terça-feira, 28 de maio de 2013

15 - MINHA RIDÍCULA ESTREIA NO CRIME

No feriado de Finados, às 7 da manhã, eu passeava pelas ruas próximas de casa com minha filha de 8 meses no carrinho, como costumo fazer diariamente. Temperatura amena, céu nublado, uma calma apropriada para quem quer homenagear os parentes idos, ou para os idosos refletirem um pouquinho sobre a velocidade do tempo existencial, ou ainda curtir o feriado esticado numa cidade com praias e paisagens lindas.
Como eu e ela somos bem conhecidos por toda a vizinhança, já tínhamos dado alguns "bons dias" quando sofremos uma tentativa de assalto. Um rapaz de bicicleta, musculoso, com aparência de uns 20 anos, parou perto de nós com a mão no bolso da jaqueta (como quem estivesse segurando um revólver) e falou de cara feia:
-- Perdeu, tiozinho! Joga a carteira no chão e chuta pra cá.
Em 60 anos de vida, dos quais 55 morando em São Paulo, dos quais 12 trabalhando à noite em clubes noturnos bem e mal afamados (inclusive em bairros que nem o Lobisomem freqüentava), jamais fui assaltado. Naquela época cansei de ir a bares e bilhares durante as madrugadas, nas quebradas da Liberdade, Lapa, Vila Brasilândia, lugares cheios de malandros, sem presenciar nenhuma ocorrência parecida. Nem brigas eu vi nesses locais, nunca. E olha que eu carregava sempre um violão de concerto ou uma guitarra importada, muitas vezes às 4 da madrugada. Aliás, jamais sequer um policial me parou para pedir documentos.
Neste nosso país, habitado e governado por gangsters de todos os tipos e tamanhos, nunca pude decidir se devia atribuir isso a uma sorte fenomenal ou a alguma excepcional proteção dos meus anjos da guarda; possivelmente as duas coisas. Quando ouvia algum amigo relatar ter sido assaltado eu tentava imaginar qual seria a minha reação; como princípio, sempre achei que nunca se deve resistir – entrega o ouro e pronto, não se arrisca a ser morto ou ferido. Porém o fato concreto, sei hoje, é que não é possível estabelecer um padrão de comportamento para qualquer situação semelhante: trata-se de um momento único, pois um episódio assim – o primeiro assalto – é tão único como o nascimento e a morte.
Tudo durou quinze segundos, se tanto; no meu coração de pai, uma eternidade inteira. O que me espanta, agora que estou apenas contando, é a incrível velocidade de trabalho do cérebro, muito mais rápida que a reação dos hormônios, mesmo da adrenalina. Pensei instantaneamente na Laura e puxei o carrinho para trás de mim; em seguida pensei que alguém realmente armado não fica com a arma no bolso, pelo contrário, trata é de mostrar claramente que está ali com um revólver ou uma faca, e (vejam que bobagem!) naquele instante lembrei-me dos filmes onde o bandido acredita que o mocinho tem mesmo um trabuco dentro do bolso, e vacila. Aí bati com força a mão direita atrás da bermuda e fiquei segurando a bunda – ora, se eu podia acreditar que o bandidinho estava mesmo com uma arma no bolso, ele também não poderia saber se eu estava ou não armado – pensamento ridículo, reconheço, mas foi o que fiz. Em seguida dei um passo à frente e falei:
-- Vem buscar, vagabundo!
Se minha cara expressava, como imagino, o ódio demoníaco que eu sentia naquele instante – não por mim que, estando sozinho, provavelmente teria entregue a carteira, mas pelo instinto de paternidade, que é superior a tudo na existência, o carinha deve ter borrado as calças: ali eu era um dragão maligno.
E quem é que sai com a carteira no bolso pra dar uma volta no quarteirão com o nenê no carrinho àquela hora da manhã de um feriado?! Dei mais um passo na direção dele e repeti, acenando um chamamento com a mão esquerda:
-- Vem. – desta vez sem exclamação, friamente, com ódio infinito.
O assaltante arregalou os olhos, espantado como quem visse o Diabo encarnado, e saiu pedalando a toda, virou a esquina sem olhar para trás, fugiu, sumiu. Felizmente pra mim e talvez pra ele também, pois se eu tivesse dado mais um passo – e ia mesmo andar até o bandido – teria esganado o sujeito até sair-lhe sangue pelos olhos e orelhas; tenho certeza de que isso é o que teria acontecido se ele não me matasse logo no primeiro tiro. Ainda fiquei alguns segundos ali, parado no meio da rua, aparvalhado, sem nenhum nervosismo ou qualquer outra sensação que não de raiva mortal. Nunca senti aquilo. Nunca imaginei que pudessem aflorar em mim tais instintos homicidas.
