Em seu 6º
dia de vida deu-se a primeira divergência pedagógica entre a mãe e o pai – as
orelhas da Laura: furar ou não furar, eis a questão. Então acho melhor avisar logo
ao mundo que só há três possibilidades de furarem a orelha dela:
1ª. passando sobre o meu cadáver;
2ª. quando ela atingir a maioridade legal;
3ª. quando puder falar com a própria boca:
-- Papito,
minhas colegas todas usam brinco, caramba, eu também quero, uai!
E tem que falar caramba e uai, pra
começo de conversa. Nesta
terceira hipótese ela vai ter que saber, antes de ir furar, que isso dói. E que
os médicos não recomendam. E eu não vou junto, pois não sou masoquista e nem quero
ser cúmplice de uma barbárie.
Em caso
de acusações à minha democrática pessoa, aviso desde logo que já estou
devidamente munido de trechos de teses de doutorado apresentadas em
universidades de vários países civilizados, condenando o uso de brincos,
piercings, tatuagens ou qualquer outra prática típica das sociedades primitivas
que seja agressiva ao importante órgão denominado pele.
A bem da
verdade, esse não foi o primeiro entrevero relativo à Laura, que ocorreu na
gestação, quando minha cunhada fez um projeto Feng Shui para o quarto dela. Minha
primeira sensação, que preferi não manifestar naquele momento, para não
magoá-la e por ser uma forma de carinho, seria dita assim:
-- Nossa, que horror! – Era tudo cor de rosa, meu! – Nem pensar.
Quero
todas as cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Como é
que o quarto de uma fada pode ter menos cores que o arco-íris?!
A
polêmica acabou extrapolando os limites domésticos, chegando a outros
familiares e amigos. Mandaram-nos mensagens, alguns telefonaram para opinar de
viva voz, consultaram conhecidos em outros países que, por sua vez, enviaram teses
acadêmicas... Ou seja, fiquei plenamente sustentado para me posicionar sobre o
assunto.
De uma amiga do peito:
-- Eu daqui do meu canto não dou
palpite. Achei muito ponderado o Ilmo. Sr. Pai da Laura. Acho que colocar
pulseirinhas etc. (até tornozeleiras ficam charmosíssimas) é uma boa. É capaz
até de lançar moda, porque a proposta tem it pacas. Eu aplaudo. Mas gostaria – acho que todos nós – de ouvir a
Ilma. Sra. Mãe da Laura, pra ficar mais democrático.
Da minha filha mais velha:
-- É melhor que fure agora,
porque mais velha é mais fácil pra inflamar!
De uma sobrinha:
-- Deixa ela furar a orelhinha!
É a melhor idade para isso... Pense como fazem com os meninos, a circuncisão
nesta idade é coisa comum... Pense que daí ninguém vai perguntar: "É menino?"
Resposta do Imperador Papito:
Ocorre que eu acho brincos, piercings,
tatuagens e outros balangandãs, coisas de trogloditas. Acho bonito nos
índios, mas índio é índio, né? Pra mim, brinco da Natureza é orelha.
Se eu deixasse furar as orelhas da Laura agora, quando somos eu e a
mãe quem precisa decidir tudo por ela, estaria sendo desonesto com minha
opinião e, pior, com minha consciência, posto que não sei se ela escolheria
furá-las caso já tivesse capacidade mental para escolher isso. Então
prefiro deixar que ela decida quando já puder verbalizar conscientemente seus
desejos, e aí não me oporei, porque se tratará de uma vontade explicitada por
ela própria. Talvez vocês tenham razão quanto a ser esta a melhor idade para
extravasar os primitivos instintos trogloditas que todos trazemos atavicamente
dentro de nosso inconsciente, mas eu não tenho certeza, apenas admito como
talvez. E talvez é pouco pra mim, pequeno demais para o tamanho do meu amor por
ela.
Outra coisa: na mesma medida em que pretendo ser um pai liberal,
pretendo também ser um pai capaz de formar uma filha que não faça coisas porque
seja moda ou costume, ou porque todo mundo faz, ou porque isso é assim desde
que o mundo é mundo; tenho pretensões pedagógicas maiores que isso. Também sei
que, agindo dessa maneira, serei freqüentemente chamado de arrogante e
repressivo e antiquado; se esse é o preço das utopias, vou pagá-lo. Meu sonho é
que um dia, na maturidade, minha filha seja o que for porque, em cada mínima
coisa, criticou e escolheu ser assim ou assado, totalmente livre, inclusive
daquilo que lhe foi passado porque
Papai ou Mamãe a ensinaram desse modo. Sou assim porque escolho ser
assim, é o que desejo para ela, compreendem?
Sobre circuncisão, não me consta que seja coisa comum. Aliás, fimose é
exceção, não a regra. Com bastante punheta, nenhum menino precisa de
circuncisão, a menos que seja judeu ou um caso de prepúcio patológico.
Já que Laura será uma menina sem brinquinhos, quando alguém
perguntar se é menino ou menina eu posso até mostrar a bucetinha dela
e pronto, tá definido o gênero, simples assim, sem qualquer dúvida
possível. Também não sei se ela, quando for sexualmente madura, escolherá
gostar de homens ou de mulheres – o que, pra mim, é absolutamente indiferente,
desde que ela sinta muito prazer. E, caso alguém diga
– Nossa, como ele é
bonitinho!
... eu sempre posso responder:
-- Ela é
lindíssima; bonitinho é o corno do seu pai.
Penso em tudo isso, e penso em muito mais. Exatamente porque penso em tudo isso, mantenho as
três hipóteses de furarem a orelha dela agora.
Também podem ficar lindas as correntinhas no pescoço e as pulseiras,
acho até mais elegantes e charmosas. Eu até tenho duas ou três
correntinhas de ouro, que nunca usei e agora pertencem a ela, porém correntes
são totalmente perigosas em qualquer pescoço, especialmente de crianças. Então
combinamos assim: não dou palpite nos costumes de ninguém mas, até segunda
ordem, a Laura fica só com o corpinho lindo que trouxe ao mundo.
Assim
falou Zaratustra. Então vamos à sentença transitada em julgado – para os não
afeitos à terminologia jurídica nacional, é aquela que não tem mais apelação em
nenhuma instância.
O Supremo Tribunal do Reino Zimmermann Aranha,
onde sou imperador por desígnio de Deus, decreta em última instância:
Laura não usa brinco nem colar.
Mais
tarde poderemos até reformar esta sentença; por agora, tornozeleira tá bom
demais, e só para ocasiões especiais. Por oportuno, conto que sempre gostei
mais das mulheres quando nuazinhas em pelo (o que nunca diminuiu meu gosto por
lingeries e outros fetiches).
Quem
quiser que fure seus filhos; minha filha não furo eu.
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