terça-feira, 28 de maio de 2013

13 - CHAPLIN E EU

Charlie Chaplin tinha 73 anos quando nasceu o último de seus oito filhos com Oona, 36 anos mais nova que ele – filha de Eugene O’Neill, o primeiro americano a ganhar um prêmio Nobel de literatura. Quando isso foi noticiado nos jornais, tive uma discussão muito desagradável com um de meus tios por causa de um comentário dele, mais ou menos assim:
-- Será que o velho vai conseguir brincar de cavalinho com o guri?
Claro que é preciso um motivo muito forte para alguém lembrar de uma briguinha boba dessas; por exemplo, alguém que, aos 59 anos e dois netos já grandinhos, recebe a notícia de que sua mulher está grávida. Por exemplo, euzinho.
 Fiquei pazzo o dia inteiro, macambúzio, meditando e tentando absorver psicologicamente o que isso representaria na minha vida. Daí passaram-se 9 meses, depois mais 6 meses, e hoje a Laura usou pela primeira vez um boné vermelho especialmente bom para passear comigo de manhã cedinho, quando o sol bate oblíquo, vindo do mar, naqueles olhinhos brilhantes de jabuticaba, e para usar sentada na cadeirinha do carro quando vamos levar e buscar a Mamãe nas escolas onde trabalha. 
A Pacotinha é ótima, cada dia mais saudável e linda e simpática, mas comigo ela só fica no colo ou em pé, enquanto que com a Mamita ela passa horas brincando na nossa cama, ou sossegada no carrinho, ou mamando calmamente e dormindo aqueles longos períodos que os bebês dormem. Carregando-a no colo duas ou três horas por dia, já tive uma bursite e já sarei da bursite, por falta de opção. Estou tentando evitar que ela precise ficar numa creche, vendo se consigo dar conta do papel de mãe interina durante as ausências da mãe efetiva. Como as escolas onde Mamãe leciona são bem próximas de casa, quando a coisa apertar posso correr em busca de socorro, como última instância – à qual já recorri no primeiríssimo dia, conforme lhes conto a seguir. Por causa disso quero pedir, a todos vocês, altos pensamentos positivos para eu conseguir dar conta do recado. A fim de sensibilizá-los melhor e mostrar-me verdadeiramente merecedor de vossas elevadas preces, conto-lhes o que foi esse meu hoje, o primeiro hoje do resto da minha vida. Hoje, em meu primeiro dia de mãe, fiquei cuidando dela só das 8 às 10, pois a mãe efetiva tinha apenas reunião numa das escolas. Só não esqueçam que ela tem 5 meses e eu tenho 722.
Nossa! Foi um baile, tomei de goleada, no mínimo uns 8x0. Mas vamos por partes. Primeiro deixamos lá a Professora e fomos passear um pouquinho de carro, depois andamos a pé pelo bairro, saracoteamos na cama, assistimos um filme de golfinhos no canal Rá-Tim-Bum... Eram 08:50 quando ela se encheu disso tudo e começou a reclamar. Ué! Será que o relógio parou?! Mas se faz umas duas horas que estou sozinho com ela neste mundão de Deus, como é que o relógio só andou cinquenta míseros minutos?! Bem, contra fatos da Física não há argumentos, a menos que seja Física Quântica; não sendo este o caso, então era hora de mudar a estratégia. 
Como não fiz essas coisas com meus dois filhos hoje adultos, não sei se a fralda estava ou não estava com xixi (fraldas modernas enganam a gente), portanto resolvi trocar assim mesmo – ao menos era uma atividade diferente, além de ser para mim um enorme desafio existencial. Até que troquei legal, modéstia à parte, embora tenha me esquecido de esfregar aquela farinha depois de passar os lenços úmidos; porém só o que eu queria mesmo era trocar uma roupa que estava quente por outra mais fresquinha, presumindo que o calor seria a causa de sua inquietação. Ocorre que a roupinha leve que Maria Emília tinha deixado preparada, simplesmente não entrava na cabeça dela, e eu morrendo de medo de apertar a moleira; daí, quando consegui enfiar a cabeça, não conseguia fazer entrar os braços, receando destrinchá-la como se fosse uma asa de frango. Coisa de horror.
Enquanto fiquei nisso, Mademoiselle Laura, lindamente seminua, pinoteava no trocador, feliz da vida, achando aquilo tudo um grande barato, se esbaldando como se estivesse num baile de Carnaval, e jogando tudo no chão – algodão, fraldas, potinhos disso e daquilo, travesseiro, o treco de guardar a Maizena (acabo de lembrar a marca da farinha) – e eu segurando a bichinha com uma das mãos enquanto tentava, com a outra, manter um mínimo de ordem no meio do caos. Conquanto eu tenha uma envergadura de quase dois metros com os braços abertos, depois de uns 3 sofridos minutos desisti não apenas de arrumar alguma coisa como também de botar aquela roupinha.
-- Vou escolher uma outra, que seja bem folgada; ela deve ter alguma roupa tamanho GGX-plus, tipo pra criança de 5 anos, bem big.
Vou ao guarda-roupa dela. Cuja fechadura, com chave e tudo, saiu na minha mão. Aí, com aquela punkinha num braço e com o outro tentando arrumar a fechadura, eu tive a primeira vontade de chorar, já suando em bicas, coisa de horror. Até que achei uma peça de vestuário que tinha três botões na gola, como qualquer camisa de gente civilizada:
-- É essa! –  pensei.
Pensei e fiz, ou talvez deva dizer: pensei e quase fiz. Peguei a tal blusinha, decidi deixar o quarto na bagunça que estava – agora também com todas as portas e gavetas abertas – e também desisti do trocador, que é coisa pra quem já tem vasto know-how; resolvi botar a roupinha em cima da minha cama, que tem uma superfície enorme, pode chutar e pinotear à vontade. Só me esqueci de que, por outro lado, trocar um nenê animado assim, com 5 meses de idade, num local que fica a apenas 50cm do solo, não é exatamente o que um médico ortopedista recomendaria a quem tem hérnia de disco e uma criação de bicos-de-papagaio.
Mudei de ideia: o dia estava bem quente; minha temperatura, por exemplo, estava no mínimo em 41ºC, prestes a entrar em convulsão, a camisa molhada como se tivesse jogado 90 minutos, mais a prorrogação, num futebol de 10 contra 11 (sendo eu o médio volante do time com 10, quem manja um pouco de futebol sabe do que estou falando). Bem quente o dia... então ela fica mesmo só de fralda, ao menos por enquanto, e vamos dar uma papinha de banana nanica, que ela gosta pra caramba. Bem, eu acho que ela gosta, apenas não tenho certeza se é da banana que ela gosta ou da esbórnia que é dar papinha de banana nanica para um nenê totalmente eufórico. E rápida, essa menininha, um verdadeiro azougue, um ponta-esquerda daqueles baixinhos que vive dando canetas nos zagueiros. Além de alucinada, porque sempre conseguia botar as duas mãos na colherinha antes que eu conseguisse fazer a colherinha chegar até sua boquinha ávida de fazer meleca. Pois foi mesmo uma meleca, uma grande meleca, uma enoooorme meleca. Quase não comeu, mas fez uma meleca homérica, coisa de chanchada de circo.
Eu já ia chorar um pouquinho, só algumas lagriminhas furtivas, para aliviar a tensão, quando ela começou a ranhetear. Mimadíssima desde que era embrião, ela não chora, mas finge muito bem que vai chorar, sabe me deixar aterrorizado. Será uma grande dama do teatro, com certeza, igualzinho à avó Alice. Por certo também vai me chantagear sempre, descaradamente. Então segurei minhas lágrimas de crocodilo, enchi o peito e pensei:
-- Seja homem, Frederico! Cumpra seu dever com Deus, a Pátria e a Família! Anauê!!!
Ó, dor: agora hay que limpar tudo – a Laura, o edredom da minha cama, minha calça, meus braços, tudo e todos, ambos nós dois amplamente emporcalhados com papinha de banana nanica. Acho até duvidoso, agora que adquiri tal conhecimento técnico, que exista qualquer substância mais emporcalhante que papinha de banana nanica, exceto talvez alguma sopa de lesmas, coisa de horror.  Enfim, era melhor voltarmos ao trocador: bagunça por esbórnia, lá pelo menos minhas costas não doem tanto.
Após tufos e mais  tufos de algodão com água, quando já tinha conseguido um aceitável sucesso higiênico, olhei o relógio e eram 09:15. Portanto (pensei lá com meus botões) já segurei a onda por 75 minutos, sou praticamente um herói, de modo que faltam apenas míseros 45 minutos pra botar a Pacotinha no carro e ir buscar a messias salvadora na escola. Ora: descontando-se os 3 minutos que levo da minha casa até a escola andando em 1ª marcha, faltam só 42; descontando-se ainda uns 10 minutos que vou levar para conseguir vestir a roupinha que escolhi pra ela, faltam só... (aleluia, irmãos!) faltam só 32 minutos. Supondo-se, é claro, que eu sobreviva uma tal eternidade antes de ter mesmo alguma convulsão, posto que minha temperatura já devia estar chegando naquela em que se pode fazer um ovo cozido (mal passado, pra não parecer que exagero).