Voltei imediatamente para casa com a Pacotinha (que na verdade já estava bocejando), deitei-a na cadeirinha do carro e saí rodando pelo bairro – quem sabe ainda via o bandidinho cretino. Mas foi então, cinco minutos depois e somente quando meu nenê estava de novo em segurança, dormindo como dormem os anjos, que meu corpo liberou sua carga de adrenalina: o coração deve ter ido a 200, a pressão a 20 por 11, as mãos tremiam, os músculos do corpo inteiro estavam duros, doía tudo.
Minutos depois cruzei com um carro da Polícia, fiz sinal, eles pararam, relatei o ocorrido ao casal de policiais, descrevi o bandidinho – gozado que fiquei com a fotografia dele (cara, cabelo, bermuda, jaqueta, bicicleta) perfeitamente gravada na memória. O policial me contou que já tinham recebido dois telefonemas naquela última meia hora, estavam justamente dando uma busca no bairro.
Meu pai fôra campeão de tiro no exército, 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna. Meu avô Zimmermann foi delegado durante 18 anos no interior, época em que eu era criança e adolescente. Por isso, como nunca tive proibições de qualquer espécie a respeito de armas, fossem de brinquedo ou de verdade, aprendi a manejá-las, porém nunca tive qualquer atração especial por elas. E todas as coisas que eles me ensinaram – sobre armas, criminalidade e atitudes adequadas em situações de emergência – sempre estiveram guardadas nalgum lugar do cérebro que não teve outra utilidade senão lembrar carinhosamente dos meus velhos queridos. Hoje, durante uma fração de segundo, essa memória teve sentido concreto, muito além da simples saudade deles:
(1º) não tenha uma arma;
(2º) se tiver uma, deixe-a em casa;
(3º) se sair com ela, não tire do coldre;
(4º) se puxá-la, não ameace; atire imediatamente no coração do bandido.
Suponho que exercer o papel de mãe durante os dias transforma muito a sensibilidade masculina de um pai. Hoje vi de novo, numa mensagem saudosista que me enviaram por email, aquela famosa fotografia da guerra do Vietnam onde várias crianças vêm correndo por uma estrada, fugindo aterrorizadas dos bombardeios de napalm, tendo ao centro uma menininha nua. Tudo que, durante 40 anos, tinha sido para mim apenas motivo de horror estético-político, fez-se pura humanidade: chorei muito. Mais tarde, enquanto escrevia isto, ainda não me acalmara de todo, e até não acho difícil entender por quê; só não atinei ainda com a razão de estar me sentindo tão triste...
*    *    *    *
Menos de um mês depois eu soube que o facínora fôra preso por assalto a mão armada, sendo já conhecido da Justiça e já condenado por tráfico de drogas. Como o vagabundo não era mais réu primário e essa prisão se dera em flagrante delito por duas viaturas da PM, quando assaltava uns turistas aqui no meu bairro, ainda teria que responder a vários processos. Mas não chegou a ser julgado, porque conseguiu fugir da delegacia onde estava preso provisoriamente. 
Só que deu um tremendo azar: aqui mesmo, em Ubatuba, pouco depois tentou roubar um casal idoso e levou um tiro de pistola .765 na testa – o velho era um policial civil aposentado. Pior: não morreu; ficou tetraplégico, cego, surdo e mudo. Virou um zombie, um morto-vivo, o que eu sinceramente lamento.
Não posso entender como é que um meliante pode ser imbecil ao ponto de cometer mais de uma dúzia de assaltos em quatro dias consecutivos num mesmo bairro de uma cidade pequena. Também não é fácil entender por qual razão, estando ele de fato armado com revólver calibre 38 de 6 balas (das quais felizmente não havia usado nenhuma) fugiu de mim – será que não foi a mim que ele enxergou, mas a "alguém" bem mais assustador? – pois a cara que ele fez antes de fugir era de absoluto horror, coisa para ser descrita por Edgar Alan Poe, algo assim como a de um vampiro quando vê a luz do sol ou um crucifixo de prata. Será que a Laura e eu temos uns protetores especiais? Ou eu é que sou mais feio do que gosto de admitir?
Perguntas bestas, não? Então só mais umazinha: cês não acham que eu levo um certo jeito pra repórter policial?



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