Certa vez fui a
Albuquerque/MS, para ajudar o filho de uma amiga que tinha sido presa por tráfico
de drogas em companhia do amante, um italiano mafioso. Saindo de São Paulo na
terça-feira de Carnaval, debaixo de uma baita tempestade, fiz metade da viagem
num avião que já devia ser sucata na Segunda Guerra Mundial. Depois dormi numa
hospedaria infestada de pernilongos, e completei a etapa final por estrada de
terra numa jardineira que parava a cada cinco quilômetros para
pegar passageiros carregando galinhas e outros bichos. Chega de desgraça ou
querem mais?
Ah, querem mais?! Pois
então saibam que tal viagem teria sido menos miserável se minha querida amiga
Maria Luiza de Leão Freitas, baronesa de Nhumirim, ao menos tivesse mesmo sido
presa (não foi), se realmente fossem drogas (não eram), se o distinto casal não
tivesse feito amizade com o Delegado e o Juiz (que ficaram encantados), se ela
já não tivesse voltado a Sampa quando cheguei lá (voltou), se essa viagem não
fosse no jatinho particular de um latifundiário da região (um Lear Jet
60), e se finalmente minha carteira não tivesse sido furtada na estação
rodoviária, com dinheiro e documentos (foi).
Confirmando o
provérbio “Deus dá o frio conforme o cobertor”, conheci no
ônibus uma mulher que fôra empregada doméstica de minha irmã muitos anos antes,
agora casada com um camarada muito boa-gente, Sargento Marques, responsável
pela guarnição militar de lá. Hospedaram-me por uma noite, confortaram meu
desânimo, descontaram um cheque meu para pagar as despesas da volta (quando a
companhia aérea se recusou a emitir uma segunda via da que tinha sido roubada),
enfim: mantiveram um mínimo da minha perdida fé na humanidade.
Pra mim a Quaresma já
estava na Sexta-Feira de Cinzas. Nem consegui aproveitar o almoço gostoso de D.
Santinha. A despeito da boa vontade dela em me manter animado, eu continuava
desolado quando o Sargento chegou, às quatro da tarde, e foi logo dizendo:
-- Cumé, vam’bora?
-- Pra onde?!
-- Pros mato, uai! Cê
não disse que morria de vontade de conhecer os índios de perto? Então vamo.
-- Mas assim, sem
preparar as coisas...?
-- Ques coisa, Ferderico?
-- Sei lá... bota,
capacete, espingarda, repelente...
-- Acho que cê anda
vendo muita televisão, tá não?!
Avisei minha mulher que
só voltaria na segunda-feira à tarde; ia aproveitar a viagem perdida para
conhecer os índios e ver se pegava alguma coisa da música deles para algum
futuro concerto – que eu de fato escrevi, para duo de violões com coro e
orquestra sinfônica, batizado como “Sinfonia de Ubatuba”. E fomos, com a roupa
do corpo.
Desde logo reafirmo meus
motivos para acreditar que sempre há um lado bom em qualquer coisa, mesmo no
caso de uma viagem catastrófica como a minha. Desta vez foram as três noites e
dois dias que passei na selva, com o Sargento e os xavantes.
Não sei precisar o lugar
da aldeia. Indo de Albuquerque para Ladário a gente pega uma estradinha
secundária; depois uma estrada vicinal, na verdade dois sulcos paralelos
deixados pelas rodas de tratores e jipes que têm trafegado ali há muitos anos;
então entra numa picada, que às vezes é um lamaçal e outras é banhado, difícil
até para um jipão e com um motorista acostumado àquilo; no fim da picada
(literalmente) há um pequeno povoado, com oito casas, um empório e dois
violeiros; dali andamos quase uma hora “de a pé” até um claro na
mata, com três palhoças enormes na beira de um riozinho. Aldeia xavante em
território do município de Ladário, Brazyl.
Já era noite fechada
quando chegamos ao local da cerimônia wai’a. Para um bobão
cara-pálida, como eu, é apavorante estar pela primeira vez à noite no meio da
Pré-História. Adrenalina pura, se bem que eu nem tive muito tempo para curtir
meus medos telúricos: mal chegamos, mergulhei avidamente numa aguardente feita
de mandioca que me curou bem depressa de um pensamento sombrio, entalado na
minha cuca desde que o sol começara a desaparecer quando deixamos o jipe e
começamos a caminhar:
-- Quê que eu tô fazendo
aqui?!
A nação Xavante tem um
ritual chamado wai’a que se realiza em cada aldeia a
intervalos largos, de até dez anos ou mais. É uma espécie de iniciação dos
jovens machos ao mistério dos homens, como numa sessão espírita ou
de Candomblé, na qual os pajés ensinam a conversar com a alma dos ancestrais (e
dos bichos ancestrais!). Assemelha-se à crisma judaico-cristã ou às revelações
do Ifá na Umbanda; talvez as maiores diferenças estejam em dois aspectos: um, é
que não há propriamente um senso de hierarquia, apenas um respeito pelos mais
velhos, que são mais ouvidos pela simples razão de que sabem muito mais coisas
bacanas que os menos erados; o outro aspecto diferente é que os anciãos não se
limitam a narrar as histórias que são a cosmogênese do mundo e do seu povo,
como se fosse uma Bíblia oral, mas contam também seus episódios pessoais e
outros que lhes foram relatados, de forma que têm sempre uma bíblia viva,
à qual vão sendo acrescentados novos livros, sempre e para sempre.
Por ser um ritual que
acontece a períodos tão espaçados, participam desde garotos de onze ou doze
anos até uns já bem marmanjos, passando dos vinte. É um rito jurupari,
o que em bom tupi-guarani significa “boca fechada”. Sendo esse um
dos seus mistérios, é segredo, e sobretudo tabu: sob ameaça de
terríveis sinas pendentes sobre os que ousem romper o véu dos Campos do Céu
antes da hora devida, somente os velhos experientes estão em condição de
conduzir alguém através das portas da percepção desse universo paralelo. Para
conhecer tal mistério é preciso fumar uns charutos enormes, feitos com folhas
secas de uma planta parassensorializante, isto é, que causa um barato,
com pensamentos maravilhosos. A melhor aproximação que consigo fazer do nome
dessa planta com a nossa fonética é uei-den-hõ, o que em inglês
daria algo como waidenhoan.
Li em algum jornal uma
referência a essa planta, como sendo alucinógena; quem disse isso certamente
não fumou desse mesmo charuto. Não consegui obter informações científicas sobre
ela, portanto – salvo melhor juízo ou ulterior revisão acadêmica à luz de
fontes mais claras que o meu pobre conhecimento empírico – digo apenas que ela
age em níveis libídicos da mente, de algum modo harmonizando os conflitos do Eu
com o mundo da realidade objetiva. Em linguagem de gente, é uma plantinha porreta,
que anula as dúvidas neuróticas, durante o uso e muito tempo depois de usada. E
só faz isso.
-- Só isso?!
-- Só.
Então tá. A ueiden-hõ
também tem algum componente afrodisíaco, que não sei se a Psicofisiologia já
estuda, porém tenho certeza de que um dia estudará. E não pensem que eles fumam
seus baseados e vão pro meio do mato fazer suruba com um monte
de cunhatãs, não! Nada disso. O efeito principal da substância ativa, seja qual
for essa nova brincadeira do Criador, é algo como uma suspensão do Tempo –
escrevi com letra maiúscula porque não falo de um tempo-relógio, nem mesmo de
um tempo fisiológico (que regula fome, sono, xixi, tesão); trata-se de uma
abstração completa das expectativas, “desligando” qualquer noção de vir
a ser e de memória emocional. Resulta que você
apenas é, não tem mais nada que o separe das outras coisas e
pessoas. Perde-se a consciência de um Eu que observa e interage
com um fora de mim.
Mas chega de tentar
explicar; resumindo, não tem nada a ver com Santo Daime nem com Cannabis... ou
tem, sei lá. Quem quiser saber melhor que procure algum psiquiatra fazendo tese
na área de Farmacologia. Sei dizer que ninguém baba, ninguém estrebucha nem tem
risadeiras histéricas. Ninguém faz nada que nossas convenções civilizadas
chamariam de grotesco, exceto – é óbvio – andar com suas vergonhas ao vento sem
a menor vergonha. Fora essa “indecência” só notei uma coisinha esquisita, que
nossa sociedade de consumo global consideraria um fenômeno: os moços curtem pra
caramba estar ali com a velharada, ouvindo histórias fabulosas e aprendendo a
viver num fantástico uni-verso. Daí em diante jamais deixarão de conversar com
as coisas da Natureza, da qual apenas “fazem parte”.
Eu não pude experimentar
o beise dessa vez, porque já tinha passado muito da idade e
porque ainda não era índio (depois virei). Até então eu não era para eles mais
do que um mísero pagão, e não ficaria longe da verdade se trocasse o P por C.
