Agora vou falar de
lingüiça pura.
Vocês já tentaram
imaginar um cachorro amarrado com lingüiça e que permaneça cinco minutos
amarrado? Isso aconteceu, mas preciso contar desde o começo, pois quando
relatei o causo do meu encontro com um lobisomem avisei que outras coisas
incríveis se deram em Itararé, minha terra natal.
Em 13 de abril de 1946,
aquela simpática cidadezinha sediava a convenção das bruxas, evento semanal
mais conhecido como sabbath. Quando cai num sábado, a festança das feiticeiras
é de arromba mesmo, e foi nesse clima de festa que meu pai encontrou a cidade
quando desembarcou do trem da Estrada de Ferro Sorocabana para ir conhecer de
perto seu primeiro filho, euzinho, enquanto mamãe fumava todos os cigarros que
não pudera nos últimos nove meses.
Vovô sabia que seu
genro, meu pai, apreciava muito uma certa lingüiça pura, de carne de porco, que
era feita no capricho pelo Nico Carneiro. Para agradá-lo e comemorar o
nascimento de seu primeiro neto, cismou que comeriam a tal linguiça no almoço,
então mandou meu tio Reynaldo comprar.
Foi. E voltou com as
mãos abanando:
Tio
Reynaldo – Hoje não tem.
Vovô – Como
“não tem” se há vinte anos o Nico faz essa linguiça toda sexta-feira pra vender
no sábado?
Tio Reynaldo – E
fez, mas hoje de manhã, quando conseguiu abrir o açougue, tinham sumido todas.
Vovô – O que quer dizer
“conseguiu abrir”? Perdeu a chave?
Tio Reynaldo – Não sei,
não perguntei. Disse que foi um custo pra entrar.
Vovô – Mas assaltaram o
açougue?!!!
Tio Reynaldo – Acho que
não. Disse que ninguém entrou nem saiu de lá. E só sumiram as linguiças de
porco. Contou que também sumiram as linguiças do açougue do Honorato Gaia.
Vovô – Um ladrão de
lingüiças?! Só faltava essa em Itararé...
Bem, linguiças não
voam... Mas se elas estavam lá quando o Nico fechou o Açougue Ideal na noite
anterior; se ninguém poderia ter acesso a elas senão o proprietário, pois a
única chave dormira com ele; se não perdera a chave; se o Nico não daria sumiço
nas suas próprias linguiças; e se não era invenção do Reynaldo, como é que elas
não estavam mais lá? Sumiram? Assim, sem mais nem menos? Puf?!
Tem mais: o açougue
ficava bem defronte ao sobrado dos Romanoff, que tem uma escadaria lateral, que
tem um vão embaixo, que tem um baita cachorro que mora ali: o Tigrão – um
mestiço de buldogue com dinamarquês (ou da Loba Romana com o Cérbero do
Inferno, ninguém saberia explicar que diabo de combinação genética resultara
naquele bicho). Talvez Jack London ou Edgar Alan Poe soubessem descrevê-lo com
palavras; lamento não ter tanta literatura assim, então o máximo que posso
dizer é que se tratava de um canzarrão capaz de ser mais feio do que era
enorme, e muito mais bocudo que um Pitecantropo. Brabo que só vendo!
Vivia solto, embora
ninguém visse a cara do monstro durante o dia; porém à noite, ai de quem não
passasse por ali sem deixar bem claro que estava indo tirar o pai da forca. Já
fizeram uma configuração mental de tal canídeo? Pois bem: o Tigrão estava
calmamente amarrado à porta do açougue quando o Nico chegara de manhã, às sete
em ponto, para abrir seu estabelecimento comercial. E amarrado com uma
inusitada espécie de coleira, feita com uma longa tira de belas linguiças,
dormindo com a placidez de um ursinho de pelúcia. Tirando as lingüiças da
“coleira”, todas as outras tinham desaparecido, sendo que o cadeado na porta de
ferro estava fechadinho, intacto.
