Edward Jenner inventou a primeira
vacina, contra varíola, em 1796. Hoje, 210 anos depois, deve ter vacina contra
tudo, até bicho-de-pé. Pelo andar da carruagem, podemos até prognosticar que
dentro de mais umas poucas décadas teremos vacina até contra políticos
brasileiros mentirosos, um vírus altamente epidêmico e letal. Essa será a
penúltima, porque é muito difícil de pesquisar, mas certamente será inventada
logo após criarem a vacina contra a morte.
Além das várias vacinas que os
postos de saúde dão de graça – quer dizer, pagas pelos nossos impostos –, de
cada consulta mensal à pediatra da Laura saímos com uma receita a mais,
indicando vacinas que nem existem por aqui. Por exemplo, uma de nome
Meningitec, que pode ser tomada em Caraguatatuba ou Taubaté mediante a módica
quantia de R$250 (por dose, é claro, sendo necessárias aplicações a cada
60 dias).
Outra é a Salk, contra poliomielite.
Foi inventada pelo Dr. Jonas Salk em 1955, e mais tarde substituída pela Sabin,
pesquisada pelo Dr. Albert Sabin em 1961, sendo que uma é grátis e a outra é
bem paga. Mas a diferença principal entre elas consiste no fato de que a antiga
usa culturas de vírus morto, enquanto a moderna usa vírus desativado.
Desativado "numas", porque 2 virusinhos em cada 10.000 dão
sempre um jeito de continuar bem vivinhos da silva. Com a primeira vacina,
o seu bebê absolutamente não terá paralisia infantil; com a outra há um pequeno
risco: uma em cada 5.000 crianças vacinadas pegará a doença, mas apenas
uma morrerá por causa dela.
Faço as contas para poupar-lhes o
trabalho: se você não der a vacina de vírus morto, seu filhote tem
insignificantes 0,0002% de chance de morrer ou passar o resto da vida
aleijado. Agora: cês acham que – por causa de míseros R$1.000 – um chupim,
marido de professora funcionária pública como eu, vai arriscar a vida do
seu nenê?! Ou ter uma filha paraplégica pro resto da vida?! Acham? E como
é que eu vou viver o resto da existência carregando a culpa do azar
de minha infortúita probabilidade, hem?!
Na semana passada teve mais uma
novidade a respeito: vacina Prevenar, contra pneumonia e mais seis doenças do
aparelho respiratório. Moderníssima, praticamente acabaram de inventar, ainda
nem foi bem globalizada. São só três doses mensais, à módica quantia de R$350
cada. Pode-se também, "caso a família não tenha previsto recursos
orçamentários para tal despesa" (sic), correr o risco de uma
pneumonia, esperando até a criança completar um aninho, quando então deveria
tomar uma única dose dessa soberba vacina.
Em econometria isso poderia ser dito
assim: se o seu filhote não morrer de pneumonia entre os 7 e os 12 meses você
terá economizado R$700; ainda em outras palavras, já terá economizado as férias
e o 13º da empregada. Não é mesmo muito bom?
Isto posto – que "minha
família absolutamente não tem recursos orçamentários previstos para tal
vacinação" – teremos que arriscar deixar a nossa Pacotinha
sujeita a uma pneumonia. Então vamos rezar para que ela não tenha tal doença,
ou para que Deus nos dê algum premiozinho na loteria antes disso, ou que o
Papito aqui arranje um dos 10 milhões de empregos que o presidento Lula da
Silva disse que vai criar nos próximos quatro anos de seu maravilhoso governo.
Ou ainda, pra não ter que pedir muito a Deus, que uma eventual pneumonia
não seja fatal, caso minha Pacotinha tenha uma antes
de conseguirmos obter os meios financeiros para comprar a tal vacina.
Hoje fomos a Caraguá para dar a
última dose dessa Meningitec. Aliás, não é propriamente a última, pois deverá
ser reforçada quando a Laura fizer cinco anos – se bem que, até lá,
provavelmente estaremos tão ricos quanto o país de Primeiro Mundo que
resultará do segundo governo de Lula da Silva, de modo que não precisaremos nos
preocupar durante os próximos quatro anos.
O comércio de vacinas deve ser
promissor, ou um famoso médico daqui não teria mudado sua clínica para a cidade
vizinha por razões de ordem mercadológica, quais sejam um nível médio de renda
muito maior que Ubachuva e uma população também maior, portanto permitindo a um
bom especialista ganhar muito mais dinheiro (como de fato se verificou, o que
sinceramente estimo). Acho justo que um médico, após 6 anos de faculdade e
no mínimo 3 de residência, ganhe bem, e faço este registro para não parecer que
eu esteja insinuando achar isso por qualquer forma indecente; não acho,
não, por isso não sejam maldosos! Caso lhes tenha passado pela cabeça uma tal
aleivosia, só posso pensar que vocês estão brasileiros demais; cuidado, suas
mentes estão sendo corrompidas, ou vocês já viraram petistas e nem sabem!
Estou falando de vacinas, e faço
estes comentários só para explicar melhor por quais razões as igrejas ditas
evangélicas crescem tão assombrosamente, aliás na razão logarítmica do
crescimento do PIB brasileiro. Entenderam? Nãããooooo?! Ora: se há três opções –
médico particular, SUS, e Igreja Universal do Reino de Deus... Aah, eu sabia
que vocês eram muito inteligentes!!! Bem... se ainda assim não entenderam,
lamento; sugiro que tratem de fazer umas aulas sobre economia e sociologia,
pois ou são muito ignorantes ou são mesmo muito burros, então não tem jeito,
não posso fazer nada, procurem um cirurgião que faça transplantes de cérebro. E
agora me deem licença: vou rezar.
Não, seus bobinhos, não vou rezar
pra pedir saúde para minha Pacotinho, não – ela é da geração índigo, vem
de outras galáxias, mais forte que a Pedrita do Fred Flintstone, já chegou
abençoadíssima por Deus; vou é dar graças ao Todo Poderoso por
ter sobrevivido 60 anos só com duas míseras vacinas, contra varíola e
tuberculose (aliás, a segunda não adiantou nada).
Em tempo: quando fomos a Caraguá,
pra dar vacina na Laura, ficamos sabendo que inventaram uma nova, que nos foi
mostrada pela enfermeira numa revista americana especializada. Chama-se HPV e
será lançada brevemente aqui, para fêmeas entre 10 e 26 anos, para receita
por ginecologistas. É contra herpes genital, portanto para fêmeas que
farão sexo sem camisinha com seus parceiros altamente confiáveis.
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