-- Quê que eu tô fazendo
aqui, meu Deus?!
Ora: afinal eu estava
ali de xereta, chegara andando nas minhas duas patas e não fôra arrastado por
ninguém. Bem feito; agora, meu amigo, agüente.
Não por causa do segredo
dos homens – se há algum que ainda não conheci, não será agora que me
faça tanta falta – nem para espantar meu medo do desconhecido; já que eu não
podia, fiquei só na vontade de experimentar e saber qual o efeito da coisa,
quem sabe realizando com trinta anos de atraso uns velhos sonhos de viajar com
Don Juan nos livros de Carlos Castañeda, ou fazer um curso de verão com Timothy
Leary e Jack Kerouac. E foi essa a razão de eu cair de boca no cauim: não posso
fumar mas posso beber.
É daquelas bebidas que
“descem” redondinho, e você bebe que-nem vinho, só que o efeito é mais de...
nitroglicerina: no terceiro gole – buuum – a gente parece que
levita. Gozado é que não dá ressaca, se bem que o organismo da gente nem tem
tempo pra essas coisas numa situação como aquela; o simples fato de estar ali,
em Marte, põe todas as nossas células fabricando endorfinas, serotoninas e
outros hormônios do prazer.
Havia outra razão para
eu estar legal (jurídico e bacana) no sábado de manhã, não obstante as emoções
fortes, a cachaça forte e a noite que dormi sem pesadelos numa rede. Tal razão
é que só tirei minha roupa quando fui tomar banho no rio, logo de manhã
cedinho, e a água estava gelada. Quando saí, vendo que o Sargento se enxugava
nas próprias roupas e continuava peladão, fiquei sem jeito de vestir as minhas.
Pintinho gelado, tava que tava mínimo, geladinho. Sendo isso que meu
karma diz, – pensei – não adianta espernear; banquei
dignidade, até onde eu possa fazer pose de dignidade estando pelado no mato
daquele jeito, me sentindo como uma saracura que caiu na cal, mais branco que
uma barata descascada e desfilando meus magros cambitos no meio do Neolítico. Pra
completar a cena só faltava aparecer um dinossauro, quem sabe tataravô de
uma Lagartixa Rex que ficara minha amiga na hospedaria dos
pernilongos. Tudo isso sem contar que o braço do mais fraquinho deles era mais
grosso que minha perna direita.
Então vejam em que tipo
de psicodrama me meti, graças à minha xeretice: o que mais atingiu meus pudores
foi uma coisa que eu pensava já ter superado há muito, pelo menos desde que
comecei a exercer a carga genética que recebi de Tio Rodolfinho – aqueles caras
têm uns pintões que mamma mia! Quê que é aquilo?! De início eu me
senti quase um eunuco, mesmo depois que o biro esquentou e recuperou suas
dimensões comuns (ao menos suficientemente comuns para ter namorado umas poucas
fêmeas incomuns, das quais algumas não tiveram motivo para insatisfação e as
outras talvez fossem finas demais pra reclamar).
Também pode ser que a
saliva das índias, importante ingrediente no preparo daquela pinga, faça um
efeito benéfico à digestão do álcool resultante. Pensando bem, isso não tem o
menor valor literário, e eu não estou aqui para estimular ninguém a se
embebedar. Interessa é que no meio da manhã – um risinho aqui, um grunhidinho
ali – eu já começava a me sentir o próprio Orlando Villas-Boas, embora ainda
não imaginasse que três dias depois eu seria Raposo Tavares em pessoa. Eu e
eles estávamos nos acostumando aos poucos com as nossas diferenças, e eu já tentava
dialogar num idioma que aprendi nos filmes de faroeste, triscava uma paçoca
feita com castanha e farinha de mandioca, andando à vontade pra lá e pra cá.
Experimentei também o tal de beiju, que achei meio sem graça, e uns peixinhos
moqueados sem sal e com pimenta. Eu estava começando a entrar no espírito
da coisa – estava ali, e pronto, azar o meu se não gostasse. Como
dizia meu avô caçador – Tarde piastes, macuco, agora já mandei
chumbo. Enfim, amei aqueles dias e noites. Fiquei até com vontade de
reler o meu Rousseau quando chegasse em casa, pra vocês terem uma ideia do meu
estado de euforia.
