A cidade de Itararé ficou famosa quando, na
Revolução Constitucionalista de 1932, tropas paulistas e getulistas se defrontaram
às margens do rio homônimo. Essa fama aumentou quando os livros contaram que a
conhecida Batalha de Itararé não aconteceu. Quero esclarecer que aconteceu,
sim, pois gosto de contar as histórias como na História foram.
Bem... aconteceu mas não houve, isto é, de fato
ocorreram episódios propriamente bélicos mas as duas tropas beligerantes se
colocaram em posições muito estratégicas. Realmente tão estratégicas que seus
tiros jamais poderiam atingir os adversários do outro lado do rio, a menos que
as leis da Física fossem alteradas e as balas passassem a fazer curvas
espantosas. Porém teve tiroteio e canhonaço, meu avô me contou, ainda que só
para malefício de árvores e peixes.
E guerra é guerra, uai! – mesmo que o ferimento
mais contundente tenha sido causado por um espinho fincado fundo no traseiro de
um tenente que estava pescando bagres no riacho do Funil, os itarareenses podemos
afirmar com certo orgulho que nunca aconteceu, em outra época ou lugar, uma
batalha mais travada do que essa, e talvez por isso mesmo a mais bela de todas.
Pena que a História exija mais do que empates técnicos ou bundas machucadas
para levar os fatos ao respeito da posteridade.
Talvez seja melhor contar que Deus parecia
firmemente decidido a poupar Itararé dos horrores necessários a fazê-la figurar
nos anais através de guerras sangrentas, pois a História também deixou de
registrar uma outra batalha – anterior e muito mais interessante – que também não
houve. Se bem que essa foi por um triz, como lhes contarei com todos os
seus escabrosos detalhes.
Deu-se por volta de 1920, nela tomando parte os
contemporâneos do meu tio-avô Rodolfinho, emérito violinista e amante das
mulheres, às quais dedicou sua música e sua paixão com liberdade, igualdade e
(em certos casos) até mesmo fraternidade.
Descendente de respeitáveis famílias do lugar –
adventistas de exemplar conduta e católicos de reputação ilibada, incluindo
vários pastores e até um sacristão –, consta que tio Rodolfinho tinha apenas
dois defeitos, de resto veniais: um descontrolado fascínio pelos perfumes da
noite e uma insaciável atração pelas fêmeas da espécie.
Contam os pósteros que não só era muito bom com sua
rabeca como, em qualquer circo que ali armasse lona, capaz de executar bonitas
valsas enquanto atravessava um arame esticado a cinco metros do chão. Isso numa
época em que seria considerado ridículo usar rede protetora, mas ele nem
tchum, divertia-se às pampas com aquilo, mantendo sempre uma alta performance. Morreria moço, é
verdade, porém também é verdade que não se apresentaria ao Juízo sem antes
atingir notável proficiência com a rabeca. E com seu arco.
Para quem consegue tocar polcas num arame, pular
muros e janelas é coisa banal: pá buf. Banal e útil para quem,
como tio Rudy, cresceria privado de qualquer critério a respeito de uma
membrana que as mulheres usavam antigamente, e que devia ser levada intacta ao
leito nupcial: o hímen.
É de supor que meu avô Fritz, irmão mais velho de
Rudy, tenha tentado ensinar-lhe os rudimentos desse tema sócio-morfológico,
embora tudo indique um aproveitamento bem precário das lições, talvez porque
viesse passando alguma morenaça rebolando exatamente no pedacinho da aula em
que se falava sobre a virgindade; sendo ambos sensíveis a um bom lordo, o
mestre pode ter ficado mudo, ou mouco o discípulo.
Outra coisa que também dever ter feito mais difícil
o aprendizado era seu total desinteresse por anatomia interna, senão Deus teria
dotado a gente de pele transparente, coisa horrorosa, a ele pois só
interessando as coisas externas, explícitas e palpáveis como um todo – por
exemplo, uma Mulier sapiens inteirinha.
Os fatos mostrariam que os princípios de tio
Rodolfinho baseavam-se numa moral singela: dividir as mulheres em categorias
básicas – mais gostosas e menos gostosas – e depois comê-las todas. Se não
atingiu seus bons propósitos foi por insuficiência de tempo, não por desídia,
já que quando não o fazia por desejo fazia-o por amor à arte, dedicando igual
empenho e apetite às duas categorias – aliás, as únicas que lhe interessavam
dentre todas as possíveis divisões da humanidade. Quanto aos hímens, dava-lhes
o mesmo entendimento que se dá hoje ao selinho Zero Km no pára-brisa dos
carros: não se deve esforçar demais o motor antes da segunda revisão.