Meu avô Fritz saiu
ventando, não sem antes dar um coque de passagem no Reynaldo, cujos
antecedentes faziam muito possível que o caso fosse apenas mais uma de suas
patranhas. Sem pôr em dúvida as habilidades investigatórias de Vovô – que à
época exercia a função de Delegado da cidade – a verdade é que era um caso pra
Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, de modo que o mistério permaneceu por quase
meio século.
Quem finalmente o
esclareceu, com a autoridade de quem fez parte dele, foi o Zé Maria do Ponto,
taxista bem humorado, muito querido por todos, contador de miles causos
verídicos – às vezes incríveis, mas como é que ele poderia contar casos críveis
numa terrinha incrível como Itararé? Já lhes contei antes o caso do lobisomem,
totalmente patafísico, porém essa história das linguiças não deixa margem à
incredulidade, mesmo dos leitores mais céticos.
Deu-se assim: Dona
Mariquinha Veiga, diretora-artística do melhor bordel da cidade, fazia
aniversário naquela sexta-feira, 12 de abril, sendo costume estabelecido há
anos que a comunidade biscateriana (apud Zé Maria) comemorasse a data com
muitos comes e bebes, sem esquecer um presentinho para a aniversariante. Ia ser
festa da boa, imperdível para quem fazia parte daquela jovem e alegre
fraternidade sururucófila. Só que tinha uma coisa: o regulamento, apesar de
tácito, era claro – nessa efeméride nenhuma puta tinha xodó e nem um
filho-do-padre teria cara de chegar lá com as mãos vazias.
Na turma do Zé Maria
alguns estavam meio abonados e outros em situação de concordata confortável; o
único em absoluto estado falenciário era o Nérson Corvo. Nas outras posições o
time estava bem escalado:
1 – gol quíper – Lico,
que ia levar uma camisola das Casas Pernambucanas e meia dúzia de Brahma;
2 – béque direito –
Piúca: um jogo de agulhas de costura, com dedal e tudo, e dois litros de vinho
Sangue de Boi;
3 – béque esquerdo –
Eduvaldo: um par de meias de nylon, uma latona de marmelada Cica e outra de
marrom glacê, herdadas (digamos assim) do armazém do Fritz;
4 – alfo direito –
Albary: uma baita fotografia autografada de Francisco Alves e uma peça de
picanha;
5 – centeralfo – Adírso:
um diário de capa dura e três pão sovado;
6 – alfo esquerdo –
Mário: o festeiro predileto da mulherada, que entrava no rateio com as corridas
de carro-de-praça ida e volta ao puteiro; ele próprio, com fama de superdotado,
era considerado pelas moças como um presente, mas mesmo assim levaria três quilos
de lingüiça;
7 – ponta direita –
Lobinho: esse faria o maior sucesso com as figurinhas do time do Palmeiras,
queridíssimo da anfitriã, com Oberdã, Liminha, Hélio, Jair da Rosa Pinto,
Lorena, Juvenal, todas coladas na primeira página do futuro diário presenteado
pelo Albary; e de beber levava mais meia dúzia de cervejas, só que Malzbier,
preferida pelas donas.
8 – meia direita – Zé
Maria: um vidro de colônia Maderas de Oriente e mais três quilos de lingüiça;
9 – centroavante – Pinto
Lôco: uns chinelos de pelúcia quase novos (que a mãe dele encostara porque
davam coceira) e um pôster de Robert Taylor, não menos valioso por ter sido
subtraído ao Cine São José; e uma garrafa de conhaque São João da Barra;
10 – meia esquerda –
Vilinho: um espelhinho com moldura de peroba envernizada e mais três pão
sovado;
11 – ponta esquerda –
Tambiú: dois alicatinhos, de unha e cutícula; esse só mandaria os mimos pelas
mãos do Lico, pois lhe aparecera caxumba na véspera e não podia comparecer à
galhofa, senão a doença perigava descer pro saco e daí ele nunca mais cantaria
parabéns pra Mariquinha (nem pra mulher nenhuma).
