento, o que prova que ele não era ciumento nem possessivo – seu amor pelas mulheres era coletivo, praticamente institucional. Era apresentado aos convidados de fora como afilhado dos Nixon, o melhor amiguinho de Lizzy, criados juntos, quase irmãos, coisa e tal... Rapaz bom tava ali. Só não pôde aceitar o convite para ser padrinho da moça porque não houve Deus no céu nem Diabo na terra que convencesse Vovó Nanata a engolir tamanho disparate: esticou bem as orelhas de seu Ovelhinha e exigiu decoro na Bacia das Almas.
-- Vai ser padrinho coisa nenhuma, seu cafajeste! Cê trate de se comportar ou eu ponho você interno no Colégio Adventista. Não me abuse, seu moleque!
*    *    *    *
Costela-de-minguinho no fogo de chão, perdizes e codornas fritas na manteiga, leitão pururuca e frango assado em forno de barro, linguiça feita em casa ontem, pacu recheado com a farofa de Nhá Chica (patrimônio sibarítico dos Zimmermann), churrasco de picanha, capivara, paca, tatu (cotia não, que é difícil de caçar pr’aquelas bandas no verão), e uma feijoada mais pra casa grande que pra senzala, com todos os paios e chouriços e petrechos para todos os gostos, apetites antes aguçados por patês afrodisíacos e muito lambarizinho pescado e frito na hora, mais florestas de verduras e vermelhuras, arroz assim ou assado, molhos e pimentas, chucrutes terríveis para acompanhar o joelho de porco, completando a fauna com meia dúzia de perus dignos do Dia de Ação de Graças, tudo isso bem regado a uísque Cavalo Branco, schnaps de pera ou de maçã, caninha de dez anos do alambique do Holzslauer, e daí nada melhor para acomodar tudo no bucho e auxiliar uma boa digestão do que a geleia de mocotó ou os figos cristalizados pelas mãos mágicas da Lolota, os quindins e papos-de-anjo da Alicinha, as bombas de creme do Seo Benedito, sem falar, é claro, em todas as frutas da época.
Tanto pelos que ainda tinham disposição para dançar, como pelos que só queriam achar um bom lugar de se escarrapachar numa sesta, o resto da tarde foi dedicado a limpar a garganta das almas com uma agüinha mineral “Mister Pau” entre um café de café e um licorzinho de jabuticaba capaz de levar qualquer rastafári às lágrimas no primeiro gole.
Nesse dia, para bem de todos e felicidade geral da família itarareense, nosso Rodolfinho foi a festa, mostrando tanta animação com seus dotes de bailista e conversador, tão esfuziante no seu entusiasmo, que acabou sendo o último a ir embora – depois até do noivo, que pegara uma carona no saco do sogro (agora de papel passado e comunhão de bens) para ir conhecer uns boizinhos recém-nascidos. Dizem que essa foi a melhor das despedidas de solteiro que tio Rodolfinho patrocinou.
O mundo era bom outra vez, véio e sem portêra, com céu azul e nuvenzinhas brancas. Era – o tempo do verbo está correto, e louvado seja São José, que se tornou o padroeiro consolador dos maridos liberais ao ceder seus direitos de primícia a Elohim. Era; mas podia não continuar assim por muito tempo – ou alguém imagina que o Ovelha jamais teve uma remota noção do pé-de-guerra em que pusera a cidade? Aquilo (como Vovó Nanata se referia a ele) tinha fogo no rabo, sempre pronto a continuar, lépido e fagueiro, pimpão e saltitante. Já estaria no dia seguinte afinando uma rabeca nova se não fosse o feliz acaso de tio Loló, nosso filósofo patafísico, ter inventado de comprar um escafandro. Mas essa é uma outra história que fica para uma outra vez.


Nenhum comentário: