terça-feira, 28 de maio de 2013

06 - BACH É DEUS

Não é possível discutir qualquer coisa a respeito de J. S. Bach em nível suprafacebookiano sem alguns pré-requisitos, realmente indispensáveis:
1.    Conhecer uma sua biografia decente, sem a montanha de lendas e mitos que constam da maioria dos textos a respeito;
2.    Conhecer razoavelmente a obra de Machaut, Monteverdi, Buxtehude, Rameau, Vivaldi e Lully;
3.    Dominar absolutamente o contraponto modal do século XVI, conforme codificado por Pierluigi da Palestrina; também ajudaria conhecer o contraponto de Fux em “Gradus ad Parnassum”;
4.    Estudar muito e seriamente a “A Arte da Fuga”.

Dá trabalho, cansa, e pode demorar um pouco. Os dois primeiros itens podem ser cumpridos em médio prazo, dependendo apenas da disponibilidade de tempo, intelecto e honestidade intelectual daquele que deseja fazer isso. Eu levei uns 20 anos, mas não sou referência: preguiçoso e interessado em miles outras coisas além de Bach (particularmente violão, jazz e mulheres, nem sempre nessa ordem).
Quanto ao ítem 3, posso contar que demorei só 7 anos – e digo “só” porque, me afirmando aqui como referência (e aceitando provar isso a quem quiser), sei que não dá pra fazer em menos tempo. Transcende as questões de dedicação, talento ou Q.I.; simplesmente não dá.
Sobre o último ítem não sei dizer de quanto tempo se necessita: não conheci ninguém que tenha afirmado saber tudo sobre as 14 fugas e 4 cânones que compõem a peça. O próprio autor usou seus últimos 9 anos de vida revisando a obra, mas nem ele conseguiu dizê-la acabada.
Koellreutter regeu-a inteira mais de 50 vezes, com formações instrumentais diferentes (o autor não indicou nada além das notas), e lamentava aos 70 anos que não ia dar tempo de conhecê-la (morreu com 90 e, que me conste, não deu mesmo). Euzinho instrumentei todas, algumas várias vezes, ao longo de uns míseros 20 anos, por isso sei hoje delas ao menos o bastante para fazer certas afirmações, como esta: Bach é Deus.
A propósito, a frase não fui eu quem inventou (é atribuída a Beethoven); apenas gosto de repetí-la, mas só pode me chamar de papagaio quem tiver chegado ao ponto final do ítem 4 – eu me sentiria muito burro se aceitasse discuti-la com alguém que não pudesse demonstrar que chegou a esse ponto.
Na muito duvidosa hipótese de que alguém terminasse a listinha propondo questionar essa divindade a partir de “Jesus, Alegria dos Homens”, eu pediria mais um chope e passaria a conversar sobre o efeito dos raios gama nas margaridas do campo. Ou então diria:
— Hmm... Vamos de novo, da cappo


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