O Nérson Corvo tinha
comprado fiado, na farmácia do Seo Adão, um estojinho de pó-de-arroz da Coty,
mas numerário, granney mesmo, nenhum. Mesmo sendo cliente da casa tão antigo
quanto os outros, ia passar vergonha se levasse só isso, pois era uma questão
de honra seguir todos os ítens daquilo que era um verdadeiro ritual. E sabe
quanto custa um garrafão de pinga do Holzslauer? Sabe quanto custa o quilo da
lingüiça, mesmo que fosse aquela ruinzinha do Honorato Gaia? Bem, não é caro,
pode até ser barato, só que isso ainda era mais caro que as posses momentâneas
dele: zero.
Restava ao Nérson perder
o aniversário e ir assistir de novo “A Maldição do Faraó” no cinema do Geninho,
e depois esticar a noite no bar do Calixtrato, jogando damas ou dominó. Muié,
necas. Até sentiu uma saudadezinha da última namorada, melhor que dominó, mas
ela era de casar e ele era de comer...
Às 10 saiu do cinema e
foi subindo a Rua Newton Prado, desanimado, com aquele ventinho gelado na
cacunda, vindo lá do calipá. Já contei antes mas quero até relembrar o clima
fantástico: os poucos que gostavam tanto de filmes de terror ao ponto de
deixarem o pé do fogão de lenha e os programas da Rádio Nacional para ir ao
cinema, em minutos esvaziaram as ruas – meados de abril, em Itararé, sopra o
primeiro aviso frio do próximo inverno. Aí ficou o tal silêncio espectral: você
ouve passos a um quilômetro de distância, sem exagero. As luzes fraquinhas dos
postes e a neblina, naquele tempo antigo, eram fantasmagóricas, pois se
escutava os sons ao longe mas não se podia enxergar de uma esquina a outra. De
vez em quando umas barulheiras súbitas dos trens engatando lá na estrada de
ferro. Um cachorro late aqui, outro responde lá, dois psius autoritários
devolvem o silêncio àquela paz.
E o Nérson macambúzio,
subindo a Rua Quinze (por puro hábito, já que para ir ao bar do Calixtrato
teria que descê-la na direção da igreja matriz). Já estava quase chegando no
quarteirão da Agência Funerária, com seus caixões na vitrine, quando surgiu da
rua transversal uma mulher vestida com um mantô preto, alta, ruiva, bonitona,
uma estranha que ele nunca tinha visto na cidade. Aproximou-se do rapaz,
abraçou-o e cochichou coisas no seu ouvido.
O Corvo depois contou
que se sentiu um tico-tiquinho nessa hora. Ele não lembra uma palavra que lhe
foi dita pela mulher, mas jura que não foi sonho nem delírio, e nem tinha
bebido, fazia um mês que ele não bebia álcool por causa dos antibióticos que
estava tomando – aliás ia recomeçar a beber naquela noite, pois terminara as
injeções na véspera, só que as estreptomicinas haviam consumido suas reservas
cambiais, por isso estava tão alheio que chegara a errar o caminho – ele ali,
em ótima condição econômica (pênis novinho em folha, energia de trinta dias a
seco, figadão véio descansado) porém em péssima condição financeira. Péssima,
não; nulinha da silva, a zero mesmo. De repente resolveu: deu meia volta e
refez o caminho, agora porém com uma ideia na cabeça.
Até a hora em que todos
se encontraram no bar do Tupi, de onde sairiam em caravana para a festança, nem
o Mário nem o Zé Maria tinham comprado lingüiça nenhuma. O Nérson, quando
percebeu isso, ficou encasquetado: se nenhum açougue ficava aberto depois das
oito, e já eram dez e meia, nenhum deles tinha ainda providenciado as lingüiças
que iam levar. Ali tinha dente de coelho...
-- Mas é claro!
