quarta-feira, 29 de maio de 2013

29 - AS PRAIAS DA PATAGÔNIA


É chocante mas, tirando pingüim e foca, quem é que vai tomar banho de mar numa praia da Patagônia?!
Olha o que diz o release de uma agência turística argentina:
A temperatura média no verão é 10°C, com mínima de 4°C.  A melhor época do ano para visitar a Patagônia depende do que você quer visitar ou vivenciar. Por exemplo, o verão é melhor para caminhadas, ver os lagos cristalinos, observar geleiras, visitar os parques nacionais, observar fauna, realizar cavalgadas etc. No verão os dias são muito longos; já o inverno é indicado para quem quer curtir o branco e o fascínio da neve, com uma boa gastronomia e os famosos vinhos na beira da lareira. Os ventos são frios e fortes em qualquer época do ano. 
Aí não diz nada sobre praias nem banhos de mar, diz?  Será porque os chilenos e argentinos não querem promover as praias da Patagônia? Serão burros? Talvez fãs de Pinochet ou Cristina Kirchner?
Eu lamento pelos familiares e amigos do carinha, e mais ainda porque era jovem e perdeu uma existência, mas cês não acham que ele merecia ser comido por quatro orcas, em vez de duas?
Ah, é muito nerda pro meu gosto...


28 - CACETE

Recebi mensagem da minha amiga Baronesa, a respeito de um videozinho que publiquei na Internet sobre os 200 anos do nascimento de Richard Wagner.
Nélson Rodrigues disse: Todas as vaias são boas, inclusive as más. Esta sua, Sra. de Nhumirim, é das mais malvadas.
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Wagner, acho que o Sr. fez porque tinha que fazer... texto broxante... e medíocre... ''artistas desonestos'' é de doer, quais os honestos?... pela madrugada!... e um trem que não acaba, listagem de românticos... um por um... funcionário público fazendo relatório na marra... e eu anelando por W.!
(...) lembro que Munique + Speer filmados pela Leni fizeram cenas brilhantésimas sob a música wagneriana... que aula esplêndida de História sairia disso! há muito o que descobrir e contar.......
foi a sua primeira aula inaceitável !
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Nem vou copiar a mensagem inteira, foi daí pra baixo. Levei um cacete. Foi mais do que uma vaia, foram apupos, praticamente uma lapidação. Lamento que a Sra. não tenha postado esses comentários diretamente no meu blog; seria mais instigante e talvez uns 2 ou 7 dos meus leitores ficassem mais ilustrados, quem sabe até contentinhos de alguém ter escrito essa diatribe que eles podem achar merecida mas não têm tempo a perder. 
Helene Bertha Amalie Riefenstahl, de apelido Leni, só é conhecida por ter sido a cineasta que dirigia filmes de propaganda para Adolf Hitler -- aquele paranoico esquizofrênico que fazia o possível para tornar a cada dia mais ridículo o seu bigodinho e a cada noite mais cruéis os seus delírios patológicos. Na juventude, Leni tentara ser bailarina, mas não foi feliz; Adolf tentara ser pintor de quadros, mas também não foi feliz. Juntos, deram  certo, ao menos até 1945, quando ele desapareceu e ela foi filmar tribos negras na África.
Aos 80 anos se encheu disso tudo e virou fotógrafa submarina. Faleceu em 2003, aos 101 anos de idade, possívelmente comida por umas orcas preto-e-brancas, coitadas. Há especialistas em arte cinematográfica que a consideram um gênio; a tal respeito me calo, sei muito pouco, porém vou perguntar ao Danilo Warick (meu primo cineasta que trabalha na Europa), a Lucas dos Santos (cineasta emérito e compositor premiado) e à Baronesa de Nhumirim (crítica de cinema tão linda quanto impiedosa). De Leni Riefenstahl a Hitler, deste a Richard Wagner.
Cujas ideias sócio-políticas sempre foram rigorosamente fascistas. Não que ele desse a mínima importância a isso, ou a qualquer coisa da qual não pudesse tirar proveito pessoal; protegido por seus princípios amorais, dedicou-se sempre com afinco à prática de imoralidades. Em outras palavras: quando não estava escrevendo música genial, Wagner estava sacaneando alguém. 
Hitler tinha só 6 aninhos quando Wagner morreu. Quando escreveu seu livro "Minha Luta", na prisão, o maluco já escolhera a trilha sonora perfeita para o nazismo. Juntou a fome com a vontade de comer. Tudo isso vocês já sabiam, tá tudinho no Google; só estou aproveitando para explicar que diabo estou eu  fazendo aqui no Facebook. 
(1.º) Tenho absoluta certeza de que poucos dos meus facebookers sabem quem foi Albert Speer, portanto não se interessariam em ler aqui, ao som da "Cavalgada das Valquírias", um estudo sobre as relações estéticas entre um gênio da música e um arquiteto megalomaníaco.
(2.º) Não é uma aula do meu curso audiovisual de Introdução à História da Música; é um excerto, a parte final de uma única aula.
 (3.º) Conforme está escrito em letras grandes no início do vídeo, não é uma aula sobre Wagner; é sobre o final do período estético chamado Romantismo.
(4.º) Não acho que seja mera listagem burocrática de autores românticos; são alguns dos maiores compositores contemporâneos de Wagner, ao som de uma das mais lindas interpretações de uma das mais perfeitas canções de uma das melhores óperas jamais escritas
(5.º) Se alguma vez aparecer aqui na minha página um texto falando qualquer coisa boa de um nazista, só há duas possibilidades: ou é falso ou eu esquizei definitivamente. 
Tudo isto posto e argumentado, ordeno que
1.    a Sra. ajoelhe no milho – pode ser de pipoca, pra não ferir vossos belos joelhos -- e medite sobre o efeito dos raios gama nas margaridas dos campos da Bavária;
2.     peça-me perdão;
3.     renegue imediatamente tudo que me escreveu;
4.     jure por Deus que não me vem mais defender esses nazistinhas que o lixo da História já se encarregou de reciclar;
5.     cante dez vezes nossa canção favorita enquanto chupa drops de aniz.      
         



http://www.youtube.com/watch?v=pES9nedkML8

terça-feira, 28 de maio de 2013

27 - QUEM MATOU O GATO ?

Talvez seja uma questão de biorritmo, não sei; o fato é que não funciono bem na parte da tarde. Não consigo ser totalmente feliz entre 13:00 e 17:00 horas, mais ou menos, o que pode explicar em parte a minha alegria nos muitos anos em que trabalhei como músico “da noite”. Nos países mais atrasados e corruptos do mundo (como Somália, Burundi, Timor Leste, Brasil...) é costume estar calor nesse período, portanto as pessoas honestas preferem fazer sua sesta enquanto os gatunos e políticos aproveitam para arquitetar suas maracutaias.
-- Então por que você resolveu ir morar em Ubatuba?! – perguntam-me os amigos quando falo dessa minha idiossincrasia. – Devia ter ido morar na Suíça, meu!
Ocorre que tem algumas coisas que eu detesto ainda mais do que trabalhar à tarde, sendo a principal delas o frio, e lá é gelo durante nove meses do ano. Quando a temperatura atinge incríveis 15ºC a turma fica pelada e vai correndo pra piscina, coisa boa pra deixar pingüim feliz. E, já que estou falando em coisas que odeio, acabo de voltar à frase anterior porque o Bill Gates resolveu corrigir automaticamente o meu pingüim, tirando-lhe o trema. Só que pinguim é “pingo pequeno” de mineiro, uai! Senão fica como me aconteceu outro dia, ao escrever a letra da música “O Pato” para um aluninho sabido:

O pato vinha cantando alegremente – quem quem
quando o marreco sorridente pediu
para entrar também no samba...

-- Fessor, cê esqueceu o ponto de interrogação. – corrigiu-me o garoto.
Eu sempre soube que patos não falam, apenas perguntam, de modo que suspirei fundo e até considerei explicar-lhe por que razão fizeram mais uma reforma ortográfica na língua portuguesa, qual seja facilitar a vida léxica de países que já produziram tantos literatos importantes, como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé-Príncipe e Timor Leste. Claro que poderiam fazer tais gentes ler um pouco de Camões, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, José Saramago, esses escritorezinhos antiquados, porém isso levaria muito tempo e daria a eles um trabalhão, além de deixar nossos acadêmicos sem mais o que fazer senão tomar chá com bolinhos-de-chuva.
-- Unificar o idioma, eis o busílis – disseram magníficos escritores como José Sarney, Marco Maciel, Paulo Coelho e Ivo Pitanguy – chega ou querem mais?
Desisti de explicar, até porque teria também que contar a ele que a Sorbonne deu a Lula da Silva um título de Doutor Honoris Causa, e aí ficaria muito mais fácil explicar-lhe antes a Teoria da Relatividade, né não? Ora pois...
Odeio autocorreção, autoformatação, autoajuda, automóvel, autoqualquercoisa; podem deixar por minha conta, combinado? Se não gostarem, que vão tomar no toba (como se diz nas Minas Gerais e já sabia Guimarães Rosa). O pingüim é meu, então metam-se com os seus e deixem os  pingüins dos outros em paz. Espero que ninguém no espaço sideral ou cibernético interfira no meu direito ao livre arbítrio: quero do jeitinho que escrevi, absolutamente sic e não sick.
Por exemplo: nas minhas seis décadas de existência a palavra cu já foi cú, depois virou cu , depois virou cú de novo, voltou a ser cu e, mais uma vez, é cu sem o acento, espero que agora definitivamente, seja em Lisboa ou em Díli, capital do Timor Leste, onde o idioma mais falado é o tétum. Por que não deixam a gente falando que-nem o Machadão, e os timorenses falando lá o idioma que eles inventaram, hem? Alguém tem alguma coisa contra o tétum? Será que vão corrigir também a Cesária Évora?
Para constar (e não me encherem mais o saco), eu conheço perfeitamente a nova ortografia; só não uso aquilo que considero besteira, e estamos conversados. O que eu ia contar – e já estaria contando se o Microsoft Office não me aparecesse para atrapalhar – é uma coisa mais importante do que a reforma ortográfica de 2009 ou saber que pato e parente só servem pra sujar a casa da gente: vou dar-lhes o privilégio de conhecer a minha agenda existencial diária. Caso vocês estejam aí dando uma risadinha irônica, quero saber quantas agendas existenciais diárias vocês conhecem, ahn? Então.
05:30 ___ Acordar, verificar se tenho ao menos uma coisinha doendo, vestir-me, deixar a cara minimamente suportável aos mortais com alguma sensibilidade estética.
05:40 ___ Tomar um golinho do café de ontem e fumar meu primeiro tabaco, que é pros olhos abrirem até a metade.
05:50 ___ Tomar meu primeiro cafezinho quente e fumar meu segundo cigarrinho, o que fará meu cérebro tentar responder às primeiras questões existenciais do dia: onde estou?; quem sou eu?; de onde venho?; para onde vou?; Deus existe?; sou feliz?; o que é a Verdade?
06:00 ___ Comer duas fatias torradas de pão-de-fôrma (que me perdoem os acadêmicos, mas Dona Edwiges, minha professora de Desenho no ginásio, ensinou que forma é outra coisa, e eu acreditei, pois ela entendia dessas coisas, até épuras era capaz de rebater sem pestanejar, a danadinha).
06:03 ___ Fumar meu terceiro cigarrinho (baixo teor, é claro, que dá um câncer light, conforme dizem os médicos enquanto sopram suas fumaças na minha cara). Tudo isso, até aqui, enquanto leio os emails que chegaram sem anexos, pois ainda não tenho, a esta hora da madrugada, energia espiritual suficiente para aturar tanta bobagem inútil; esses ficam pra depois, quando eu já estiver com ao menos metade dos neurônios ligados.
06:11 ___ Acender meu tabaco nº.4, o que me deixará quase acordado por inteiro, podendo aí começar a ler o jornal no computador.
06:12 ___ Vou lendo: o ministro que roubou, os juízes do Supremo que absolveram o ex-governador ladrão, a presidenta com A que não sabia de nada, o general que não gostava de gays, o outro ministro jurando que não roubou, o grande centroavante que marcou seu primeiro gol em vinte partidas... De repente acordo de vez, quando vejo uma foto de Dom Lula e Dona Tótem abraçados. Paro de ler, pois já começo a ficar mal do fígado – o Grande Apedeuta, logo cedo!, ninguém merece... De qualquer modo, já sei de cór todas as notícias, inclusive as da semana que vem.
06:25 ___ Dar partida e esquentar o motor do meu veículo, enquanto vou queimando o nº.5 e sentindo aquele prazer sensual que Carlos Gardel descreveu tão bem no tango “Fumando Espero”. Podem até chamar de viatura, se preferirem, mas carro não. A menos que queiram me ofender, porque o meu é um Monza Bala 2.0 ano 1989, e quem já teve um, sabe o que isso significa, especialmente em dias frios. 
Escuta aqui, você que está lendo estas bobagens e possivelmente sorrindo da minha atual condição financeiro-automotiva: no papelzinho do IPVA está escrito que eu tenho um “carro de coleção”, tá sabendo? Daí que não pago mais imposto e aquele verde-camuflagem (que só os anos conseguem criar) me faz reconhecido em qualquer lugar por onde passo; por acaso aquele seu prateadinho básico inconspícuo consegue isso!?
Falando nisso, se alguém souber onde tem um carburador GM de época pra vender, por favor me avise, porque já procurei em todos os desmanches do litoral Norte e não há meio de encontrar um.   
06:40 ___ Agora sim: já estou pensando a todo vapor, minha pressão arterial atingiu os necessários 135 por 90, minha filhotinha me deu um baita beijo bem melado, o mundo é bom e a felicidade até existe. Estou legalzão, quase eufórico, e minha hérnia vertebral me avisa que continuo devidamente encarnado.
06:50 ___ Vamo que vamo. Primeiro deixar Dona Emília na escola onde leciona Arte, pois ela estará dentro da sala de aula cinco minutos antes de bater o sinal, haja furacão ou tsunami, mesmo sabendo que os primeiros desinfelizes só começarão a entrar dali a dez minutos, que alunos podem ser ignorantes mas geralmente são espertos pra caramba.
07:00 ___ Deixo a Laura na EMEI, não sem antes transmitir os recados dela às professoras (as princesas não pedem, é claro; mandam pedir): passar de novo o filme do Patati & Patatá, dois palhaços muito imbecis e sem graça, cuja melhor piada é caírem sentados no chão, mas ela adora; e repetir ao menos um pedaço do Peixinho Nemo ou aquela cena em que a Branca de Neve dança (tesudinha como sempre, ou melhor, como ficou depois que foi morar com os 7 anões, pois antes era tão sem graça quanto a Gata Borralheira antes de entrar na carruagem-abóbora).
07:10 ___ De volta ao lar doce lar, livre para tomar muito café e fumar muitos cigarros até completar a leitura dos emails, assistir todos os anexos, passar por todas as doutrinações de autoajuda, rever aqueles que assisti faz uns cinco anos e agora estão circulando de novo... Dependendo de quantas mensagens afetuosas chegaram nesse dia, posso ir à luta, pois ainda falta responder à pergunta principal – quem sou eu? – porém isso é secundário, já que com Deus e Jesus finalmente ao meu lado estou devidamente capacitado a dizer quem eu não sou. Ótimo, já é um bom começo. 
07:30 ___ Tendo assim sobrevivido a tanto amor e carinho, e a tão sinceras tentativas de salvar minha alma e minha sanidade mental, posso finalmente entregar-me ao prazer de ler os emails da minha amiga Marquesa de Mococa, que é também Baronesa de Nhumirim, mas isso agora também ficou secundário, porque marquesa é mais.                                                           
07:50 ___ Pronto, li todos. Leitura preliminar, por certo, que Sua Alteza é ilegível, mais misteriosa que John Le Carré antes da página 300, mas eu sabia de antemão que não ia entender nada. Vou reler, pra ver se confirmo que foi mesmo o mordomo quem matou o gato do Edgar, ainda que eu nunca tenha ouvido falar no Edgar e muito menos soubesse que ele tinha um gato. Releio mas termino em dúvida: se ele, o Edgar, era o único com razoáveis motivos para cometer o crime, por que aquela menininha aparece de inopino na história, en passant, como quem não quer nada, como quem não tem nada a ver com nada, como um banal E.T. venusiano, perguntando aos céus:
-- "Quem foi que falou aí – Agora é a minha vez de ficar por cima!?”
... sendo que eu ainda nem sabia que tinha alguém por ali, e muito menos que um estava por baixo de outrem? Hmm... isso não está me cheirando nadica de nada bem. Isso foi no email de ontem, contando que o gato entrou em óbito induzido (ou seja, foi assassinado). No de hoje ela me chama de estúpido, porém conta aquela parte da história em que aparece a tal menininha extra-terrestre, que é a chave da compreensão do mistério – e conta escrevendo com aquela sua nova técnica literária que ninguém até hoje pensou em usar como artifício de suspense, na qual os tipos gráficos são em cinemascope, feitos para a tela do antigo Cine República, com suas 2000 poltronas (e mesmo assim a gente tinha que sentar do meio pra trás, senão perdia metade do filme). Em tipos gráficos tamanho 96 só aparece uma linha de cada vez com três ou quatro palavras, então fico tentado a recomendar que ela consulte seu oftalmologista ou compre um monitor de plasma com 42 polegadas, mas desisto da ideia porque ela provavelmente vai me xingar de coisa pior que “estúpido”,  aí eu fico tristinho,  mando-a tomar no cu, ficamos de mal, essas coisas... E vejam só: não foi a menininha venusiana nem foi o mordomo quem matou o tal gato do Edgar – aliás, não foi ninguém; o gato se suicidou porque fôra (fora é antônimo de dentro, mas como eles não entendem de antônimos em Guiné-Bissau, isso é supérfluo), repito: o gato dele se matou porque fôra rejeitado pela cadelinha do vizinho. Filha da mãe! (a cadelinha, não a Marquesa); e poodle, inda por cima. Mas que gato mais besta, sô!, tanta cadela boa solta por aí, doida pra dar até prum gato deprê... Bem feito, gato idiota, sifo!
[Por oportuno: meu caro Bill Gates, pode enfiar o seu sifão no rabo.]
O resto da minha agenda vou tentar resumir, senão vira novela, e agora já resolvi que vou pôr na seção de crônicas. E ainda são oito da manhã, vai ser um dia cheio... Assim, vou pôr por aí; depois alguém traduz para o tétum e vocês já ficam avisados, param por aqui mesmo, a menos que estejam morrendo de vontade de saber como o amor é lindo.
08:30 ___ Estou na agência bancária, no centro da cidade (digamos assim, que eu às vezes aprecio um eufemismo, dado que Ubatuba está mais pra rally off road), tendo conseguido chegar até aqui sem atropelar nenhum bicicleteiro filho-da-puta trafegando pela contramão. Meu tio Hercílio era um canalha, é sabido, mas tinha razão numa coisa: caiçara é espírito de ex-escravo que reencarnou aqui pra se vingar de todos nós que em outras existências fomos brancos e feitores. Cumprindo pacientemente o meu karma, deposito um chequinho de aluno particular de violão e me sinto melhor: o cheque especial sai do roxo-velório pra ficar no vermelho-alerta-nuclear.
08:45 ___  Sentadinho e fumando na cabeleireira – eu ela deixa, é minha cúmplice na contravenção tabagística. Então a manicure, que eu nunca vi mais magra nem mais feia, me vê enrolando um cigarrinho de palha (fumo de corda importado do Rio Grande do Sul, que eu sou pobre porém sou chique) e me pergunta (fazendo o gestual correspondente) se eu sei que o certo é lamber no sentido vertical, ao que respondo:
-- Ora, então não sei?! Pois é a minha especialidade, madame, comecei a lamber antes dos 2 anos de idade. E olha que nunca chupei um picolé na vida, só gosto de sorvete de casquinha...
09:00 ___ O cabelo ficou meio mal cortado, que eu sou o único cliente masculino daquele salão e ela está com pressa, mas com tão pouco cabelo não é preciso muita arte nem frescura, e eu continuo bonito como sempre. Até porque deixei de cortar com barbeiros quando finalmente tomei consciência de que eles ficam meia hora batendo tesoura na orelha da gente só pra cortar meia dúzia de cabelinhos, e só sabem falar de futebol e mulher gostooosa, coisas mais chatas. Só os tarados e broxas ficam falando de mulher gostosa; mulher é pra degustar, comendo ou conversando ou mesmo só olhando essa maravilha da Criação, não é pra ficar falando dela, uai!... Ah, quer saber? – vai dar, meu!
09:10 ___ De volta ao lar, já estou com saudade da Laura, e ainda faltam quase três horas pra ir buscá-la na escola. Como não fumo durante as aulas, aproveito que ainda faltam vinte minutos e concentro a dose de nicotina: fumo dois enquanto jogo um pouquinho de Atari.
09:30 ___ Minha primeira aula do dia. O carinha de 12 anos me pede para ensinar-lhe "Cry Me a River".
-- Como é?! “Cry Me a River” ?! De Arthur Hamilton?! Você conhece Julie London?!
-- Quem?
-- Deixa pra lá.
Era uma nova “Cry Me a River”, de um tal Justin Timberlake, tão débil que nem foi capaz de inventar um título novo. Vou à Internet pra conhecer e aproveito para traduzir a letra, pois o carinha ainda está na fase do this is a table, what is this?  

Você era o meu sol,
você era a minha terra,
mas não conhecia todos os modos  
de eu te amar.
Então você arriscou
e fez outros planos,
mas aposto que você não pensou
que eles um dia viriam abaixo,
pensou?

Não, ela não pensou, tenho certeza; se pensasse nisso, ou se ao menos pensasse, não ia namorar um sujeitinho desses. Sei dizer que ganhei 30 real por três acordes e 45 minutos de caridosa paciência. Fiquei feliz ao saber que Mr. Timberlake tem uma rendosíssima griffe de moda jovem – quando não conseguir mais vender discos nem para a madrinha dele, já estará milionário e não precisará entrar na fila do auxílio desemprego. Melhor ainda: quanto mais cedo ficar bilionário, mais cedo o mundo fica livre de uma tal anta sonora, embora isso não resolva o problema, pois para cada um que desiste da carreira "artística" surgem outros mil. Segundo a associação americana dos produtores de discos, 200 "artistas" por semana lançam seu primeiro CD, ou seja, 10.400 novos por ano, e acumulando, acumulando, uma verdadeira praga. Não adiantaria cortar a língua deles, sempre acaba sobrevivendo aí um Oasis da vida, ou um Green Day... são invencíveis, pois sua capacidade para a feiura e a epigonia é coisa que só pode ser explicada pela tal condição humana que nem os filósofos honestos até hoje resolveram bem o que é.
10:15 ___ O segundo aluno faltou, prova insofismável de que Deus existe e é bom. Tomara que não seja por causa do vírus H1N1, atualmente epidêmico; basta que seja apenas um dedo mindinho quebrado. Então vou aproveitar para responder alguns emails, senão meus amigos podem gostar menos de mim, e são tão poucos...
Considerando que eu dei minhas primeiras aulinhas de violão em 1962, estou completando 50 anos como professor de música. Meio século! Nunca, em nenhum momento, estive sem alunos: 1 ou 2, nos períodos em que ensaiava e tocava com minhas bandas, até 120, quando minha mulher e eu tivemos uma escola de música. A menos que eu seja um caso patológico de masoquismo, é no mínimo presumível que eu goste de ensinar música, não é? Aceitando como verdade que eu gosto de fazer isso, aproveito para dizer que há alunos e alunos – o maior ou menor talento nunca fez diferença pra mim; mas o gosto pelo ato de tocar, sim, é isso que conta. Nunca espero que sejam gênios, porém sempre quero perceber que eles tiram prazer de fazer música por si mesmos. Mas há aqueles que não se dedicam minimamente durante a semana e chegam à aula com sua enorme cara de pau, dando ridículas desculpas e achando que estão me pagando o bastante pra ficar ali estudando com eles, como “dama de companhia”. São esses que, quando faltam à aula, me fazem dar graças a Deus. 
11:00 ___ Segunda aula do dia: "Retalhos de Cetim". Êba!, Benito de Paula, já melhorou mir veiz (até porque podia ser alguma “música” do Alexandre Pires ou Bruno & Marrone, já pensou?). Saí no lucro, ganhei mais 30 real e, feliz ou infelizmente, só terei mais aulas às 7 da noite, isso é que vida boa. Meu avô me chamaria de chupim, aquele que vive à custa de mulher professora; na minha família Zimmermann era praticamente uma indecência imperdoável casar com uma professora, absoluta falta de decoro.
11:55 - Saio correndo pra buscar a Laura e (se não cair a chuva que está ameaçando) ficar 15 minutos brincando com ela nos balanços e escorregadores do parquinho, enquanto levamos leros estratosféricos: hoje ela é a Bel e eu sou o Garibaldo; amanhã ela vai ser a Emília e eu vou ser o Conselheiro – talvez ela queira ir me preparando para o futuro próximo, deve me achar ótimo no papel de burro falante.
12:20 ___ Pegar a mamãe na escola e ir correndo pra casa, que ela precisa almoçar seu chuchu com beterraba e estar de volta à escola antes das 13:00. Hoje à noite, morrendo de fome e após 10 horas aturando os protogênios que ela insiste em ensinar, provavelmente vai comer dois sanduíches de filé acebolado na frança com maionese Hellman's, engordando 300 dos 100 gramas que emagreceu no almoço mas jurando que em dezembro vai estar usando biquíni branco na praia; enquanto a espero almoçar fico com a Laura na Internet, sendo ela quem usa o rato e navega, eu só censuro quando ela quer entrar na Xuxa: pornografia infantil é crime, não pode, e eu tenho minhas responsabilidades de pai, não é mesmo? Duro é que ela consegue assistir dez mil vezes certos desenhos, incluindo o Mickey, que eu odeio (meu melhor amigo é home sexual, porém detesto bichinhas, como esse ratinho besta). O diabo é que ela cada vez gosta mais do Mickey e da Minnie, outra chatinha (sou muito mais a Cuca ou a Bruxa Malvada do Oeste, cá entre nós). Eu bocejo mas aguento firme –  de que coisas é capaz o amor, reflito, e medito ainda: bem, a Laura já tem uma profissão garantida na vida – dubladora de desenhos, decora todas as falas de todas as personagens de todos os desenhos de todos os canais.  Ou então roteirista: ontem inventou uma história do Punzinho Fedido que queria namorar uma Punzinha Cheirosa... mas vou poupá-los do final dessa história levemente escatológica.
12:55 ___ Táxiiii! Papaaaaaiiiê, a Momãe tá prooontaaaa!!!
Então lá vamos nós levar de novo a professora para o seu cruel destino;  a babá sobe com ela, eu vou almoçar, fumar na minha sala, ler um pouco, depois tirar uma pestana – ô, vidão, sô! Nada como ser um bom chupim...
14:30 __ Vou mexer com minhas músicas e audiovisuais. Preciso acabar hoje sem falta o Hino da Escola Estadual Sueli Figueira dos Santos, que Pro Emília me pediu para compor, mesmo eu achando altamente duvidoso que a Diretora e o Supervisor e a Delegada de Ensino admitam que isso seja mesmo um hino (no You Tube vocês vão poder escutar, é a última faixa do vídeo “Jazz & Cia – parte 4”).
15:30 ___ Consegui. Dou uma entrada no estúdio Sound Up, do maestro Mauro Juliani, pra ver se vai rolar algum trampinho extra (pois, se não pintam umas partituras, como é que eu vou trocar os pneus do Monza Bala 89?). Nicas, então aproveito pra encher um pouco o saco desse meu afilhado músico/produtor, faço mil-e-umas perguntas irrespondíveis sobre engenharia de áudio, ele suspira mas tem uma paciência de Jó, afinal ninguém mandou ele me convidar para padrinho de casamento, eu bem que aconselhei insistentemente que escolhesse lá um tio rico, que nunca o aborrecesse e ao menos desse uns presentes interessantes.
17:00 ___ A empregada vai embora e eu vou passear com a Laura, visitar os cachorros e gatos do bairro, ir à sorveteria Kibon (que é o único de verdade), então brincar na pracinha perto de casa, ou pegar ondas de barriga nalguma praia balneável, comer batatas chips num quiosque ou pastel de palmito no China. A opção é ir à biblioteca municipal, onde eu tiro um livro e ela tira outro, sendo que eu escolho rápido, ela demora meia hora até decidir por alguma coisa tipo “As Cobras da Mata Atlântica”, ou (de novo!) ir ao aquário ou ao Tamar. Enquanto isso eu tento entender como é que alguém pode gostar tanto de olhar tartarugas – todas iguais, lentas, não falam com a gente, umas bestóides, mas ela adora, talvez porque na saída sempre come uma tartaruguinha de chocolate com baunilha, o que deve compensar a chateação dos quelônios. Vou escutar mais uma vez as lições dela sobre as diferenças entre jaboti, cágado e tartarugas de couro, cabeçudas, olivas, carnívoras e sei lá que outras espécies, coisas da mais alta importância, pois ela conhece todas aos 5 anos, portanto em breve estarei fudido, vou ter que escutar que "papai não sabe nada de nada, é um burrinho, mas eu te amo".
18:00 ___ Buscar a Professora e levá-la à outra escola, para alguma reunião de professores onde serão lidas trocentas atas da Secretaria de Educação e vão planejar trocentas maneiras de não ensinar nada que valha a pena ser ensinado. Sempre que tenho oportunidade digo às professoras e diretoras que elas são o braço armado do sistema, preparando as novas gerações cada vez mais imbecilizadas, e aproveito pra contar que meu hino é "Another Brick On The Wall", do Pink Floyd:
“We don't need no education,
we don't need no mind control,
hey, teacher, leave our kids alone".
Obviamente elas me odeiam só um pouquinho, mas não podem fazer grande coisa, porque bem ou mal entrei duas vezes na USP, fui aluno de Florestan Fernandes e Paulo Freire, assistente de Koellreutter no Instituto de Estudos Avançados da USP, li (e entendi!) Platão, Kant, Hegel, Engels, Marx, Gramsci, Nietzsche, além de Shakespeare (no original), Flaubert (no original), Garcia Lorca (no original)... cês sabem que modéstia nunca foi um dos meus defeitos. E outros quetais, quer dizer: comigo o buraco é muito mais embaixo, não adianta espernear, e nem vem de garfo que hoje é dia de  sopa.
Na minha escola (Liceu Pasteur, sem falsa modéstia) não havia reunião nenhuma, nem dia da Árvore, das Mães, dos Cambau, nada disso. Era assim: estuda pra caramba, de segunda a sábado, das 7 ao meio dia, depois se forma (ou sai e vai estudar no Colégio Ipiranga ou em alguma espelunca para vagabundos), depois escolhe a faculdade preferida, faz vestibular e entra e boa. Ou larga a Medicina ou Jornalismo no segundo ano – como eu e meu sobrinho Mestre Internacional de Xadrez fizemos – e vai ser feliz na vida fazendo outra coisa, simples assim. Ou seja, faz como Paulo Francis:
-- Prefiro ser vaiado na rua do que aplaudido na Academia Brasileira de Letras.
Aí uma professora lá, fazendo a melhor cara de ironia que sua inteligência permite (eu apostaria em algo entre 82 e 90), me diz:
-- Então o Senhor é mesmo um gênio, não é? – ao que respondo:
-- Não Senhora! Meu Q.I. nunca passou de 140, graças a Deus! Ocorre que eu não sou um preguiçoso mental, e não finjo que estudo, e nunca estive preocupado em fazer carreira nem virar diretor de nada, e detesto ser ignorante, e sou sinceramente honesto com a profissão que escolhi, só isso. E a Senhora, é?
20:10 ___ Minha última aluna acaba de telefonar, muito envergonhada: não vai poder vir à aula de hoje. Eu não disse que Deus é bom?! Aleluia, Gretchen! Ôpa!, isso não; aleluia, Juliette Binoche!!! Mais um tabaquinho em sua homenagem. 
20:30 ___ Supervisar a comidinha da Laura; ou, melhor dizendo, apreciar o esporco que ela faz comendo sozinha e dizendo: "eu já sei fazer tudo sozinha". Sabe mesmo, inclusive levar tombos homéricos e viver com os joelhos ralados, fora as mordidas que ela leva dos coleguinhas – pois morrem todos de ciúme dela, tanto os machinhos como as femeazinhas, enquanto eu vivo ameaçando abrir um processo por bullying no Conselho Tutelar, he he, a diretora e as professoras agora me tratam melhor do que se eu fosse primeiro ministro.     
22:15 ___ Laura dorme. Finalmente livre para namorar, escutar música, assistir algum filme ou, o que é mais comum, ajudar Dona Emília nos tais planejamentos e relatórios e outras idiotices ditas pedagógicas.
24:00 ___  Devidamente podre, rango um queijo quente com tomate e deito para assistir um pedacinho de telejornal. Detalhe: nunca tenho insônia.
Descobri há muito tempo que a felicidade não se encontra em nenhum lugar, só no coração da gente. Meu avô Fritz sabia disso, pois me ensinou: mais vale uma mula velha no quintal da gente do que dois burros novos pastando no latifúndio alheio. E mais não digo nem me perguntaram.

