Em janeiro de 2006 me encomendaram um concerto
para quarteto de violoncelos e orquestra sinfônica, formação inexistente na
bibliografia musical. Seria feito com a Akademisches Orchester Basel, da Suíça,
onde trabalha uma grande cellista, Monica Forster Correa, que tocou em cameratas minhas quando
morava no Brasil. Escrevi, fui pago, e então pediram que eu escrevesse uma
breve biografia para publicação num jornal de lá.
*
* * *
Logo que eu nasci minha mãe percebeu que eu
tinha mãos de cirurgião, porém meu pai achou que eu tinha olhos de
oftalmologista. Já os meus tios achavam que eu tinha orelhas de otorrino,
joelhos de ortopedista, pele de dermatologista ou barriga de gastrocirurgião,
além de chorar exatamente como um psiquiatra. Só minha madrinha discordava de
tudo: era óbvio que eu respirava como um pneumologista. Daí que, embora nunca
ninguém tivesse dito que eu devia ser médico, fui sempre estudando na direção
da área médica.
Meu pai era escrevente de cartório e violinista
amador. Não era propriamente um Yehudi Menuhim, pois quase não tinha tempo de
pegar no instrumento, porém punha alma e coração nas árias de ópera e
cançonetas italianas. Trabalhava feito um mouro para pagar um bom colégio aos
filhos. Minha mãe cantava bem e, embora tivesse chegado ao nível universitário
antes de casar, escolheu a mais antiga, difícil e mal remunerada de todas as
profissões jamais inventadas: esposa e mãe.
Ao chegar no exame vestibular de Medicina eu já
tocava um tiquinho de piano e tinha descoberto que violão era quase tão bom
quanto sexo, com uma vantagem muito importante: o violão nunca tinha dor de
cabeça e nunca reclamava de nada, nem da barba mal feita. Como eu não tinha o
menor ânimo para estudar Física, Química e as outras matérias do exame, acabei
entrando na minha 7ª opção da lista de faculdades: Medicina Veterinária, na
USP. Tentei durante um ano, o suficiente para descobrir que eu adorava bichos,
só que no Jardim Zoológico e no Geographic Channel. Ou seja: fui um aluno
medíocre mas, em compensação, as meninas da Faculdade de Biologia eram lindas e
o meu violão melhorou muito nesse ano.
Minha irmã cursava Advocacia e meu irmão
Engenharia, ambos também na USP. Depois de todos os anos de enormes sacrifícios
dos meus Velhos, como é que eu ia chegar pra eles e dizer que queria ser músico
de jazz? O remédio foi fazer novo vestibular e ver meu nome na lista da
Faculdade de Medicina (humana, dessa vez) em Botucatu. Fui assuntar e, após 22
dias lá, me convenci de que viver no mínimo 6 anos numa província seria
impossível, por boa que fosse a cidade, e que eu morreria de tédio muito antes
disso.
E agora? Que rato sou eu? Como é que vou pedir
pro meu pai comprar os meus cigarros? E pedir a Mamãe uma graninha pra pagar
cinema pra namorada? Ó, não! Vagabundo, não!
Fiz novo vestibular e fui estudar História, de
novo na USP. Além de gostar das matérias, eu tinha tempo de sobra para
continuar tocando nos barzinhos, compor minhas canções, estudar harmonia,
namorar bastante e, principalmente, “lutar” sem armas contra a ditadura fascista
que tivemos entre 1964 e 1982.
E virei músico, num país em que essa profissão
vem logo abaixo de lavador de latrinas, ao menos para quem seja rigorosamente
honesto em seu compromisso existencial com a Arte. Eu já sabia, quando saí da
faculdade, que não poderia ser feliz fazendo qualquer outra coisa que não fosse
Música. Mais: só fazia e continuo fazendo aquilo que quero, quando quero, como
quero, onde quero e porque quero. Em resumo, só faço músicas porque amo a
música; quem não gostar delas, pode vaiar e jogar-me tomates. É por isso que
meu automóvel é um velho Chevrolet 1989, mas é também por isso que tenho gasto
intensamente a minha vida fazendo só o que me dá prazer e sobrevivendo somente
da minha profissão.
Nunca fui violonista clássico, embora tenha
estudado as técnicas espanholas. Toquei muito jazz, tive bandas de blues, muita
bossa nova, tangos e boleros. Toquei em rádio, TV, teatro, boate, cabaret,
circo, bordel, praça pública e carroceria de caminhão. Fiz de tudo, mas sempre
quis, basicamente, ser arranjador e compositor. E odeio reger: não tenho a
menor vocação pra ditador. Tendo tocado durante 30 anos, hoje sinto uma enorme
preguiça de pegar o violão; gasta-se muito tempo e trabalho para estudar o
suficiente, e eu não resisto: sempre acabo largando o instrumento para pegar a
caneta.
Nunca toquei fora do Brasil. Meu único professor
renomado foi H. J. Koellreutter. Estudava com ele 1 ano, ficávamos de mal por 6
meses, depois fazíamos as pazes, e assim durante 12 anos, ou seja: não tenho o
perfil dos acadêmicos, portanto sou o típico autodidata, só aprendo na base do
errando e procurando acertar. Entre uma briga e outra, fiz com ele e minha
mulher, Maria Emília Tosin, virtuose de piano, uma série de 12 programas na
Rádio Cultura FM – "Ouvido e Consciência", coisa de Primeiro Mundo.
Tive duas indicações para o Prêmio Sharp (que é
somente brasileiro) como melhor arranjador. Na Europa, que eu saiba, apenas o Trio Basso Köln e o quarteto Cello a Quatro tocaram coisas minhas.
Nos Estados Unidos, dois violonistas tocaram minhas peças, em Boston e Nova
York. Então 90% de todas as minhas composições, em 43 anos como músico
profissional, são inéditas, inclusive duas sinfonias, dois concertos para
piano, um para cello e flauta, um para cravo, um para quarteto de cellos. De
tudo que fiz, a criação de um novo contraponto (apotonal) é o que julgo mais
importante do ponto de vista teórico.
Hoje moro numa linda cidade praieira e só dou
aulas de violão para diletantes. Tenho um curso audiovisual pronto de História
da Música, com mais de 5.000 imagens e 130 gravações, porém ainda não achei
ninguém interessado, nem mesmo na Universidade de Taubaté, próxima daqui.
Quando chego perto de desesperar, lembro que Mozart foi enterrado como
indigente; e quem sou, pobre mortal?! Aí, em vez de chorar de desgosto, fico
com muita raiva, lamento a minha condição humana, escrevo mais música, e lembro
a definição de Koellreutter: música é.
[ Frederico Zimmermann
Aranha, editado por Irene Zwetsch ]
Basiléia / Suíça,
janeiro de 2006
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