* * * *
Toptiro Omo é um tuxaua,
um grande líder. Fala um dialeto que ele chama de branco, e foi com
ele que eu acabei travando maior amizade, ao ponto de me convidar para a mesma
cerimônia no verão do próximo ano, quando aconteceria um wai’a em
Ortigueiras/Paraná, ou então em Xavantina/Santa Catarina, muitas e muitas luas
depois.
Conforme fui conseguindo
libertar-me da proximidade protetora do Sargento, que é velho amigo deles – e
só por isso obtivera permissão para levar um completo estranho ao ritual –
Toptiro observou que eu andava meio esquisito, meio torto (o que os médicos
chamam de postura antálgica nos que têm problemas de coluna
vertebral), e me convidou para ir até a choça de um pajé, no interior da
mataria. Como já lhes disse, eu estava eufórico como um bobalhão, de maneira
que fui (até porque eu não vou deixar de experimentar a ueiden-hõ na primeira
oportunidade, com finalidade auto-psicanalítica, é claro).
Medindo pelo comprimento
da minha língua, acho que andamos uns três ou quatro quilômetros, que no mato
valem vinte. Fomos à residência de Tserenh, que foi amigo de Cunhã-Bebê,
portanto deve estar agora com uns quinhentos anos, mais ou menos. Toptiro
entrou antes, conversou com o feiticeiro-mor, depois me mandou entrar e sentar
como um Buda na frente do... ente (pois se eu dissesse “homem” vocês poderiam
fazer uma ideia bem errada do que seja uma velhice de cinco séculos).
Acendeu sua diamba e soprou
fumaças na minha cara enquanto cantava uma ladainha com voz de assombração. Aí
me mandou ficar de quatro, como quem está no afã de catar cavacos no
chão. Ôpa!, pensei, mas era porque eu estava com o espírito de uma
certa anta maligna, principal causadora das minhas dores nas costas – além, é
claro, de eu ter passado sentado os últimos trinta anos, tocando violão ou
estudando contrapontos ou escrevendo bolinhas musicais. Ele então expulsou a
referida anta à custa de me dar uma verdadeira surra com uns ramos de
não-sei-quê.
Vem cá: cês conseguem
imaginar eu ali, pelado, de quatro, apanhando de um véïnho? É ridículo demais,
não é? Pois então eu vou contar a vocês como se dança um baião: verdadeiramente
ridícula mesmo foi a segunda parte do exorcismo, quando ele me “desamassou” com
tais dobraduras e esticamentos que parecia uma luta livre entre Godzila e
Mothra. Chegou a montar no meu cangote, com as pernas enroladas na minha
cintura, e me fez sair correndo para dar três voltas na óca, animando a alimária
com uns gritinhos: êba, êba.
Quando desmontou, pegou
lá uma cabacinha muito suspeita e me deu pra beber um líquido esquisito, éca! Logo
que voltei a respirar, depois do esforço da corrida e de beber aquele treco,
fiquei tão bem disposto que me soltei ao ponto de cantar e até saracotear um
pouquinho com eles, enquanto eles faziam coro com seus ancestrais. Remedinho do
bom, meu! – levanta até defunto, e eu sou a prova viva disso, já que
estava com o entusiasmo de um quando chegara à casa dele. Além de ressuscitado,
ganhei dele uma flautinha, que guardo com o maior carinho, na qual me ensinou
uma monodia para agradar a anta reumática no caso dela voltar mal humorada.
Confesso que roubei descaradamente essa linha melódica, usada como tema
principal naquela minha sinfonia de que falei acima (mas os créditos indígenas
estão referidos na partitura, convém registrar).
Tserenh... um selvagem
que obriga a certas reflexões esotéricas.
A festa já havia
começado há dois dias, porém o auge aconteceu na noite do sábado. Fui
honradíssimo com um convite à roda da história, um círculo de
rapazes em volta de uma roda de anciãos, onde os antigos contam seus casos,
todos envoltos num fumacê brabo. O nitro-cauim já estava rolando desde a
tardezinha, razão pela qual eu estava quase pândego quando a noite caiu de vez
e a roda começou a se formar na Casa dos Homens – as mulheres não botaram o
nariz pra fora das outras malocas enquanto estive com eles, se é que estavam
lá. Era uma cerimônia só dos homens.
Fosse pouco eu estar com
a língua mole de tanto cauim, tomei também a maior prise no
meio daquela sauna de ueiden-hõ. E ouvi histórias do arco da velha,
com cobra, com onça, gavião calçudo, peixe-boi, enfim: com a fauna deles. Até
que chegou a minha vez – e foi um choque quando Toptiro disse que eu era o
próximo, porque eu não tinha nada a ver com aquilo, estava ali só de bicão.
