terça-feira, 28 de maio de 2013

14 - OS BOCUDOS E OS BOTOCUDOS

Em seu 6º dia de vida deu-se a primeira divergência pedagógica entre a mãe e o pai – as orelhas da Laura: furar ou não furar, eis a questão. Então acho melhor avisar logo ao mundo que só há três possibilidades de furarem a orelha dela:
1ª.  passando sobre o meu cadáver;
2ª.  quando ela atingir a maioridade legal;
3ª.  quando puder falar com a própria boca:   
 -- Papito, minhas colegas todas usam brinco, caramba, eu também quero, uai!
E tem que falar caramba e uai, pra começo de conversa. Nesta terceira hipótese ela vai ter que saber, antes de ir furar, que isso dói. E que os médicos não recomendam. E eu não vou junto, pois não sou masoquista e nem quero ser cúmplice de uma barbárie.
Em caso de acusações à minha democrática pessoa, aviso desde logo que já estou devidamente munido de trechos de teses de doutorado apresentadas em universidades de vários países civilizados, condenando o uso de brincos, piercings, tatuagens ou qualquer outra prática típica das sociedades primitivas que seja agressiva ao importante órgão denominado pele.
A bem da verdade, esse não foi o primeiro entrevero relativo à Laura, que ocorreu na gestação, quando minha cunhada fez um projeto Feng Shui para o quarto dela. Minha primeira sensação, que preferi não manifestar naquele momento, para não magoá-la e por ser uma forma de carinho, seria dita assim:
-- Nossa, que horror! – Era tudo cor de rosa, meu! – Nem pensar.
Quero todas as cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Como é que o quarto de uma fada pode ter menos cores que o arco-íris?!
A polêmica acabou extrapolando os limites domésticos, chegando a outros familiares e amigos. Mandaram-nos mensagens, alguns telefonaram para opinar de viva voz, consultaram conhecidos em outros países que, por sua vez, enviaram teses acadêmicas... Ou seja, fiquei plenamente sustentado para me posicionar sobre o assunto.

De uma amiga do peito:
-- Eu daqui do meu canto não dou palpite. Achei muito ponderado o Ilmo. Sr. Pai da Laura. Acho que colocar pulseirinhas etc. (até tornozeleiras ficam charmosíssimas) é uma boa. É capaz até de lançar moda, porque a proposta tem it pacas. Eu aplaudo. Mas gostaria – acho que todos nós – de ouvir a Ilma. Sra. Mãe da Laura, pra ficar mais democrático.
Da minha filha mais velha:
-- É melhor que fure agora, porque mais velha é mais fácil pra inflamar!
De uma sobrinha:
-- Deixa ela furar a orelhinha! É a melhor idade para isso... Pense como fazem com os meninos, a circuncisão nesta idade é coisa comum... Pense que daí ninguém vai perguntar: "É menino?"
Resposta do Imperador Papito:
Ocorre que eu acho brincos, piercings, tatuagens e outros balangandãs, coisas de trogloditas. Acho bonito nos índios, mas índio é índio, né? Pra mim, brinco da Natureza é orelha. 
Se eu deixasse furar as orelhas da Laura agora, quando somos eu e a mãe quem precisa decidir tudo por ela, estaria sendo desonesto com minha opinião e, pior, com minha consciência, posto que não sei se ela escolheria furá-las caso já tivesse capacidade mental para escolher isso. Então prefiro deixar que ela decida quando já puder verbalizar conscientemente seus desejos, e aí não me oporei, porque se tratará de uma vontade explicitada por ela própria. Talvez vocês tenham razão quanto a ser esta a melhor idade para extravasar os primitivos instintos trogloditas que todos trazemos atavicamente dentro de nosso inconsciente, mas eu não tenho certeza, apenas admito como talvez. E talvez é pouco pra mim, pequeno demais para o tamanho do meu amor por ela. 
Outra coisa: na mesma medida em que pretendo ser um pai liberal, pretendo também ser um pai capaz de formar uma filha que não faça coisas porque seja moda ou costume, ou porque todo mundo faz, ou porque isso é assim desde que o mundo é mundo; tenho pretensões pedagógicas maiores que isso. Também sei que, agindo dessa maneira, serei freqüentemente chamado de arrogante e repressivo e antiquado; se esse é o preço das utopias, vou pagá-lo. Meu sonho é que um dia, na maturidade, minha filha seja o que for porque, em cada mínima coisa, criticou e escolheu ser assim ou assado, totalmente livre, inclusive daquilo que lhe foi passado porque Papai ou Mamãe a ensinaram desse modo. Sou assim porque escolho ser assim, é o que desejo para ela, compreendem?
Sobre circuncisão, não me consta que seja coisa comum. Aliás, fimose é exceção, não a regra. Com bastante punheta, nenhum menino precisa de circuncisão, a menos que seja judeu ou um caso de prepúcio patológico. 
Já que Laura será uma menina sem brinquinhos, quando alguém perguntar se é menino ou menina eu posso até mostrar a bucetinha dela e pronto, tá definido o gênero, simples assim, sem qualquer dúvida possível. Também não sei se ela, quando for sexualmente madura, escolherá gostar de homens ou de mulheres – o que, pra mim, é absolutamente indiferente, desde que ela sinta muito prazer. E, caso alguém diga
Nossa, como ele é bonitinho!  
... eu sempre posso responder:
-- Ela é lindíssima; bonitinho é o corno do seu pai.
Penso em tudo isso, e penso em muito mais. Exatamente porque penso em tudo isso, mantenho as três hipóteses de furarem a orelha dela agora.
Também podem ficar lindas as correntinhas no pescoço e as pulseiras, acho até mais elegantes e charmosas. Eu até tenho duas ou três correntinhas de ouro, que nunca usei e agora pertencem a ela, porém correntes são totalmente perigosas em qualquer pescoço, especialmente de crianças. Então combinamos assim: não dou palpite nos costumes de ninguém mas, até segunda ordem, a Laura fica só com o corpinho lindo que trouxe ao mundo.
Assim falou Zaratustra. Então vamos à sentença transitada em julgado – para os não afeitos à terminologia jurídica nacional, é aquela que não tem mais apelação em nenhuma instância.
O Supremo Tribunal do Reino Zimmermann Aranha, onde sou imperador por desígnio de Deus, decreta em última instância: Laura não usa brinco nem colar.
Mais tarde poderemos até reformar esta sentença; por agora, tornozeleira tá bom demais, e só para ocasiões especiais. Por oportuno, conto que sempre gostei mais das mulheres quando nuazinhas em pelo (o que nunca diminuiu meu gosto por lingeries e outros fetiches).

Quem quiser que fure seus filhos; minha filha não furo eu.

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