Iam surripiar de alguém,
e o único alguém que podia ter lingüiças surripiáveis àquelas horas da noite
era um açougue, e o açougue do Nico Carneiro não podia ser enquanto o Tigrão
vivesse, e o outro açougue que tinha lingüiças era o do Honorato Gaia. A ideia
brilhou tanto que fez tóin:
-- Eu também vou. –
comunicou ao resto da turma.
-- Sem levar rango
nenhum?
-- Levo vinte quilo de
lingüiça. – replicou o Corvo.
-- E a bufunfa? Cê num
tava duro?
-- Pobrema meu, ora! –
respondeu de cara feia.
-- Mas nós vamos ter
lingüiça demais...
-- Da quar? – perguntou
Nérson.
-- Do Honorato, é claro,
ou cê pensa que alguém aqui acertou na loteria?!
-- Pois a minha é da
boa. E vou levar vinte quilo. – prometeu.
E prometeu mais do que
isso, prontificando-se a comprar os seis quilos que deveriam ser levados pelo
Mário e o Zé Maria. Os outros apenas escutavam, incrédulos.
-- Não se preocupem
comigo. Vão indo na frente e podem aprontar os espetos; daqui a pouco eu tô lá.
Mas cês me pagam a corrida de táxi, tá bão?
Recebeu dos outros a
grana da encomenda e se mandou, com uma última e expressa recomendação do Zé
Maria, que continuava duvidando:
-- Da pura, hem? Aquela
mista que vende no açougue do Honorato não vale bosta nenhuma, só serve pra
ensebar chuteira, e olha lá. Da boa, Nérson.
O Nérson, apesar do
sobrenome Corvo, não tinha nada a ver com urubu, e muito menos com burro.
Arranjou uma vara de bambu no posto de gasolina do Rivadávia Marques, amarrou
na ponta um puta anzol que tinha em casa (desses de pescar jaú) e iniciou sua
jornada. Foi aonde?
Se vocês disseram que
foi correndo ao Açougue Ideal para enfrentar o tigrão com aquele caniço e
depois roubar a pura do Nico Carneiro, erraram feio. Foi direto pro açougue do
Honorato, porque sabia ser impossível enfrentar o bicharoco brabo dos Romanoff;
alguma “coisa” lhe soprara um plano muito melhor.
Sabia que só tinha um
poste de luz naquele quarteirão, bem na frente do açougue, e com uma lâmpada
daquelas amarelinhas, mortiças... Só iluminava mesmo era o açougue, mal
projetando lá dentro as sombras da grade de ferro. Também sabia que nem
assombração passava por ali à noite, exceto o Brígido, guarda-noturno, que
pitava tranquilamente o seu palheiro, encostado no tal poste, entre uma volta e
outra pelas quadras que tinha de vigiar. O Nérson então escondeu a vara num
terreno baldio da esquina e chegou no guarda.
Corvo – Noite, Bríjdo.
Brígido – Noite. Fazendo
o que aqui a essas hora?
Corvo – Só
esfriando um pouco a ideia...
Brígido – Diz-que vai
ser miúdo o frio em julho...
Corvo – Nem me
fale! Este ano cai neve, rapaiz!
Brígido – Quê que cê
conta, Nérso?
Corvo – Cê por
um acauso num viu uma muié ruiva de casaco preto andando por aí, Bríjdo?
Brígido – Eu?! Cruz
credo! Cê tá bebo, home?!
Corvo – Por
nada, não, Bríjdo, deixa pra lá. Escute: será que ocê num ia me comprá um maço
de Mistura Fina lá no bar do Calixtrato?
Brígido – Ah, cê me
discurpe, Nérso, mas eu num posso largá o serviço. Por quê que num vai ocê
mesmo, ué?
Corvo – Sabe o
que é? Fui dividir uma bola no jogo contra o Fronteira, me arranquei a unha do
dedão, tá que tá latejando de dor.
Brígido – Mas cigarro a
essa hora, Nérso?! Cê num vai dormir? Então... amanhã cedo cê fuma.
Corvo – Ô, Bríjdo! Tô
sem sono de tudo, e cê sabe que eu prefiro ver saci do que ficar sem fumo...
Brígido – Num serve um
de paia?
Corvo – Até
aceito unzinho por agora, que eu tenho de esperar Seo Honorato aqui, pra pegar
umas lingüiças que encomendei pra ele, deve de tá pra chegar. Mas depois eu
ainda tenho que levar elas lá na Vila Osório, lá encimão, daí quando voltar é
capaz de não achar nem uma birosca aberta. Cê bem que podia me fazer esse
favor, hem, Bríjdo?
Brígido – Hmm, num tô
quereno, não, Nérso...
Corvo – Ói
aqui, Bríjdo: te dô treis quilo de lingüiça fresquinha se ocê me fizer esse
favor. Tô mesmo precisano pitá, senão não lhe pedia.
Brígido – Treis
quilo?...
Corvo – Dô
cinco, pronto!
Com cinco quilos de
linguiça fresca é claro que a taxa da criminalidade itarareense caía pela
metade, e o Bríjdo aceitou, com altos poréns e ressalvas:
Brígido – Mas óia aqui,
Nérso: ninguém pode saber disso.
Corvo – Ô,
Bríjdo!
Brígido – E ó: farta
dois minuto pras onze e meia; se eu não tiver vortado até meia-noite cê tem que
pegar, tome aqui o apito, e ir até a esquina apitar duas veiz.
Corvo – Num se
preocupe; pode deixar que aqui eu cuido.
Brígido – E não vai me
apitar forte, que não é que-nem jogo de futebór, cê tá me entendeno?
Corvo – Deixe
comigo, Bríjdo. Cê me conhece ou num conhece? Vai com Deus e Deus lhe pague.
Aqui eu já disse que cuido.
Brígido – Mas óia: se
assuceder quarqué coisa que ocê cisme, então cê pode soprar com toda força, tá
bão?
Corvo – Num
tenha dúvida; se precisar, vão ouvir o meu apito pra lá do cemitério.
Enquanto o guarda ia e o
cigarro vinha, foi o tempo do Nérson pescar uns quinze quilos da mista que só
servia pra esfregar bola de capotão. Pelos vãos da grade pegou metade das
linguiças penduradas ao alcance do bambu. Aí escondeu a vara e foi a conta
certinha do guarda voltar. Chegou branco de quem viu fantasma:
Brígido – Deus o livre e
guarde, Nérso! Acabei de encontrá aquela muié que ocê me falou.
Corvo – Uma donona
ruiva?
Brígido – Essa mesmo!
Corvo – Num te falei?
Mas cê fez cara de quem não acreditou...
Brígido – Tisconjuro,
sô!
Corvo – E o Seo
Honorato, cê num encontrou com ele no caminho? Cabô de subir...
Brígido – Não...
Corvo – Tava com tanta
pressa que nem quis me embruiá elas, óia só... Mas cê num simporta, né mesmo?
Tá aqui, ó: tem até mais de cinco quilo, pode pesar.
Pagou o maço de
cigarros, despediu-se muito agradecido, e caminhou para o Açougue Ideal com sua
rapina escondida na japona. Pegou no caminho a vara de bambu, andou até a Rua
São Pedro para não cruzar com o Turíbio, que vinha descendo pela Rua Quinze, e
chegou finalmente ao território tigrês.
Mesmo sabendo que o
velho Romanoff só alimentava o bicho de manhã, para aumentar-lhe a sanha
noturna, o Nérson estava com seu coração na boca e o cu na mão quando começou a
desenrolar as fieiras de lingüiça, arrastando-as como se fossem um rabo
comprido. Morrendo de medo, mas prosseguiu firme, pronto para encetar a segunda
parte do plano: arrostar o canzarrão e pescar as outras lingüiças.
Apontou a fera. E já
vinha babando, a passo de filhote de rinoceronte. O Corvo firme, segurando o
pixi. Mas a Natureza prevaleceu quando o monstrengo, por um momento desconfiado
com aquela antecipação do almoço matinal de sempre, decidiu: nhóc uma, nhóc
duas, nhóc três, e o sem-rabo soltando aos poucos aquela enorme cobra
segmentada, enquanto atravessava para o outro lado da rua até a porta do
açougue. Deixou um montinho na beira da calçada, e a fera lá, comendinho na
fila, uma por uma, calma e vagarosamente, com a fineza de um gourmet.
Durante o repasto canino
o Corvo realizou sua segunda pescaria proveitosa daquela noite: fisgou todo o
estoque da pura do Nico, bem uns vinte e tantos quilos. Faltava só dar no pé;
porém quando deu o primeiro passo com a porcada nas mãos o Tigrão pediu-lhe com
um gentil e soturno rosnado que não piscasse nem mais um olho. Então ficou ali,
com um monte de linguiças na mão e um diabo dum cachorrão na frente – como um
petrificado espectador da primeira e única ceia que o Tigrão fez na vida, aliás
com um cardápio de primeira classe, pra cachorro nenhum botar defeito.
Quando o monstrengo
comeu o último pedacinho do rabo-de-mista, ou seja, quando subiu na calçada e deu
a primeira lambida no pé do pescador de linguiças, o jeito foi oferecer-lhe uma
da pura, de modo que a coisa ficou assim: uma linguiça, uma lambida; outra
linguiça, outra lambida; e o bicho insaciável, e a barriga do bicho crescendo
visivelmente, como se ele estivesse passando por uma gestação resumida. Era um
impasse.
Aquilo não era só um
cão, não era nem mesmo um canzarrão; era uma máquina viva de deglutir lingüiça.
Felizmente era linguiça demais até prum cachorro que nunca comeu linguiça.
Chegou numa que ficou metade pra fora da boca, pois não entrava naquela goela
mais do que o tiquinho de oxigênio necessário para o monstro não morrer
asfixiado. Entupiu. Tinha algum gen de sucuri, no mínimo. Enfim conseguiu
engolir a última metade da última linguiça que seria capaz de comer nos
próximos três ou quatro dias. Olhou languidamente para o Corvo, deu-lhe uma
lambida carinhosa na mão e arriou. Ali ficou e dali não sairia antes da manhã
seguinte, quando o Nico chamou um dos Romanoff para vir desamarrá-lo da insólita
coleira – mais uma safadeza da grife Nérson Corvo.
O qual, aliás, só passou
ali mais uma vez durante a longa vida do Tigrão, que veio fazer com ele o que
nunca fizera antes ou faria depois com mais ninguém: aparecer na rua em plena
luz do dia para vir lamber-lhe o calcanhar.
-- Sai fora, catapora!
Ainda bem que isso
ocorreu à uma da tarde, debaixo de um solão danado, e não tinha viva alma na
rua àquela hora, senão o caipora do cachorro acabava denunciando o responsável
pelo façanhudo e misterioso sumiço das linguiças da cidade naquele Sabá de
abril de 46. Por via das dúvidas, desde essa segunda e última lambeção, o Corvo
fazia as voltas que fossem precisas pra não passar por ali.
Tirando o Tigrão,
só os homens e mulheres da vida comeram linguiça pura naquela semana. Talvez
por ironia das bruxas, meu aniversário poderia ser também o Dia do Açougueiro –
já é um consolo para quem frustrou Papai e Mamãe em seus sonhos de me ver
médico. Anos depois, ao referir-se às peripécias das farras da mocidade, os ilustres
membros da Comunidade Biscateriana de São Pedro dos Itararés iniciaram aquela
que se tornaria uma expressão nacional:
-- No tempo em que se
amarrava cachorro com linguiça.
Ah: vocês estão
lembrados do começo desta crônica? Eu avisei que era linguiça pura.
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