terça-feira, 28 de maio de 2013

18 - AUTOBIOGRAFIA PRECOCE

Em janeiro de 2006 me encomendaram um concerto para quarteto de violoncelos e orquestra sinfônica, formação inexistente na bibliografia musical. Seria feito com a Akademisches Orchester Basel, da Suíça, onde trabalha uma grande cellista, Monica Forster Correa, que tocou em cameratas minhas quando morava no Brasil. Escrevi, fui pago, e então pediram que eu escrevesse uma breve biografia para publicação num jornal de lá.
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Logo que eu nasci minha mãe percebeu que eu tinha mãos de cirurgião, porém meu pai achou que eu tinha olhos de oftalmologista. Já os meus tios achavam que eu tinha orelhas de otorrino, joelhos de ortopedista, pele de dermatologista ou barriga de gastrocirurgião, além de chorar exatamente como um psiquiatra. Só minha madrinha discordava de tudo: era óbvio que eu respirava como um pneumologista. Daí que, embora nunca ninguém tivesse dito que eu devia ser médico, fui sempre estudando na direção da área médica.
Meu pai era escrevente de cartório e violinista amador. Não era propriamente um Yehudi Menuhim, pois quase não tinha tempo de pegar no instrumento, porém punha alma e coração nas árias de ópera e cançonetas italianas. Trabalhava feito um mouro para pagar um bom colégio aos filhos. Minha mãe cantava bem e, embora tivesse chegado ao nível universitário antes de casar, escolheu a mais antiga, difícil e mal remunerada de todas as profissões jamais inventadas: esposa e mãe.
Ao chegar no exame vestibular de Medicina eu já tocava um tiquinho de piano e tinha descoberto que violão era quase tão bom quanto sexo, com uma vantagem muito importante: o violão nunca tinha dor de cabeça e nunca reclamava de nada, nem da barba mal feita. Como eu não tinha o menor ânimo para estudar Física, Química e as outras matérias do exame, acabei entrando na minha 7ª opção da lista de faculdades: Medicina Veterinária, na USP. Tentei durante um ano, o suficiente para descobrir que eu adorava bichos, só que no Jardim Zoológico e no Geographic Channel. Ou seja: fui um aluno medíocre mas, em compensação, as meninas da Faculdade de Biologia eram lindas e o meu violão melhorou muito nesse ano.
Minha irmã cursava Advocacia e meu irmão Engenharia, ambos também na USP. Depois de todos os anos de enormes sacrifícios dos meus Velhos, como é que eu ia chegar pra eles e dizer que queria ser músico de jazz? O remédio foi fazer novo vestibular e ver meu nome na lista da Faculdade de Medicina (humana, dessa vez) em Botucatu. Fui assuntar e, após 22 dias lá, me convenci de que viver no mínimo 6 anos numa província seria impossível, por boa que fosse a cidade, e que eu morreria de tédio muito antes disso.
E agora? Que rato sou eu? Como é que vou pedir pro meu pai comprar os meus cigarros? E pedir a Mamãe uma graninha pra pagar cinema pra namorada? Ó, não! Vagabundo, não!
Fiz novo vestibular e fui estudar História, de novo na USP. Além de gostar das matérias, eu tinha tempo de sobra para continuar tocando nos barzinhos, compor minhas canções, estudar harmonia, namorar bastante e, principalmente, “lutar” sem armas contra a ditadura fascista que tivemos entre 1964 e 1982.
E virei músico, num país em que essa profissão vem logo abaixo de lavador de latrinas, ao menos para quem seja rigorosamente honesto em seu compromisso existencial com a Arte. Eu já sabia, quando saí da faculdade, que não poderia ser feliz fazendo qualquer outra coisa que não fosse Música. Mais: só fazia e continuo fazendo aquilo que quero, quando quero, como quero, onde quero e porque quero. Em resumo, só faço músicas porque amo a música; quem não gostar delas, pode vaiar e jogar-me tomates. É por isso que meu automóvel é um velho Chevrolet 1989, mas é também por isso que tenho gasto intensamente a minha vida fazendo só o que me dá prazer e sobrevivendo somente da minha profissão.
Nunca fui violonista clássico, embora tenha estudado as técnicas espanholas. Toquei muito jazz, tive bandas de blues, muita bossa nova, tangos e boleros. Toquei em rádio, TV, teatro, boate, cabaret, circo, bordel, praça pública e carroceria de caminhão. Fiz de tudo, mas sempre quis, basicamente, ser arranjador e compositor. E odeio reger: não tenho a menor vocação pra ditador. Tendo tocado durante 30 anos, hoje sinto uma enorme preguiça de pegar o violão; gasta-se muito tempo e trabalho para estudar o suficiente, e eu não resisto: sempre acabo largando o instrumento para pegar a caneta.
Nunca toquei fora do Brasil. Meu único professor renomado foi H. J. Koellreutter. Estudava com ele 1 ano, ficávamos de mal por 6 meses, depois fazíamos as pazes, e assim durante 12 anos, ou seja: não tenho o perfil dos acadêmicos, portanto sou o típico autodidata, só aprendo na base do errando e procurando acertar. Entre uma briga e outra, fiz com ele e minha mulher, Maria Emília Tosin, virtuose de piano, uma série de 12 programas na Rádio Cultura FM – "Ouvido e Consciência", coisa de Primeiro Mundo.
Tive duas indicações para o Prêmio Sharp (que é somente brasileiro) como melhor arranjador. Na Europa, que eu saiba, apenas o Trio Basso Köln e o quarteto Cello a Quatro tocaram coisas minhas. Nos Estados Unidos, dois violonistas tocaram minhas peças, em Boston e Nova York. Então 90% de todas as minhas composições, em 43 anos como músico profissional, são inéditas, inclusive duas sinfonias, dois concertos para piano, um para cello e flauta, um para cravo, um para quarteto de cellos. De tudo que fiz, a criação de um novo contraponto (apotonal) é o que julgo mais importante do ponto de vista teórico.
Hoje moro numa linda cidade praieira e só dou aulas de violão para diletantes. Tenho um curso audiovisual pronto de História da Música, com mais de 5.000 imagens e 130 gravações, porém ainda não achei ninguém interessado, nem mesmo na Universidade de Taubaté, próxima daqui. Quando chego perto de desesperar, lembro que Mozart foi enterrado como indigente; e quem sou, pobre mortal?! Aí, em vez de chorar de desgosto, fico com muita raiva, lamento a minha condição humana, escrevo mais música, e lembro a definição de Koellreutter: música é. 

[ Frederico Zimmermann Aranha, editado por Irene Zwetsch ]
Basiléia / Suíça, janeiro de 2006



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