Espantei um mau pensamento passageiro, de que hoje é apenas o 1º dia do resto de nossas vidas. Mas eu não quero minha filhota na creche, ah, isso não!!! Tudo é know-how, caramba!  Se aprendi até logaritmo, não vou aprender a cuidar da minha filhinha?!  Ora, que poltrão eu seria deixando minha Felicidade entregue a terceiros numa creche!!! Filho a gente não terceiriza, de jeito nenhum, não tem reengenharia nem cabe certificado ISO-9002 num caso assim, vade retro!
A cabeça entrou com certa facilidade na gola com três botões. O braço esquerdo, não digo que foi fácil, mas em 3 ou 4 minutos consegui essa façanha, embora a roupa estivesse de tal modo descanhotada que precisei fazer um rápido cálculo geométrico para estabelecer uma tática sobre como é que o outro braço entraria no buraquinho da outra manga, coisa de no máximo 6 centímetros.  E por que é que não fazem roupas com enormes buracos para a cabeça e os braços e as pernas, hem?  O homem já foi e voltou da Lua, já descobriu a vacina contra varíola, escreveu toneladas de teorias sobre o Céu e o Inferno, compôs trocentas sinfonias, criou o computador, caramba, ninguém é capaz de inventar roupas vestíveis em nenês?  Mas que triste humanidade, meu! Não peço coisas fantásticas, não; apenas umas roupinhas com buracos suficientemente largos para um pai em deplorável estado psicológico e físico poder vestir seu nenê; é pedir muito?  É?!  
Até aí a Laura estava se divertindo bem, pois fora virada para cima, para baixo, para os lados, pelo avesso, de ponta-cabeça, porém agora começava a ficar com fome, e fome da Laura significa fome de leite materno (ela já sabe que os meus peitos são meros enfeites, uma bobagem, não servem pra nada). E, last but not least, leite materno significa leite da mãe: não é Ninho, não é Nan, não é Vigor, não é Light, não é Diet, não é Desnatado, não é porcaria nenhuma de leite senão leite ma-ter-no. E mamado em peito materno, nada de chupeta plástica – ela é um bebê ecologicamente correto. Daí que começou de novo a ranhetear, fazendo aquelas terríveis ameaças de choro, umas caretas de quem está vivendo o maior dos tormentos possíveis, coisa dantesca. Confesso que derramei ali duas lagriminhas.
Ah, lembrei: tratava-se de uma roupa cujo modelito recebe o estranho nome de bóri, tipo uma coisa que as mulheres antigamente chamavam de colan, muito prática, com dois trequinhos de abrir na região vulvar, fáceis de desabotoar em caso de necessidades prementes. Pois muito bem: eu sou capaz de desabotoar um colan, disso adquiri alguma experiência ao longo de uma longa e libidinosa vida, porém o caso aqui é muito diferente: trata-se de abotoar a porreta, e eu não me lembro de ter jamais ajudado fêmea alguma a vestir um colan ou abotoar um bóri, ignoro totalmente qualquer técnica concernente a isso. Afinal, por que não se vestem as crianças de hoje como se vestiam os senadores da Roma Antiga?  
Quer saber? Vai sem fechar mesmo! Peguei a Laura num braço, com o tal bóri enrolado pela cintura, e na outra mão peguei uma fralda de pano, mais a girafinha dela morder, mais o boné, mais um shortinho cor de rosa, mais aquele bendito colan feito pra ninguém vestir – ninguém que tenha uma cabeça de nenê, se é que vocês fazem uma idéia do tamanho da circunferência da cabeça de um nenê, inda mais um nenê tamanho família como o meu. Peguei tudo e fui pro carro e fomos buscar Mamãe, aquela santa bendita, aquele anjo salvador.
Nos cinco quarteirões do percurso não cruzei com nenhum camburão da Polícia Militar, felizmente, ou teria descido de braços para o alto, me entregava:
-- “Sou o chefe do tráfico na favela da Rocinha”. 
E a visão da Mamãe esperando-nos na porta da escola foi... foi... foi equivalente à alegria que vou sentir quando Jesus me abraçar na porta do Paraíso e disser:
-- Entre, meu herói.


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