Porém, talvez porque ainda me restasse algum remoto orgulho de minha
civilização, ou por causa mesmo da manguaça e da fumaça, encarei. Eu estava pra
lá de Marrakesh; poderia escutar Caetano Veloso cantando “Mexe qualquer
coisa dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe”... Ah, quer
saber? Dane-se: resolvi soltar a franga.
Primeiro me deu um
branco, como sempre que a gente precisa lembrar de uma coisa qualquer entre
mil, e de repente não vem nenhuma à cabeça. Então comecei a pensar em histórias
com bichos, que afinal eram as mais apreciadas ali. Pensei na serpente de Eva,
no lobo da Chapeuzinho Vermelho, no leão de Neméia, até no Pica-Pau... Ah,
isso tudo é muito babaca pra contar aqui, pensei, inda mais depois de
tantas coisas psicodélicas que eu tinha acabado de ouvir deles. Sabe o que eu
fiz? Contei a história do banquete no qual o bispo Dom Pero Fernandes Sardinha
foi o objeto das maiores atenções. Contei do naufrágio, de como deu na praia
dos caetés, fez amizade com os proprietários da terra, teve dias de agrado e
honrarias mil, sendo finalmente comido num churrasco que ficou na memória das
tribos do litoral.
Meu roteiro foi meio
confuso – entrava até Macunaíma no meio, e Hans Staden, o profeta Jonas do
Velho Testamento, uma verdadeira miscelânea – mas isso foi secundário; afinal,
ninguém sabe direito como se deram os fatos culinários em pauta. De qualquer
modo não estarei sendo imodesto se disser que fiz o maior sucesso com meu
churrasco de cara-pálida. Cheguei ao cúmulo de batizá-lo como barbecue
alla Ra-O’Nee, em inglês pra ficar mais
chique.
Mesmo drogado,
não pude deixar de notar que os índios cochichavam alguma coisa bem divertida a
meu respeito, entremeando meu causo com uns risinhos de índio. Confesso que
senti uma ponta de receio, pois me passou pela lembrança aquela piadinha da
Baronesa quando telefonei para xingá-la – Cuidado aí com os
antropófagos! – justamente naquele trecho do meu relato em que eu
descrevia um ancestral deles se deliciando com uns bagos de bispo mal passados.
-- Vai que eles ficam
mucho lôcos com esse bagulho aí e inventam de reviver os velhos tempos... Eu,
hem?!
Olha, vou dizer
pra vocês – E. T., o extraterrestre, não faria mais sucesso que eu se descesse
ali naquela noite. Sem falsa modéstia, abafei. A noite foi minha. Virei irmão,
embora só na manhã de domingo eu ficasse sabendo a verdadeira causa das
risadinhas.
Baseados – sem
trocadilho – na minha aparência física antes da funilaria do bruxo Tserenh,
escolheram para meu batismo indígena o nome Tapi-Õhan, o Anta
Velha.
E não me debochem, não;
havia outro motivo para esse nome, o qual, aliás, me granjeou total
fraternidade deles: eu possuo um lindo nariz. Isso mesmo que vocês leram:
ficaram muito bem impressionados com meu apêndice nasal, digno de um antigo
chefe respeitadíssimo, há muito habitando o Campo do Céu, juntinho de Ci, a Mãe
do Mato. Então me respeitem; meu nariz de anta, com as napas que eles têm, não
seria admirado ali sem mais nem menos, devia ser mesmo notável, altamente
conspícuo.
Se eu quisesse, poderia
ficar morando ali. Na certa acabaria pajé (no mínimo cacique), mas nunca
apreciei Claude Lévi-Strauss ou Darcy Ribeiro a esse ponto, de modo que voltei
para casa na segunda-feira depois do almoço. No mesmo aeroplano da ida e com os
mesmos copilotos. Dessa vez, entretanto, tive o cuidado de fazer o Ângelo (meu
anjo-da-guarda) subir na frente, sob ameaça de trocá-lo pelo Anta Malvada; como
garantia, exigi que ele fosse rezando ave-marias até descermos em São Paulo –
já que era meu anjo-da-guarda, que me guardasse, ora bolas!
No final das contas a
viagem valeu, se não por outras razões, ao menos porque eu – Tapi-Õhan – fui
brindado por Mavutsinim com um belíssimo nariz, saibam disso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário