Sempre achei que a primeira qualidade de um
advogado seria conhecer bem as leis. Ingênuo engano: a competência de um
causídico começa por ter boas orelhas. Em alguns casos, ele pode até ser
incompetente, desde que escute muito bem as coisas que são ditas numa
audiência.
Supondo que esta minha opinião possa ser aceita
como abalizada, já que frequentei três audiências – como autor, testemunha e
réu –, penso que deveria existir, prévio a qualquer outro, um código dos
conceitos significativos da Justiça. Por exemplo: audiência. O que vem a ser uma audiência?
Imagino que se aprenda em qualquer Faculdade de
Direito, seja no Largo de São Francisco ou em Xiririca da Serra ou na Bacia das
Almas, o que seja uma audiência, portanto não duvidava que qualquer advogado,
mesmo o mais merreca deles, soubesse o que é uma audiência. Claro que nós, os
leigos, que andamos tão desprotegidos dos crimes quanto à mercê da Justiça,
supomos muitas coisas, e são vãs suposições, bobinhas, quase idiotas.
Pertenço a uma família que, há gerações, tem
profissionais na área do Jurídico – juízes, procuradores, delegados,
serventuários, advogados. Cito isto para lembrar um axioma que ouvi diversas
vezes da boca desses parentes: ninguém
pode alegar ignorância da Lei. Em outras palavras, a Justiça estabelece,
como princípio jurídico, que todas as pessoas conhecem todas as leis em vigor,
tintim por tintim, pela bastante razão de que uma lei se torna conhecida no
exato momento em que é publicada nos Diários Oficiais.
-- Mas eu não
sabia!
-- Azar seu;
soubesse.
Transgrediu a lei, tá ferrado. Bem, isso se você
for brasileiro e não for membro do Poder Executivo, nem do Legislativo, nem do
Judiciário, porque aí você já estaria perdoado pela simples razão de que não
existem crimes nem contravenções para esses cidadãos. Na França de Luís XVI
também era assim, ao menos até que pintou na parada um tal Dr. Guillotin, médico
e prático.
Ao mesmo tempo que presume tão fenomenal memória,
impensável senão numa onisciência verdadeiramente divina, a própria Lei garante
e até obriga que um acusado seja assistido por um especialista n’Ela,
devidamente autorizado pela única confraria legal que o abriga, a Ordem dos
Advogados. Está no dicionário: advogar (do
latim advocare) 1 Defender em juízo; 2 Interceder a
favor de; 3 Defender com argumentos ou razões. Se alguém é acusado de
ter feito alguma coisa ilegal, precisa de alguém habilitado a defender sua
inocência ou atenuar uma eventual condenação de sua culpa.
Eu sei que isso tudo pode parecer papo furado, mas o furo fica muito mais
embaixo (mais exatamente no cu) quando – entrando numa audiência em que você é
o réu – seu advogado lhe conta que esqueceu em casa o aparelho de surdez. Ora, audiência tem etimologia no latim audire, que significa ouvir, escutar os
sons. Óbvio, não é? Mas se você, que é chamado ali de o réu, não tem o hábito de comparecer às barras dos tribunais na
condição de acusado, por certo não tomará tal declaração de esquecimento com a
mesma naturalidade de quem esqueceu de pagar a conta do telefone na data do
vencimento. Convenhamos que ouvirá isso como uma coisa bem assustadora, de modo
que este panaca aqui ainda perguntou a ele se não tinha jeito de enrolar – verbo derivado do latim rotulus, que é qualquer coisa de forma
cilíndrica e um tanto alongada, tipo um cacete –, enrolar ao menos o tempo
suficiente para alguém ir correndo à casa dele buscar o aparelho do cátso – do italiano popular cazzo, que também é uma coisa de forma
cilíndrica e um tanto alongada.
Pelo sorriso que recebi como resposta, do tipo que
se dá a cretinos e ingênuos, preferi pensar que a minha causa era tão fácil que
nem precisaria de um advogado, quanto mais de um advogado que, além de
pertencer à Ordem dos Advogados, tivesse o precioso dom da audição. Êta mania
besta, essa minha, de pensar!
Quando entrei na sala de audiências eu estava mais
bonito que um advogado em dia de formatura: terno de tropical inglês, gravata
italiana, prendedor de ouro no colarinho alla
Harvard, mui guapo mesmo. Sentado à minha frente, do outro lado da mesa, o
Excelentíssimo Senhor Vereador que me processou, todo fodido: camisa verde com
listas azuis de um palmo, colarinho revirado por cima da lapela de um paletó
cor de abóbora, botão faltando em cima do barrigão, cara ensebada, um nojo! Aí fiz
um pensamento positivo:
-- Dona
Justiça, mesmo cega e até surda, deve ter no mínimo olfato, pôxa! Givenchy
versus CC, meu caro Meritíssimo há de sentir o cheiro da verdade, é ou não é?
A coisa acontecera numa grande cidade do interior
paulista, onde eu resolvi experimentar uma Faculdade de Jornalismo enquanto
espairecia do baixíssimo nível da música brasileira naquele momento. Logo me
meti no Centro Acadêmico, no honorífico cargo de Diretor de Imprensa, com total
poder sobre uma mesa, uma cadeira, máquina de escrever e mimeógrafo. Já por ser
coprofóbico de nascença – doentia aversão por cocôs e políticos –, meu negócio
ali não era fazer carreira de nada; queria só organizar o serviço de apostilas
dos diversos cursos e publicar um jornalzinho semanal divertido.
Talvez vocês não imaginem, como eu também não
imaginava quando cheguei lá, o volume de dinheiro que entra e sai numa
organização particular de ensino, ainda mais quando era iminente tornar-se uma
universidade; é algo espantoso. Não menos espantoso era o famélico empenho dos
grupos políticos que queriam botar as patas no negócio, coisa mais feia que
briga de foice no escuro. Ocorre que a ala fascista da Câmara Municipal,
sustentada por um fortíssimo lobby, não
tinha tempo a perder: era preciso derrubar o Conselho da Fundação mantenedora
das Faculdades antes que o Ministério da Educação autorizasse os cursos que
transformariam aquilo em Universidade, ou seja, antes que o ditador de plantão
– General João Figueiredo – entregasse a rapadura. Para tanto escolheram como
boi-de-piranha o Vereador menos votado na eleição anterior, com pouco mais de
quinhentos votos obtidos como candidato da oposição, aliás mudando de partido
no dia seguinte à posse, o safado (detesto pleonasmos, mas às vezes deixo
escapar um). Notório na cidade pela quantidade de álcool que ingeria e pela
grandeza de seus chifres, ele ficou muito envaidecido com o bovino encargo de
ruminar discursos atacando a competência dos diretores e administradores da
escola. Toda segunda-feira era a mesma lenga-lenga, o mesmo nóis vai nóis fica, metendo o pau em
Deus e todo mundo. Ora: além de os professores serem quase todos excelentes
(inclusive alguns da USP, PUC, UNICAMP) eu estava ali para obter um diploma
decente no final do curso, e achei que era minha função rebater as papagaiadas
do homem em nome dos acadêmicos, até porque o presidente do Centro Acadêmico
era um bostinha, um cagão (anos depois eu saberia que era também informante do
Serviço Nacional de Informações, a Gestapo tupiniquim).
Escrevi diversos artigos nos quais mandava Sua
Excelência caçar sapo com bodoque em vez de ficar subvertendo pacíficas
comunidades estudantis. Se havia trambiques, ele que fosse gastar sua baba
etílica numa Delegacia de Polícia ou no Ministério Público. Revendo a coisa de
hoje, até sinto um certo constrangimento quando lembro de Sua Excelência
desfilando seus galhos pelas praças da cidade ao lado de uma esposa que poderia
ter feito parte de alguma lista das “Dez Mais Certinhas” que Stanislaw Ponte
Preta publicava anualmente na revista Fatos & Fotos. Acreditem que não digo
isso por despeito, sentimento de vingança ou inveja pela mulher que lhe
plantava os excelentíssimos cornos na testa; ele era mesmo uma triste figura.
Se eu fosse burro, não teria passado em primeiro
lugar no exame vestibular para aquela Faculdade. Se eu fosse burro, não teria
gabaritados os exames de História e Inglês. Se eu fosse burro, não teria ganho
uma bolsa de estudos integral por quatro anos. Se eu fosse burro, não teria
trazido você, leitor, a este parágrafo da crônica. Se eu fosse burro, não teria
aproveitado a passeata dos calouros na Semana do Trote para fazer parecer que
mais de mil alunos estavam ali reclamando que o Poder Judiciário impedisse a
veiculação de assuntos que não eram políticos, mas legais, e cuja discussão
pública era usada apenas para denegrir as Faculdades. E, finalmente, se eu não
fosse um jumentíssimo burro, teria recusado assinar meus artigos num jornaleco
local, onde, entre outros elogios, chamava Sua Excelência de paranoico.
O Vereador em questão não sabia que eu era
psiquiatra amador, ou então não concordou com meu diagnóstico; sei dizer que se
ofendeu. Ficou brabo, o hóme, mais ainda porque dispunha de imunidade
parlamentar e podia ter um bom advogado, pago pelos contribuintes, além de um
Promotor Público com duas orelhas em ótimo estado.
Quando contaram a ele que paranoico é uma coisa mais feia que filho da puta, o homem me processou com base na Lei de Segurança
Nacional, e fez um discurso pelo rádio me chamando de forasteiro subversivo,
possivelmente um comunista, um verdadeiro tumor maligno naquela sociedade
tradicional, familial e proprietarial – foi o que ele disse, está lá, nos anais
da Câmara e no meu. Minha sorte, se isso pode ser chamado de sorte, foi a coisa
toda ter acontecido justamente numa época da História Pátria em que uma bomba,
preparada para explodir durante um show de artistas libertários, acabou
estourando antes da hora, arrancando o escroto de um milico e matando o outro
que estava com ele na função de terrorista-auxiliar, com isso deixando o
General-tirano em palpos de aranha para segurar a barra de uma abertura
política que se tornava inevitável, e não querendo mais prender nem arrebentar
ninguém, muito menos ouvir falar na tal Segurança Nacional – não via a hora de
pegar o seu boné e trocar o cheiro de carniça em Brasília pelo perfume dos
cavalinhos em seu sítio. Por isso, acabei sendo processado somente com base na
Lei de Imprensa.
Nessa época eu não sabia como funcionava a
imprensa, nem a Lei de. Também não sabia que existia um artigo 372 no Código
Penal, com suas cominações a outros artigos precedentes e subsequentes, sem
contar os textos ulteriores em apêndices diversos. Em resumo, eu ignorava a
Lei, já se viu uma coisa dessas?! Pois é como estou contando: se existe uma profissão
para profissionais, essa profissão se chama Advocacia; amador e charlatão não
tem a menor chance. Se eu fosse Ministro da Educação, obrigava todo mundo a
fazer Faculdade de Direito antes de cursar qualquer outra, porque isso, no
Brasil, é quase tão importante quanto saber ler e escrever. Bem... vinte anos
depois eu saberia que ler e escrever não é tão importante assim, ao menos para
quem tem a pretensão de ser apenas presidente da República.
Feliz ou infelizmente, meu advogado foi patrocinado
pela Faculdade; afinal, fôra em defesa dela que eu me metera naquela fria.
Deram-me um dos melhores, tão brilhante que estava de tramoia com um dos grupos
desejosos de assumir os negócios ali. Mas os diretores não sabiam disso, e eu
não sabia que ele era surdo.
Após as formalidades iniciais, realizadas logo que
o Juiz saiu de sua salinha anexa (onde decerto fôra soltar um pum, aliás
voltando com uma cara de quem não fôra bem sucedido), Meritíssimo deu uma
olhada com ar de tédio para os autos do processo, cochichou qualquer coisa com
o Promotor e, sem me olhar, perguntou:
-- Seo
Aranha: o Senhor escreveu que o Vereador Fulano de Tal é paranoico?
Que pergunta besta, meu Deus! Por acaso eu estaria
ali se tivesse escrito que Sua Excelência era um bonito vereador?! Ché, aquilo
estava começando mal...
-- Escrevi,
Meritíssimo.
-- Quer dizer que o Senhor conhece o significado de paranoia.
Ôpa! Ele está induzindo o Réu, não está? Pode
isso?! E olhei para o meu advogado, que lançou-me um sorriso simpático.
Pigarreei, engoli uma gosminha que estava começando a se formar na minha
garganta, olhei para a cara feia do Juiz, olhei de novo para aquele que deveria
estar ali me defendendo da Inquisição, ele sorriu de novo e balançou
afirmativamente a cabeçorra de mocorongo. O que queria dizer aquilo – que era
pra eu responder “sim” ou que “sim, você está fodido”? Pensei em
perguntar-lhe através da linguagem manual dos surdos-mudos, que eu aprendera
num folheto comprado na estação rodoviária para fazer caridade a um gurizinho
surdo-mudo (pelo menos não deu um pio enquanto me vendeu o tal folheto), porém
receei que aquilo não fosse um procedimento aceitável; então, seja o que Deus
quiser:
-- Conheço,
Meritíssimo.
Fez-se aquele silêncio que a gente imagina melhor
se for acompanhado pelo adjetivo espectral.
E a pausa foi ficando longa demais – achei que o Juiz esperava uma resposta
mais... animada, sei lá. Aí comecei a sentir umas contrações no músculo
períneo, aquele que segura as coisas lá embaixo.
Conquanto suspeito por repetir isso, já contei que
minha família tem uns causídicos de primeira classe. Então conto-lhes mais: eu
os ouvi muitas vezes dizer que todo réu, em princípio, é burro – ou não seria
réu, ora bolas! E, quando um burro fala, os outros devem ficar quietos, diz o
ditado popular. Em jargão juridiquês isso quer dizer que o réu só deve dar
respostas lacônicas, para não correr o risco de parecer mais burro do que já é,
e também deve ser rigorosamente objetivo, a menos que seu advogado, antes da
audiência, tenha ensaiado com ele o roteiro de uma farsa burlesca, com as
“falas” bem decoradinhas e uma perfeita “marcação de cena” para eventuais
lágrimas ou explosões indignadas, essas coisas. Pois bem: (1º) Meritíssimo
afirmou que eu sabia; (2º) eu já era burro o bastante para estar ali com o
título de O Réu; (3º) eu não ia passar recibo de ignorante a ponto de negar que
conhecia o significado de uma palavra que usara para qualificar o carinha que
me processou; (4º) respondi que sabia. Ponto. PT, saudações. Certo?
A próxima fala cabia a ele, ou então o Promotor
protestava, ou meu Beethoven jurídico fazia um discurso – não sei, não estudei
Direito, sou apenas o vilão do filme, e um vilão não precisa de muitas falas,
vai se ferrar no fim, mesmo!
Como todo Juiz se considera o suprassumo da
quintessência intelectual da humanidade, finalmente dignou-se a brindar-me com
um olhar majestático e perguntou, com cara de extrema infelicidade:
-- Quer
definir para nós?
Ah, aquele jeito dele fazer a pergunta, com a mesma
imponência de um Jeová dizendo “Fiat
Lux”, mexeu comigo:
-- Esse peidorreiro tá achando que eu sou um anarfa qualquer, meu! – pensei com os lindos botões da minha camisa de réu.
Me revoltei: dei logo quatro definições, com o
requinte de deixar uma de Richard Laing para o gran finale, porque esse é muito mais louco do que Sigmund Freud,
Wilhelm Reich e Jacques Lacan juntos. E ainda me corrigi no epílogo, para ficar
mais convincente:
-- Rigorosamente, não se trata de definições, Excelência, porém de
conceitos clínicos, aliás questionados pela Sociologia e até por certos
segmentos da Psicologia contemporânea.
Tá pensando o quê!? Se aquilo fosse um filme, não
seria essa uma boa hora para soarem os quatro tchans da Sinfonia do Destino?
Crente de ter agradado pacas com meu notável saber
psicopatológico, pensei que aquilo encerrava o caso, mas esse meu pensamento
foi do tipo que os pedagogos chamam “pensamento mágico”, muito normal em
crianças com até oito ou nove anos, só que eu já passara dessa idade. Seja como
for, isso foi o que pensei, tanto que olhei para a porta principal e fiquei
aguardando a entrada de Hélio Bicudo com as provas definitivas da minha
inocência, provavelmente uma tese do próprio Jacob Moreno afirmando que
politiquinhos paranoicos gostam de camisas listadas e paletós cor de abóbora.
Pena que meu Meritíssimo não estivesse com humor
para pensamentos mágicos nem para qualquer espécie de conceito que não o
fizesse esquecer a maldita feijoada com torresmo que tinha comido no almoço.
Cochichou de novo com o Promotor (tinham mesmo cara de intrigantes, os dois),
depois com o Escrivão, e voltou para sua saleta anexa.
-- Tomara que ele consiga... – desejei
sinceramente.
Ficou um meio-silêncio cavernoso. O Promotor
confabulando com o Escrivão, o Vereador fofocando alguma coisa com a esposa, e
eu ali, que-nem um pazzo, sem ninguém
pra me escutar, como um pobre coitadinho... até porque os surdos devem ver o
mundo da mesma maneira que os não-surdos vêm peixes num aquário, portanto, se
eu berrasse, era possível que o meu “defensor” começasse a cantar em dueto
comigo, e além do processo por injúria eu acabava levando outro por desacato à
Justiça, ou ao decoro parlamentar, ou ao cátso, sabei-me lá. Só sei que me
resignei a ficar sozinho com minhas inquietações e angústia, quietinho e
murcho.
Meritíssimo começou a demorar... Hmm, aquilo não
estava me cheirando bem... Foi-me dando uma certa ansiedade e eu, tentando
aliviar as inevitáveis paranoias de qualquer réu primário, comecei a observar
detalhes do cenário onde rolava meu dramazinho particular – pois “a dor da gente não sai no jornal”, já
disse um sambista. Foi quando notei, em cima de uma estante, aquela estatueta
da Justiça Cega, com a venda nos olhos. Eu não sabia se ela era mesmo do jeito
que estava ali, nunca tinha reparado: a balancinha dela pendia explicitamente
para um lado.
-- Puta que o pariu!
Nem a balança de pesar varejos no armazém de meu
avô Fritz, cujo fiel vivia sendo
consertado com uma gambiarra de arame para que nenhum freguês jamais fosse
lesado em um grãozinho sequer, me traz uma lembrança mais melancólica do que a
balança daquela estatuínha que presenciou meu julgamento por injúria, difamação
e calúnia.
Pergunto: se ela é cega, pra que a venda nos olhos?
Hem?! Alguém já viu cego usar um paninho amarrado nos olhos? Vá lá que um
pirata caolho use um tapa-olho, mas é um só; agora: nos dois olhos?! Pra quê?
Não sei, não... tô achando que é paia, jogo de cena, puro marketing para nos
vender uma imagem melhor que a verdadeira. E acho mais: acho que todo
magistrado com problemas de natureza gástrica, particularmente os
proctológicos, devia ter a decência de se desqualificar, ou ser afastado pelo
Conselho Nacional de Justiça, ou ser proibido de comer coisas fermentativas
antes de um julgamento. Considerando as evidências clínicas de que os
portadores de hemorroidas tendem a subverter a ordem do senso comum,
interferindo em níveis até mais profundos que o subconsciente de um
Meritíssimo, seus méritos ficam necessariamente prejudicados, podendo chegar ao
ponto de distorcer até os mais antigos postulados do Direito Romano. Por
exemplo: “In dubio, pro reu” pode
acabar se transformando na patafísica catilinária “Cos quae tandem abbutere
reum patientia mea”? Para o caso de vosso latim ser ainda pior que o
meu, dou aqui uma tradução livre:
-- Até quando esse réu vai me torrar o saco?
Pela cara que tinha quando retornou de seu recesso,
o meu Damoclezinho fôra mal sucedido nos assuntos que o levaram lá. O homem
estava cinzento, que-nem aquelas personagens que o Pica-Pau vive atormentando
nos desenhos animados, soltando fumacinha pelo cocuruto. Por isso que eu acho:
assim como a revalidação de carteiras de motorista exige exames periódicos da
vista, os julgadores deveriam expor periodicamente seus rabicós a uma
verificação colonoproctológica para verificar o estado anal de sua imparcialidade
jurídica. Isso seria também poderia ser encarado como um ato de humildade e de
reflexão existencial, isto é, experimentando com um cateter lubrificado aquilo
que os réus sentem a seco: a tal de pimenta no rabo dos outros.
Ou teria ele ido verificar se os conceitos
paranoides que eu dera estavam corretos? Não, isso não... Nenhum Juiz vai ter
um Manual de Psicologia no anexo, vai? Seráaa?! Bem, ele apresentava sintomas
de quem passa horas no trono... Mas mesmo assim: ler assuntos de psicologia na
privada já nem é caso para o Conselho da Magistratura, é psiquiátrico no duro.
Não; olhando melhor, meu Meritíssimo tinha mais cara de ser vidrado em palavras
cruzadas, que dizem ser o pior veneno pra quem sofre de hemorroidas. Enfim: ele
voltou e tomou assento no seu cadeirão – meio de lado, parecendo uma rainha que
pariu sua princesinha ontem e acaba de passar por uma perineorrafia. Vamos em
frente, que atrás sempre vem alguém à espreita da primeira tarraqueta
desatenta.
É claro que eu tinha inventado! Nem Lacan sabe três
conceitos diferentes de paranoia, duvido.
Se é que existe mais de um conceito, e se é que alguém se julga divino ao ponto
de estabelecer o que seja uma realidade
objetiva, pois nesse caso seria não só um paranoico como um megalomaníaco.
Quem quiser que pergunte ao Dr. Timothy Leary, porque eu sei lá, sou psiquiatra
amador, já disse; não ganho nada com isso e nem ao menos tenho
samambaias penduradas no meu escritório.
E fui condenado.
Aposto que vocês esperavam um final surpresa no meu
julgamento, hem, seus românticos?! Queriam um final feliz, não é?! Pois sim;
agradeço o interesse mas, na chamada vida
real, eu tinha 72 horas para pagar uma multa de dez salários mínimos, que
Mamãe me emprestou a fundo perdido. Só não me cassaram o registro na Associação
Brasileira de Psicanálise porque eu não era registrado nela. E em nenhuma
outra, que fique bem claro, porém me demiti simbolicamente assim mesmo, para
garantir que não tornaria a publicar meus diagnósticos sem prévio aval de um
bom advogado – cujos dotes auditivos eu terei o cuidado de verificar
previamente.
Eu talvez pudesse, entre outras medidas legais,
recorrer da sentença com base no artigo 446 do Código Civil – surdos-mudos, sem educação que os habilite a
comunicar precisamente a sua vontade (...) – porém, mesmo que eu tivesse
paciência e grana para pagar um outro advogado, possuidor de ao menos uma
orelha saudável, o que me garante que em outra audiência o Promotor não seria gay e amante do Juiz, apesar das
hemorroidas? E o que me garante que, mesmo chegando ao Supremo Tribunal
Federal, os ministros não firmariam jurisprudência sobre que sorrir é habilidade bastante para um
advogado de defesa comunicar precisamente a sua vontade? Ora: fodido ou fudido,
se é pra tomar no cu eu não preciso de um advogado me ajudando, pode deixar que
eu mesmo enfio sozinho. Perdoem os leitores minha grosseria; é que, só de
lembrar, eu fico puto. Então, com licença: estou absolutamente precisado de
dizer meu favorito para tais circunstâncias: ca-ra-lho !!!
Depois desse episódio enfronhei-me na Lei de
Imprensa e descobri que se eu tivesse dito que o homem era, digamos, um bedamerda, estaria cometendo menor
delito do que ao chama-lo paranoico, pois
aí seria injúria mas não difamação. Porém se eu dissesse que ele era um
grandissíssimo filho da puta, seria
pior ainda, calúnia – a menos que eu pudesse provar que a mãe dele “dava” por
dinheiro. Decididamente, essa tal Advocacia é coisa para profissionais, talvez
o mais perverso requinte da Lingüística.
Sou forçado a repetir: deviam conceituar audiência já no prefácio dos Códigos de
Processo, dado que não pode haver uma audiência verdadeiramente sonora se
alguém nela é surdo. Não custava nada fornecer-nos, ao rebanho ignaro que pasta
na planície sob os cuidados da Justiça nas colinas, quatro listinhas: palavrão
que ofende, palavrão que não ofende, palavrão que difama e palavrão que
calunia; então – e só então! – ninguém poderia alegar desconhecimento dessa
lei. Eu, por exemplo, não tive acesse a tal conhecimento, senão teria recebido
do Destino a oportunidade de escolher dizer – “O Vereador Fulano é muito antipático”, o que, imagino, tornaria as
coisas muito mais fáceis: ele me chamava de viado, eu metia a mão na cara do
vagabundo, e Mamãe teria comprado sua TV nova um mês antes. Honestamente, em
verdade vos digo que não entendo de leis; mal sou capaz de inventar três
conceitos aceitáveis de paranoia.
Charlatão, não; diletante, por favor! Mas, cá entre
nós, se eu soubesse que a multa era tão módica, tinha chamado ele de corno manso.
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