Não
é possível discutir qualquer coisa a respeito de J. S. Bach em nível
suprafacebookiano sem alguns pré-requisitos, realmente indispensáveis:
1. Conhecer uma sua
biografia decente, sem a montanha de lendas e mitos que constam da maioria dos
textos a respeito;
2. Conhecer razoavelmente a obra de Machaut, Monteverdi,
Buxtehude, Rameau, Vivaldi e Lully;
3. Dominar absolutamente o contraponto modal do
século XVI, conforme codificado por Pierluigi da Palestrina; também ajudaria
conhecer o contraponto de Fux em “Gradus ad Parnassum”;
4. Estudar muito e seriamente a “A Arte da Fuga”.
Dá
trabalho, cansa, e pode demorar um pouco. Os dois primeiros itens podem ser
cumpridos em médio prazo, dependendo apenas da disponibilidade de tempo,
intelecto e honestidade intelectual daquele que deseja fazer isso. Eu levei uns
20 anos, mas não sou referência: preguiçoso e interessado em miles outras
coisas além de Bach (particularmente violão, jazz e mulheres, nem sempre nessa
ordem).
Quanto
ao ítem 3, posso contar que demorei só 7 anos – e digo “só” porque, me
afirmando aqui como referência (e aceitando provar isso a quem quiser), sei que
não dá pra fazer em menos tempo. Transcende as questões de dedicação, talento
ou Q.I.; simplesmente não dá.
Sobre
o último ítem não sei dizer de quanto tempo se necessita: não conheci ninguém
que tenha afirmado saber tudo sobre as 14 fugas e 4 cânones que compõem a peça.
O próprio autor usou seus últimos 9 anos de vida revisando a obra, mas nem ele
conseguiu dizê-la acabada.
Koellreutter
regeu-a inteira mais de 50 vezes, com formações instrumentais diferentes (o
autor não indicou nada além das notas), e lamentava aos 70 anos que não ia dar
tempo de conhecê-la (morreu com 90 e, que me conste, não deu mesmo). Euzinho
instrumentei todas, algumas várias vezes, ao longo de uns míseros 20 anos, por
isso sei hoje delas ao menos o bastante para fazer certas afirmações, como
esta: Bach é Deus.
A
propósito, a frase não fui eu quem inventou (é atribuída a Beethoven); apenas
gosto de repetí-la, mas só pode me chamar de papagaio quem tiver chegado ao
ponto final do ítem 4 – eu me sentiria muito burro se aceitasse discuti-la com
alguém que não pudesse demonstrar que chegou a esse ponto.
Na
muito duvidosa hipótese de que alguém terminasse a listinha propondo questionar
essa divindade a partir de “Jesus, Alegria dos Homens”, eu pediria mais um
chope e passaria a conversar sobre o efeito dos raios gama nas margaridas do
campo. Ou então diria:
—
Hmm... Vamos de novo, da cappo.
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