terça-feira, 28 de maio de 2013

09 - O NARIZ DO ANTA

Certa vez fui a Albuquerque/MS, para ajudar o filho de uma amiga que tinha sido presa por tráfico de drogas em companhia do amante, um italiano mafioso. Saindo de São Paulo na terça-feira de Carnaval, debaixo de uma baita tempestade, fiz metade da viagem num avião que já devia ser sucata na Segunda Guerra Mundial. Depois dormi numa hospedaria infestada de pernilongos, e completei a etapa final por estrada de terra numa jardineira que parava a cada cinco quilômetros para pegar passageiros carregando galinhas e outros bichos. Chega de desgraça ou querem mais?
Ah, querem mais?! Pois então saibam que tal viagem teria sido menos miserável se minha querida amiga Maria Luiza de Leão Freitas, baronesa de Nhumirim, ao menos tivesse mesmo sido presa (não foi), se realmente fossem drogas (não eram), se o distinto casal não tivesse feito amizade com o Delegado e o Juiz (que ficaram encantados), se ela já não tivesse voltado a Sampa quando cheguei lá (voltou), se essa viagem não fosse no jatinho particular de um latifundiário da região (um Lear Jet 60), e se finalmente minha carteira não tivesse sido furtada na estação rodoviária, com dinheiro e documentos (foi).
Confirmando o provérbio “Deus dá o frio conforme o cobertor”, conheci no ônibus uma mulher que fôra empregada doméstica de minha irmã muitos anos antes, agora casada com um camarada muito boa-gente, Sargento Marques, responsável pela guarnição militar de lá. Hospedaram-me por uma noite, confortaram meu desânimo, descontaram um cheque meu para pagar as despesas da volta (quando a companhia aérea se recusou a emitir uma segunda via da que tinha sido roubada), enfim: mantiveram um mínimo da minha perdida fé na humanidade.
Pra mim a Quaresma já estava na Sexta-Feira de Cinzas. Nem consegui aproveitar o almoço gostoso de D. Santinha. A despeito da boa vontade dela em me manter animado, eu continuava desolado quando o Sargento chegou, às quatro da tarde, e foi logo dizendo:
-- Cumé, vam’bora?
-- Pra onde?!
-- Pros mato, uai! Cê não disse que morria de vontade de conhecer os índios de perto? Então vamo.
-- Mas assim, sem preparar as coisas...?
-- Ques coisa, Ferderico?
-- Sei lá... bota,  capacete, espingarda, repelente...
-- Acho que cê anda vendo muita televisão, tá não?!
Avisei minha mulher que só voltaria na segunda-feira à tarde; ia aproveitar a viagem perdida para conhecer os índios e ver se pegava alguma coisa da música deles para algum futuro concerto – que eu de fato escrevi, para duo de violões com coro e orquestra sinfônica, batizado como “Sinfonia de Ubatuba”. E fomos, com a roupa do corpo. 
Desde logo reafirmo meus motivos para acreditar que sempre há um lado bom em qualquer coisa, mesmo no caso de uma viagem catastrófica como a minha. Desta vez foram as três noites e dois dias que passei na selva, com o Sargento e os xavantes.
Não sei precisar o lugar da aldeia. Indo de Albuquerque para Ladário a gente pega uma estradinha secundária; depois uma estrada vicinal, na verdade dois sulcos paralelos deixados pelas rodas de tratores e jipes que têm trafegado ali há muitos anos; então entra numa picada, que às vezes é um lamaçal e outras é banhado, difícil até para um jipão e com um motorista acostumado àquilo; no fim da picada (literalmente) há um pequeno povoado, com oito casas, um empório e dois violeiros; dali andamos quase uma hora “de a pé” até um claro na mata, com três palhoças enormes na beira de um riozinho. Aldeia xavante em território do município de Ladário, Brazyl.
Já era noite fechada quando chegamos ao local da cerimônia wai’a. Para um bobão cara-pálida, como eu, é apavorante estar pela primeira vez à noite no meio da Pré-História. Adrenalina pura, se bem que eu nem tive muito tempo para curtir meus medos telúricos: mal chegamos, mergulhei avidamente numa aguardente feita de mandioca que me curou bem depressa de um pensamento sombrio, entalado na minha cuca desde que o sol começara a desaparecer quando deixamos o jipe e começamos a caminhar:
-- Quê que eu tô fazendo aqui?!
A nação Xavante tem um ritual chamado wai’a que se realiza em cada aldeia a intervalos largos, de até dez anos ou mais. É uma espécie de iniciação dos jovens machos ao mistério dos homens, como numa sessão espírita ou de Candomblé, na qual os pajés ensinam a conversar com a alma dos ancestrais (e dos bichos ancestrais!). Assemelha-se à crisma judaico-cristã ou às revelações do Ifá na Umbanda; talvez as maiores diferenças estejam em dois aspectos: um, é que não há propriamente um senso de hierarquia, apenas um respeito pelos mais velhos, que são mais ouvidos pela simples razão de que sabem muito mais coisas bacanas que os menos erados; o outro aspecto diferente é que os anciãos não se limitam a narrar as histórias que são a cosmogênese do mundo e do seu povo, como se fosse uma Bíblia oral, mas contam também seus episódios pessoais e outros que lhes foram relatados, de forma que têm sempre uma bíblia viva, à qual vão sendo acrescentados novos livros, sempre e para sempre.
Por ser um ritual que acontece a períodos tão espaçados, participam desde garotos de onze ou doze anos até uns já bem marmanjos, passando dos vinte. É um rito jurupari, o que em bom tupi-guarani significa “boca fechada”. Sendo esse um dos seus mistérios, é segredo, e sobretudo tabu: sob ameaça de terríveis sinas pendentes sobre os que ousem romper o véu dos Campos do Céu antes da hora devida, somente os velhos experientes estão em condição de conduzir alguém através das portas da percepção desse universo paralelo. Para conhecer tal mistério é preciso fumar uns charutos enormes, feitos com folhas secas de uma planta parassensorializante, isto é, que causa um barato, com pensamentos maravilhosos. A melhor aproximação que consigo fazer do nome dessa planta com a nossa fonética é uei-den-hõ, o que em inglês daria algo como waidenhoan.
Li em algum jornal uma referência a essa planta, como sendo alucinógena; quem disse isso certamente não fumou desse mesmo charuto. Não consegui obter informações científicas sobre ela, portanto – salvo melhor juízo ou ulterior revisão acadêmica à luz de fontes mais claras que o meu pobre conhecimento empírico – digo apenas que ela age em níveis libídicos da mente, de algum modo harmonizando os conflitos do Eu com o mundo da realidade objetiva. Em linguagem de gente, é uma plantinha porreta, que anula as dúvidas neuróticas, durante o uso e muito tempo depois de usada. E só faz isso.
-- Só isso?!
-- Só.
Então tá. A ueiden-hõ também tem algum componente afrodisíaco, que não sei se a Psicofisiologia já estuda, porém tenho certeza de que um dia estudará. E não pensem que eles fumam seus baseados e vão pro meio do mato fazer suruba com um monte de cunhatãs, não! Nada disso. O efeito principal da substância ativa, seja qual for essa nova brincadeira do Criador, é algo como uma suspensão do Tempo – escrevi com letra maiúscula porque não falo de um tempo-relógio, nem mesmo de um tempo fisiológico (que regula fome, sono, xixi, tesão); trata-se de uma abstração completa das expectativas, “desligando” qualquer noção de vir a ser e de memória emocional. Resulta que você apenas é, não tem mais nada que o separe das outras coisas e pessoas. Perde-se a consciência de um Eu que observa e interage com um fora de mim.
Mas chega de tentar explicar; resumindo, não tem nada a ver com Santo Daime nem com Cannabis... ou tem, sei lá. Quem quiser saber melhor que procure algum psiquiatra fazendo tese na área de Farmacologia. Sei dizer que ninguém baba, ninguém estrebucha nem tem risadeiras histéricas. Ninguém faz nada que nossas convenções civilizadas chamariam de grotesco, exceto – é óbvio – andar com suas vergonhas ao vento sem a menor vergonha. Fora essa “indecência” só notei uma coisinha esquisita, que nossa sociedade de consumo global consideraria um fenômeno: os moços curtem pra caramba estar ali com a velharada, ouvindo histórias fabulosas e aprendendo a viver num fantástico uni-verso. Daí em diante jamais deixarão de conversar com as coisas da Natureza, da qual apenas “fazem parte”.
Eu não pude experimentar o beise dessa vez, porque já tinha passado muito da idade e porque ainda não era índio (depois virei). Até então eu não era para eles mais do que um mísero pagão, e não ficaria longe da verdade se trocasse o P por C.
-- Quê que eu tô fazendo aqui, meu Deus?!
Ora: afinal eu estava ali de xereta, chegara andando nas minhas duas patas e não fôra arrastado por ninguém. Bem feito; agora, meu amigo, agüente.
Não por causa do segredo dos homens – se há algum que ainda não conheci, não será agora que me faça tanta falta – nem para espantar meu medo do desconhecido; já que eu não podia, fiquei só na vontade de experimentar e saber qual o efeito da coisa, quem sabe realizando com trinta anos de atraso uns velhos sonhos de viajar com Don Juan nos livros de Carlos Castañeda, ou fazer um curso de verão com Timothy Leary e Jack Kerouac. E foi essa a razão de eu cair de boca no cauim: não posso fumar mas posso beber.
É daquelas bebidas que “descem” redondinho, e você bebe que-nem vinho, só que o efeito é mais de... nitroglicerina: no terceiro gole – buuum – a gente parece que levita. Gozado é que não dá ressaca, se bem que o organismo da gente nem tem tempo pra essas coisas numa situação como aquela; o simples fato de estar ali, em Marte, põe todas as nossas células fabricando endorfinas, serotoninas e outros hormônios do prazer.
Havia outra razão para eu estar legal (jurídico e bacana) no sábado de manhã, não obstante as emoções fortes, a cachaça forte e a noite que dormi sem pesadelos numa rede. Tal razão é que só tirei minha roupa quando fui tomar banho no rio, logo de manhã cedinho, e a água estava gelada. Quando saí, vendo que o Sargento se enxugava nas próprias roupas e continuava peladão, fiquei sem jeito de vestir as minhas. Pintinho gelado, tava que tava mínimo, geladinho. Sendo isso que meu karma diz, – pensei – não adianta espernear; banquei dignidade, até onde eu possa fazer pose de dignidade estando pelado no mato daquele jeito, me sentindo como uma saracura que caiu na cal, mais branco que uma barata descascada e desfilando meus magros cambitos no meio do Neolítico.  Pra completar a cena só faltava aparecer um dinossauro, quem sabe tataravô de uma Lagartixa Rex que ficara minha amiga na hospedaria dos pernilongos. Tudo isso sem contar que o braço do mais fraquinho deles era mais grosso que minha perna direita.
Então vejam em que tipo de psicodrama me meti, graças à minha xeretice: o que mais atingiu meus pudores foi uma coisa que eu pensava já ter superado há muito, pelo menos desde que comecei a exercer a carga genética que recebi de Tio Rodolfinho – aqueles caras têm uns pintões que mamma mia! Quê que é aquilo?! De início eu me senti quase um eunuco, mesmo depois que o biro esquentou e recuperou suas dimensões comuns (ao menos suficientemente comuns para ter namorado umas poucas fêmeas incomuns, das quais algumas não tiveram motivo para insatisfação e as outras talvez fossem finas demais pra reclamar).
Também pode ser que a saliva das índias, importante ingrediente no preparo daquela pinga, faça um efeito benéfico à digestão do álcool resultante. Pensando bem, isso não tem o menor valor literário, e eu não estou aqui para estimular ninguém a se embebedar. Interessa é que no meio da manhã – um risinho aqui, um grunhidinho ali – eu já começava a me sentir o próprio Orlando Villas-Boas, embora ainda não imaginasse que três dias depois eu seria Raposo Tavares em pessoa. Eu e eles estávamos nos acostumando aos poucos com as nossas diferenças, e eu já tentava dialogar num idioma que aprendi nos filmes de faroeste, triscava uma paçoca feita com castanha e farinha de mandioca, andando à vontade pra lá e pra cá. Experimentei também o tal de beiju, que achei meio sem graça, e uns peixinhos moqueados sem sal e com pimenta. Eu estava começando a entrar no espírito da coisa – estava ali, e pronto, azar o meu se não gostasse. Como dizia meu avô caçador – Tarde piastes, macuco, agora já mandei chumbo. Enfim, amei aqueles dias e noites. Fiquei até com vontade de reler o meu Rousseau quando chegasse em casa, pra vocês terem uma ideia do meu estado de euforia.
*    *    *    *
Toptiro Omo é um tuxaua, um grande líder. Fala um dialeto que ele chama de branco, e foi com ele que eu acabei travando maior amizade, ao ponto de me convidar para a mesma cerimônia no verão do próximo ano, quando aconteceria um wai’a em Ortigueiras/Paraná, ou então em Xavantina/Santa Catarina, muitas e muitas luas depois.
Conforme fui conseguindo libertar-me da proximidade protetora do Sargento, que é velho amigo deles – e só por isso obtivera permissão para levar um completo estranho ao ritual – Toptiro observou que eu andava meio esquisito, meio torto (o que os médicos chamam de postura antálgica nos que têm problemas de coluna vertebral), e me convidou para ir até a choça de um pajé, no interior da mataria. Como já lhes disse, eu estava eufórico como um bobalhão, de maneira que fui (até porque eu não vou deixar de experimentar a ueiden-hõ na primeira oportunidade, com finalidade auto-psicanalítica, é claro).
Medindo pelo comprimento da minha língua, acho que andamos uns três ou quatro quilômetros, que no mato valem vinte. Fomos à residência de Tserenh, que foi amigo de Cunhã-Bebê, portanto deve estar agora com uns quinhentos anos, mais ou menos. Toptiro entrou antes, conversou com o feiticeiro-mor, depois me mandou entrar e sentar como um Buda na frente do... ente (pois se eu dissesse “homem” vocês poderiam fazer uma ideia bem errada do que seja uma velhice de cinco séculos).
Acendeu sua diamba e soprou fumaças na minha cara enquanto cantava uma ladainha com voz de assombração. Aí me mandou ficar de quatro, como quem está no afã de catar cavacos no chão. Ôpa!, pensei, mas era porque eu estava com o espírito de uma certa anta maligna, principal causadora das minhas dores nas costas – além, é claro, de eu ter passado sentado os últimos trinta anos, tocando violão ou estudando contrapontos ou escrevendo bolinhas musicais. Ele então expulsou a referida anta à custa de me dar uma verdadeira surra com uns ramos de não-sei-quê.
Vem cá: cês conseguem imaginar eu ali, pelado, de quatro, apanhando de um véïnho? É ridículo demais, não é? Pois então eu vou contar a vocês como se dança um baião: verdadeiramente ridícula mesmo foi a segunda parte do exorcismo, quando ele me “desamassou” com tais dobraduras e esticamentos que parecia uma luta livre entre Godzila e Mothra. Chegou a montar no meu cangote, com as pernas enroladas na minha cintura, e me fez sair correndo para dar três voltas na óca, animando a alimária com uns gritinhos: êba, êba.
Quando desmontou, pegou lá uma cabacinha muito suspeita e me deu pra beber um líquido esquisito, éca! Logo que voltei a respirar, depois do esforço da corrida e de beber aquele treco, fiquei tão bem disposto que me soltei ao ponto de cantar e até saracotear um pouquinho com eles, enquanto eles faziam coro com seus ancestrais. Remedinho do bom, meu! – levanta até defunto, e eu sou a prova viva disso, já que estava com o entusiasmo de um quando chegara à casa dele. Além de ressuscitado, ganhei dele uma flautinha, que guardo com o maior carinho, na qual me ensinou uma monodia para agradar a anta reumática no caso dela voltar mal humorada. Confesso que roubei descaradamente essa linha melódica, usada como tema principal naquela minha sinfonia de que falei acima (mas os créditos indígenas estão referidos na partitura, convém registrar).
Tserenh... um selvagem que obriga a certas reflexões esotéricas.
A festa já havia começado há dois dias, porém o auge aconteceu na noite do sábado. Fui honradíssimo com um convite à roda da história, um círculo de rapazes em volta de uma roda de anciãos, onde os antigos contam seus casos, todos envoltos num fumacê brabo. O nitro-cauim já estava rolando desde a tardezinha, razão pela qual eu estava quase pândego quando a noite caiu de vez e a roda começou a se formar na Casa dos Homens – as mulheres não botaram o nariz pra fora das outras malocas enquanto estive com eles, se é que estavam lá. Era uma cerimônia só dos homens.
Fosse pouco eu estar com a língua mole de tanto cauim, tomei também a maior prise no meio daquela sauna de ueiden-hõ. E ouvi histórias do arco da velha, com cobra, com onça, gavião calçudo, peixe-boi, enfim: com a fauna deles. Até que chegou a minha vez – e foi um choque quando Toptiro disse que eu era o próximo, porque eu não tinha nada a ver com aquilo, estava ali só de bicão. Porém, talvez porque ainda me restasse algum remoto orgulho de minha civilização, ou por causa mesmo da manguaça e da fumaça, encarei. Eu estava pra lá de Marrakesh; poderia escutar Caetano Veloso cantando “Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe”... Ah, quer saber? Dane-se: resolvi soltar a franga.
Primeiro me deu um branco, como sempre que a gente precisa lembrar de uma coisa qualquer entre mil, e de repente não vem nenhuma à cabeça. Então comecei a pensar em histórias com bichos, que afinal eram as mais apreciadas ali. Pensei na serpente de Eva, no lobo da Chapeuzinho Vermelho, no leão de Neméia, até no Pica-Pau... Ah, isso tudo é muito babaca pra contar aqui, pensei, inda mais depois de tantas coisas psicodélicas que eu tinha acabado de ouvir deles. Sabe o que eu fiz? Contei a história do banquete no qual o bispo Dom Pero Fernandes Sardinha foi o objeto das maiores atenções. Contei do naufrágio, de como deu na praia dos caetés, fez amizade com os proprietários da terra, teve dias de agrado e honrarias mil, sendo finalmente comido num churrasco que ficou na memória das tribos do litoral.
Meu roteiro foi meio confuso – entrava até Macunaíma no meio, e Hans Staden, o profeta Jonas do Velho Testamento, uma verdadeira miscelânea – mas isso foi secundário; afinal, ninguém sabe direito como se deram os fatos culinários em pauta. De qualquer modo não estarei sendo imodesto se disser que fiz o maior sucesso com meu churrasco de cara-pálida. Cheguei ao cúmulo de batizá-lo como barbecue alla Ra-O’Nee, em inglês pra ficar mais chique.        
  Mesmo drogado, não pude deixar de notar que os índios cochichavam alguma coisa bem divertida a meu respeito, entremeando meu causo com uns risinhos de índio. Confesso que senti uma ponta de receio, pois me passou pela lembrança aquela piadinha da Baronesa quando telefonei para xingá-la – Cuidado aí com os antropófagos! – justamente naquele trecho do meu relato em que eu descrevia um ancestral deles se deliciando com uns bagos de bispo mal passados.
-- Vai que eles ficam mucho lôcos com esse bagulho aí e inventam de reviver os velhos tempos... Eu, hem?!  
 Olha, vou dizer pra vocês – E. T., o extraterrestre, não faria mais sucesso que eu se descesse ali naquela noite. Sem falsa modéstia, abafei. A noite foi minha. Virei irmão, embora só na manhã de domingo eu ficasse sabendo a verdadeira causa das risadinhas.
Baseados – sem trocadilho – na minha aparência física antes da funilaria do bruxo Tserenh, escolheram para meu batismo indígena o nome  Tapi-Õhan, o Anta Velha.
E não me debochem, não; havia outro motivo para esse nome, o qual, aliás, me granjeou total fraternidade deles: eu possuo um lindo nariz. Isso mesmo que vocês leram: ficaram muito bem impressionados com meu apêndice nasal, digno de um antigo chefe respeitadíssimo, há muito habitando o Campo do Céu, juntinho de Ci, a Mãe do Mato. Então me respeitem; meu nariz de anta, com as napas que eles têm, não seria admirado ali sem mais nem menos, devia ser mesmo notável, altamente conspícuo.
Se eu quisesse, poderia ficar morando ali. Na certa acabaria pajé (no mínimo cacique), mas nunca apreciei Claude Lévi-Strauss ou Darcy Ribeiro a esse ponto, de modo que voltei para casa na segunda-feira depois do almoço. No mesmo aeroplano da ida e com os mesmos copilotos. Dessa vez, entretanto, tive o cuidado de fazer o Ângelo (meu anjo-da-guarda) subir na frente, sob ameaça de trocá-lo pelo Anta Malvada; como garantia, exigi que ele fosse rezando ave-marias até descermos em São Paulo – já que era meu anjo-da-guarda, que me guardasse, ora bolas!
No final das contas a viagem valeu, se não por outras razões, ao menos porque eu – Tapi-Õhan – fui brindado por Mavutsinim com um belíssimo nariz, saibam disso.

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