Não me foi possível, por ter nascido após sua
morte, obter um perfil nítido desse meu tio-avô artista (ou arteiro, sei lá).
Conforme fui conhecendo, ao longo dos anos, os causos de sua curta biografia –
sempre tratada em voz baixa nas conversas de inverno ao pé do fogão de lenha,
todas com mais reticências do que palavras. Comecei a perceber que, quando
levados a recordá-lo, uma certa melancolia, uma tristeza contida tomava conta
dos adultos envolvidos naqueles episódios. Até os rudes imigrantes alemães e as
enérgicas matronas polonesas que deram raízes brasileiras à nossa família
ficavam silenciosos e de olhar perdido ao lembrar “nossa ovelhinha
desgarrada, tão cedo chamada ao seio do Senhor” – pródigo filho, irmão,
sobrinho, primo, amante, centroavante da primeira boemia itarareense, cujo
carinho ninguém sabia rejeitar, cuja saudade não conseguiam disfarçar ser
aquela que se tem do mais querido – apesar de tudo ou, quem sabe, por causa
disso mesmo. Depois dele, deixamos de ser alemães e polacos; tornamo-nos
caipiras (modéstia à parte).
Todos os relatos coincidem sobre o feitiço e a
graça permanentes que tornavam tio Rodolfinho capaz de impedir o mais severo
sermonista de chegar até a moral da história sem abrir ao menos um sorriso, por
desenxabido que fosse. Daí se deduz que os dias do Ovelha só variavam
entre ótimos e excelentes talvez se explicando assim a pobreza quase
franciscana de seus conhecimentos bíblicos, tão importantes para os Zimmermann
daquele tempo. Nunca tendo nada a pedir, suas orações eram honestamente
completas com duas palavras:
-- Obrigado, Deusão!
Nem de amém ele precisava. Na verdade, em verdade
vos digo que ele nunca passeou muito longe do seu livro preferido, o Cântico
dos Cânticos, nem chegou a dar aos evangelhos uma leitura convencional o
bastante para fazer-se um exegeta aceitável por qualquer religião séria do
planeta.
Acho que posso ilustrar melhor o caráter de tio
Rudy se contar que, já aos quatorze anos, ele mostrava maior inclinação para o
espírito da Letra do que para a Letra propriamente dita, como quando foi convidado
pelo Pastor a discorrer sobre uma passagem evangélica de sua livre escolha,
pondo-se então a falar com tão poética retórica das relações entre Jesus e
Marta – uma bem lírica descrição daquelas massagens com óleos – que ninguém
duvidaria se a qualquer momento ele dissesse também que fôra garçom na Santa
Ceia, tal a riqueza de detalhes que inventava. O espanto era tanto que o
Reverendo revirava os olhos ao Céu e se abanava, imitado por todos os presentes
ao culto doméstico, exceto Seo Rodolfo e Dona Fortunata – os escandalizados
genitores daquela indigna ovelha mutante, cujos olhares praticavam um dos
esportes favoritos da família Zimmermann: esgrima telepática.
-- Mulher, eis o teu filho!... – espetava o
alemãozão.
-- Toma que o filho é teu! – devolvia a
velhota.
Calvino, Fritz e Loló (os irmãos mais velhos de
Rodolfinho) não podiam ajudar grande coisa na formação do caçula. O primeiro
era um bom sujeito, porém só pensava em dinheiro; o Fritz, que era ferreiro,
quando largava o malho, a bigorna e o forno infernal no fim do dia precisava de
um esporte radical para recompor os músculos e os nervos, de modo que caçava
perdizes ou jogava um carteado de nome vada, mais violento em apostas do
que o pôquer; Leônidas, o Loló, dotado de fertilíssima imaginação, dedicava-se
a pensar o mundo de um ponto de vista patafísico, sendo portanto um filósofo –
embora, incompreendido, tenha adquirido fama de maluco e mentiroso, chegando a
ser hospedado compulsoriamente por uns tempos no manicômio, para acalmar a
ideia e reduzir um pouquinho a sua criatividade.
Das irmãs de Rudy, tia Cornélia era a mais sensata.
Casada com Willy Gorski, polaco da melhor estirpe adventista, se não estavam
trabalhando estavam brincando nos Campos do Senhor, isto é, cantando hinos ou criando
filhos. Pois nem eles conseguiram influenciar o Ovelha, ao menos não o bastante
para interessá-lo também por algum trabalho (posto que para fazer música e
nenês ele não carecia de estímulo ou conselhos). O certo é que tio Rudy não tomava
conhecimento de nada além de violinos e donzelas.
Foi quando se estabeleceu na cidade um estrangeiro,
Mr. Paul Nixon, que adquirira lá um vasto latifúndio. Logo se
tornaram bem relacionadas as famílias Nixon e Zimmermann, particularmente Mrs. Nixon
e D. Izabel, ambas católicas e carolíssimas, padriqueiras ao máximo, unha e
carne com o Cônego Sizenando, membros da Congregação do Sagrado Coração de
Jesus, do Manto de Nossa Senhora, do Cajado de Moisés, da Santíssima Trindade,
do Creio Em Deus Padre, do diabo a quatro, além de promoverem quermesses
juninas e romarias à Gruta da Barreira, sem contar que se revezavam na
presidência do Asilo São Vicente de Paulo.
Para a facção adventista, o único defeito dos Nixon
– tirando as diferenças religiosas – era terem uma filha que, além de muito
jovem, era muito boa e muito dada. Isso mostra até que ponto são relativos o
Defeito e a Virtude, posto que as graças de Miss Lizzy Nixon continham a
semente do seu avesso, a desgraça.
Penso que essa miscigenação de adventistas e
católicos na família pode ajudar-nos a esclarecer que tio Rudy, espremido entre
protestantes e protestados, tenha levado à exacerbação os seus imanentes
pendores ao pecado da luxúria, perdido que ficou no meio de uma guerra rolando
acima e além de sua natureza irresponsável. Para antecipar o quase óbvio,
contarei logo que tio Rodolfinho conheceu a quintessência da cultura inglesa,
esmerando-se ao ponto de atingir sua maestria nas serenatas feitas sob a janela
de Miss Lizzy (de resto muito mais baixa, a janela, do que os cinco metros
costumeiros da corda que usava em suas apresentações circenses).
Nessa altura, Míster Pau (que é como se pronuncia
esse nome em idioma caipira) começou a nos consolar com o fato de que Deus dá o
frio conforme o cobertor e escreve certo por linhas tortas, vale dizer: se
vocês não derem um jeito de amarrar o bimbo furioso dessa sua ovelha negra, as
coisas podem acabar mais pretas do que o bicho. Chiii...
Vovó Nanata, que não deixava barato quando o caso
era de defender a honra da família, deu de reclamar que as moças de hoje em
dia estão ficando cada vez mais lambisgóias, uma indecência; do jeito que as
coisas iam, Itararé acabava virando uma Nova Gomorra, que Deus nos livre e
guarde.
Na medida em que se armava o temporal, o bate-perna
entre as casas das comadres parecia um carreiro de formigas que pressentem
aguaceiro – nuvens escuras, alerta geral, conferências políticas nos clãs... E
muita, muuuita reza: rosários, terços e novenas. Faltaram velas na cidade para
tantas promessas à Virgem Maria – a santa que pareceu mais adequada àquelas
circunstâncias. Nunca se abusou tanto do Seu santo nome – felizmente não em
vão, já que Deus, pressionado pelas doses maciças de cultos e missas, não quis
permitir que as coisas chegassem ao apocalíptico advento de uma ovelhinha
anglo-brasileira. Aleluia! Amém!
Só que Ele começou a desconfiar que poderia haver
grande inconveniente para Itararé caso tio Rudy pretendesse chegar até a
velhice, salvo sendo devidamente controlado até que o futuro da família
providenciasse algum adepto da Umbanda, pois era caso mais pra Pombo-Gira do
que para o Espírito Santo. Sem falar que – sabia Ele em Sua onisciência –
também alguns lobos em pele de cordeiro estavam previstos para aqueles lares,
de modo que era melhor regular desde logo a estabilidade ecológica do rebanho
doméstico.
Uma batalha himenêutica vinha em nuvens pretas do
horizonte. Todo mundo sabia (ou achava que sabia), mas a verdade verdadeira é
que nunca se conseguiu um flagrante das tais coisas, por mais que
vigiassem cada passo dos jovens artistas ou espalhassem espiões atrás do coreto
e pelas esquinas principais. Tornou-se hábito que os pais de donzelas e até
alguns maridos ressabiados saíssem tomar a fresca quando ouviam sons de
seresta, mesmo ao longe, pois podiam estar fazendo isso só para despistar
assaltos aos seus próprios alpendres.
Lizzy & Rudy, contudo (a quem não faltava,
entre outros, o talento de que precisavam para ensaiar duetos silenciosos),
parece que não estavam nem aí: continuavam a frequentar as melhores
salas-de-visitas, sempre recebidos com carinho proporcional à sua simpatia.
É fácil imaginar as religiosas de sábado ou domingo
rezando, com Bíblia ou Terço nas mãos – umas para aquilo ser tudo mentira,
outras para nada daquilo ser verdade. Ocorre que ao imaterial das preces se
opunha uma realidade bem concreta: Miss Lizzy não se esforçava minimamente para
entender que um hímen tinha alguma utilidade; pelo contrário, só atrapalhava.
Quando uma colega contou-lhe que tinha sido proibida de andar com ela porque
era uma gringa lambisgóia, resolveu investigar o significado exato daquela
palavra. Foi consultar fontes sábias, porém o máximo de informação que
conseguiu foram conselhos de nunca usar aquele termo, incompatível à boca de
uma moça “de família”. Pois bem: tratava-se de um palavrão secreto e proibido para
donzelas solteiras, portanto de uso reservado aos coroas, de modo que (no
raciocínio lógico de qualquer jovem), se os velhos usavam porém proibiam, só
podia ser coisa boa, ainda mais vindo de uma megera como a mãe daquela sua
amiga. Além disso, lambisgóia devia ter algo a ver com lamber; vocês conhecem alguma coisa lambível,
tirando selo de carta, que não seja gostoso? Nem ela.
Dura também, porém inconteste, outra concretude é
que tio Rodolfinho estava cada vez mais firme com seu arco e continuava
gastando mais do seu tempo nos quartos do que em qualquer outro cômodo,
evidentemente por sentir-se mais confortável ali – ainda que os aflitos não
sentissem conforto algum em ter sobre suas cabeças um monte de nuvens que
ameaçavam mas nunca choviam, como se aquilo fosse um conto sinistro de Edgar
Allan Poe. Nesse chove-não-molha, quando alguém cometeu a imprudência de
pronunciar a palavra casamento (que existe até em dicionário de
sânscrito), todo mundo correu abrir um guarda-chuva:
-- Agora vem!
Mas não veio. Ou melhor: não veio porque
veio, isto é, o único sangue finalmente derramado foi o de Miss Lizzy – que
pela primeira vez nem sentiu cólicas. Para assegurar a chegada da bonança, tio
Rudy teve a bondade de despencar da corda-bamba no circo seguinte, destroncando
pé e mão.
Ufa! Para seu maior azar (e sorte das duas
famílias), ambas as contusões foram do lado direito, o que o impediria até de
usar muletas. Bendito acidente: não só deixou-o temporariamente impossibilitado
de usar seu arco – e ele achava totalmente obsceno tocar com a mão esquerda –
como incapacitado de frequentar lugares mais elevados que salas-de-visitas, já
que seu potencial atlético ficara reduzido de 5 metros para 5 centímetros. Aproveitando a ocasião fortuita, Vovó Nanata
botou o peste na ceva: estava magro que-nem bacalhau de porta de venda, e com
um bronzeado lunar cuja cor me foi descrita como algo entre verde-abacate e
branco-defunto.
Em breve fortalecido por toneladas de agrião e
cevada, e tendo como sobremesa outras toneladas de pé-de-moleque trazidas por
tia Cornélia, Rudy achou por bem reformular as prescrições médicas para o seu
caso clínico, decidindo que já estava suficientemente aprumado para antecipar
sua volta às ribaltas.
Para tanto convocou dois companheiros de farra e
estabeleceu como estratégia que a canícula do meio-dia, de fritar os miolos
naquele mês de fevereiro, seria o horário ideal para voltar à prática do seu
esporte favorito. Se fosse apenas uma questão de privacidade, a coisa até seria
fácil, porque as ruas estavam desertas, não se via nem cachorro magro. Duro foi
carregar o moço estropiado e fazê-lo escalar terraço acima. Pior ainda foi
carregar o moço de volta até a charrete, que tinham deixado na esquina, quando
ele despencou ao dar de cara com Mrs. Nixon no quarto da moça. Foi um buchicho
e uma costela fraturada.
Felizmente ninguém ficou sabendo – Mrs. Nixon só
confidenciou o incidente a D. Izabel, que não teria coragem de esconder uma
coisa tão grave do Fritz, que foi se aconselhar com a sensatez de tia Cornélia,
que informou Vovó Nanata, que passou chave no quarto do Ovelha e criou uma
escala de sentinelas para o lado de fora da janela. Dizendo de outra forma, tio
Rodolfinho ficou confinado, só podendo sair do quarto para ir ao banheiro (e
naquela época as “casinhas” não tinham vitrô, eram inescapáveis).
O tempo que levou para curar seus ossos permitiu à
pacata Itararé reviver antigos momentos de paz e tranquilidade. Nem foi tanto
tempo assim, talvez uns seis meses; bastantes, porém, para que sua ex-donzela
arranjasse um novo namorado – apostólico romano, mais casável que Rudy, e bem
mais interessado em bois do que em música, por isso indiferente ao fato de
faltarem uma ou duas cordas no violino de Miss Lizzy.
Já recuperado, tio Rodolfinho era o mais contente
na cerimônia e na festa do casamento, o que prova que ele não era ciumento nem
possessivo – seu amor pelas mulheres era coletivo, praticamente institucional.
Era apresentado aos convidados de fora como afilhado dos Nixon, o melhor
amiguinho de Lizzy, criados juntos, quase irmãos, coisa e tal... Rapaz bom tava
ali. Só não pôde aceitar o convite para ser padrinho da moça porque não houve
Deus no céu nem Diabo na terra que convencesse Vovó Nanata a engolir tamanho
disparate: esticou bem as orelhas de seu Ovelhinha e exigiu decoro na Bacia das
Almas.
-- Vai ser padrinho coisa nenhuma, seu cafajeste!
Cê trate de se comportar ou eu ponho você interno no Colégio Adventista. Não me
abuse, seu moleque!
* *
* *
Costela-de-minguinho no fogo de chão, perdizes e
codornas fritas na manteiga, leitão pururuca e frango assado em forno de barro,
linguiça feita em casa ontem, pacu recheado com a farofa de Nhá Chica
(patrimônio sibarítico dos Zimmermann), churrasco de picanha, capivara, paca,
tatu (cotia não, que é difícil de caçar pr’aquelas bandas no verão), e uma
feijoada mais pra casa grande que pra senzala, com todos os paios
e chouriços e petrechos para todos os gostos, apetites antes aguçados por patês
afrodisíacos e muito lambarizinho pescado e frito na hora, mais florestas de
verduras e vermelhuras, arroz assim ou assado, molhos e pimentas, chucrutes
terríveis para acompanhar o joelho de porco, completando a fauna com meia dúzia
de perus dignos do Dia de Ação de Graças, tudo isso bem regado a uísque Cavalo
Branco, schnaps de pera ou de maçã, caninha de dez anos do alambique do
Holzslauer, e daí nada melhor para acomodar tudo no bucho e auxiliar uma boa
digestão do que a geleia de mocotó ou os figos cristalizados pelas mãos mágicas
da Lolota, os quindins e papos-de-anjo da Alicinha, as bombas de creme do Seo
Benedito, sem falar, é claro, em todas as frutas da época.
Tanto pelos que ainda tinham disposição para
dançar, como pelos que só queriam achar um bom lugar de se escarrapachar numa
sesta, o resto da tarde foi dedicado a limpar a garganta das almas com uma
agüinha mineral “Mister Pau” entre um
café de café e um licorzinho de jabuticaba capaz de levar qualquer rastafári às
lágrimas no primeiro gole.
Nesse dia, para bem de todos e felicidade geral da
família itarareense, nosso Rodolfinho foi a festa, mostrando tanta
animação com seus dotes de bailista e conversador, tão esfuziante no seu
entusiasmo, que acabou sendo o último a ir embora – depois até do noivo, que
pegara uma carona no saco do sogro (agora de papel passado e comunhão de bens)
para ir conhecer uns boizinhos recém-nascidos. Dizem que essa foi a melhor das
despedidas de solteiro que tio Rodolfinho patrocinou.
O mundo era bom outra vez, véio e sem portêra, com
céu azul e nuvenzinhas brancas. Era – o tempo do verbo está correto, e louvado seja
São José, que se tornou o padroeiro consolador dos maridos liberais ao ceder
seus direitos de primícia a Elohim. Era; mas podia não continuar assim
por muito tempo – ou alguém imagina que o Ovelha jamais teve uma remota noção do
pé-de-guerra em que pusera a cidade? Aquilo (como Vovó Nanata se referia
a ele) tinha fogo no rabo, sempre pronto a continuar, lépido e fagueiro, pimpão
e saltitante. Já estaria no dia seguinte afinando uma rabeca nova se não fosse
o feliz acaso de tio Loló, nosso filósofo patafísico, ter inventado de comprar
um escafandro. Mas essa é uma outra história que fica para uma outra vez.
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