                                 Dvcor, non  dvco. Assinado: Fredericus Rex.

ADENDO – como eu antecipava, escutaram o hino lá na escola e disfarçaram educadamente uma arregalada de olhos que poderia ser traduzida assim:
-- Mas isso é um hino?!



26 - LES COUSINS

Claude Chabrol, um dos criadores da estética “nouvelle vague” no cinema francês, fez um filme chamado “Os Primos”, onde um deles era caipira bonzinho e o outro era metropolitano sacaninha, um casador e outro comedor, ambos bonitões para os padrões de boniteza masculina da época – anos 1960.
Para compensar aquela exasperante lentidão da “nova onda”, todas as atrizes eram gostosas e a história rolava em Paris, de modo que a gente nem percebia aquela paradeira geral que nos permitia dar uns amassos na namorada sem perder o fio da meada. Aliás, era sobre isso mesmo o roteiro: muitas moças já estavam cansadas de preservar a virgindade até casar, o que podia demorar muito e até nem acontecer, e os moços já estavam cansados de resolver no banheiro ou no puteiro o desejo que ficava ainda pior depois de deixá-las a seco em suas respectivas casas de família, coisa muito triste, totalmente desnaturada. Ou vocês não choram ao saber que, naquele tempo, muitas moças davam o cu só para não estragar o hímen? Monstruoso isso, não acham? Mas era assim, posso afirmar: sem o “selo de garantia”, que garantia tínhamos nós, os machos, sobre a pureza de sentimentos da nossa futura esposa, hm? Futura mãe de nossos filhos, caramba! – quem ia fazer nenês num útero assim, já visitado antes sabe-se lá por quantos inescrupulosos membros?
No filme, ambos os primos acabam angustiados, até porque nouvelle vague sem angústia existencial não é nouvelle vague. Eu assisti muitos e, na época, não gostava, achava um pé no saco. Lembro, por exemplo, de “Noite Vazia” (do Walter Hugo Khouri), no qual só apreciei mesmo aqueles cinco minutos com a Odete Lara e a Norma Benguel peladonas, que eram realmente... momentos artísticos. Nos filmes franceses também tinha sempre umas fêmeas nuas estimulantes, como Brigitte Bardot, Isabelle Adjani, Jeanne Moreau, Anna Karina, Jean Sebberg, Danielle Darrieux, Geneviève Bujold... Em todo caso, foi com elas que eu decidi deixar de ser caipira bonzinho namorador e passar a ser cosmopolita sacaninha comedor. Eu, e a maioria dos então adolescentes, meditando horas no banheiro de casa sobre a crueldade da existência, enquanto punhetávamos desvairadamente sob inspiração da revista Fatos & Fotos ou das revistinhas pedagógicas do Prof. Carlos Zéfiro.
Para ser honesto, não consegui tal transformação, pela banal razão de que na minha família, apesar de tantas primas lindinhas (ou por causa disso mesmo), as primas deviam ser pensadas como orangotangos machos peludos. Daí não comi nenhuma, o que prova cabalmente: arrependimento não mata – ou eu não estaria aqui escrevendo estas besteiras.     
Lembrei-me desse assunto porque ontem, tarde da noite, já no segundo ou terceiro uísque Old Eight (oito meses envelhecido, ou cês imaginam que músico velho bebe scotch?), fiquei sabendo que minha prima Luciane Warick é também – vejam só que coincidência – filha do meu primo Maurício e irmã do meu primo Danilo, e filha também de uma morenaça chamada Yara, que meu primo malucão catou e não largou mais – ele é só maluco, besta não.
Esse não foi um conhecimento fácil, devo dizer-lhes, pois antes levei uma espinafração em regra da minha mulher, apodando-me epítetos dos quais o mais suave foi "velho senil". Mas eu não sabia, juro que não sabia. Não: que eu era um velho senil, já sabia; o que eu ainda não sabia eram os detalhes dessa primice. Embora, ainda que soubesse, não mudaria nada, pois continuaríamos todos sendo primos, porém quero contar que essa foi uma revelação tão surpreendente quanto encantadora – na minha família só temos gente encantadora, com perdão da imodéstia, porque os que não são já nascem abortos. Bem, não nascem, propriamente; desnascem. Entenderam? Nem eu, mas escutem, e depois me digam se eu sou ou não um caso adiantado de Mal de Alzheimer. Caso seja, não chorem por mim; em vez disso, mandem-me litros de azeite extra-virgem, que eu pretendo morrer como um espinafre feliz e apetitoso.
Minha avó materna, Dona Izabel (uma chatinha que me proibia doces pela manhã) era prima em primeiro grau de Dona Maria (que não era uma chatinha). Essa Dona Maria doravante será chamada aqui simplesmente de Maria Avó, pra não confundir com a Maria Mãe, que não era prima e só aparece nesta explicação para produzir com o Hugo, meu primo em terceiro grau, um pimpolho musical totalmente desvairado. Maria Avó era bem legalzona e até “recebia” um preto-velho, Pai Matias, batuta para dar bons conselhos.
Sei dizer que, um belo dia, Maria Avó casou-se com certo Engenheiro Warick, tão fudido em suas praias mecânicas que foi o primeiro brasileiro a construir enormes canhões em cima de enormes vagões ferroviários que depois viajavam em bitolas estreitas para dar tiros grandiosamente fedidos em plantações de eucalipto nas adjacências da Revolução Constitucionalista de 1932. Pois foi num intervalo desses tiros, assim que uma fumaça se dissipou e antes que uma nova fosse disparada, que esse Eng.º Maurício Warick vislumbrou, apaixonou-se, enamorou-se, noivou e finalmente se casou com a Maria Avó. Aliás, foi aí que ela começou a virar avó; antes era só uma honesta moça católica, Filha de Maria e tudo, conquanto já com uma quedinha para o espiritismo. Não, caramba, cês não tão entendendo: essa outra Maria, de quem ela era filha, era a Virgem Maria, só isso. Ah, esquece. Mas prestem bem atenção, posto que essa família tem pelo menos três Maurício Warick: o Avô Eng.º, o Tio Normal e o Sobrinho Anormal.
O prefixo grego "a", que quase todo mundo pensa dar sentido negativo à palavra nele grudada, é de fato conhecido no mundo da lingüística e da semiologia como "alfa privativo": não nega pôrra nenhuma; indica transcendência. Portanto, anormal, saibam vocês que ignoram isso, não quer dizer que não seja normal; significa "aquele que transcende a normalidade", caso desse meu primo, o terceiro dos Warick, aqui denominado Maurício Anormal.  Entenderam?  Que bom!  É por isso que eu só gosto de escrever coisas bonitas para serem lidas por gente inteligente; odeio os muito burros, tanto que, se eu fosse Herodes, não perdia tempo mandando matar criancinhas com pintinho, matava logo todos os cretinos de qualquer gênero.
Recapitulando: o Eng.º, o Normal e o Anormal, todos Maurícios — que os Warick devem achar o nome mais lindo do mundo, com a vantagem de não estar na Bíblia Sagrada, até porque é um nome meio bárbaro, proveniente do cruzamento de romanos com ostrogodos e eslavônios.  O pior, nisso tudo, é que Maurício III vai continuar sendo chamado de Inho até no Juízo Final, ninguém merece...
-- Cê viu a última do Mauricinho?!
Há muitos e muitos anos, no tempo em que os bichos ainda falavam, eu ia a festas de aniversário na Lapa ou em Osasco ou na Vila Mariana ou no Pari ou em Campinas ou Ribeirão Preto ou Itararé ou alhures, e tinha sempre uma ou duas moças com seus filhotinhos ainda babões e desdentados. Tudo primo meu, um monte. Família produtiva – verdadeira coelheira, parece que não faziam outra coisa além de sururucar, o que não é verdade; faziam sim, posso testemunhar. Mas que eram aplicados em fazer filhos, lá isso eram, graças a Deus. E não estou falando só das crianças dos Warick: falo de Santos, Ribeiros, Zimmermanns, Aranhas, Gorskis, Colbachinis, Arruda Campos, Martins... era um bando de nenês, e a cada festa apareciam mais nenês nos filmes Super-8 que o Américo sempre fazia. Passava o tempo e os antigos nenês eram substituídos por novos, enquanto os mais taludinhos entupiam as festas e subiam nas paredes e no teto e na cabeça da gente, todos primos, cês não fazem ideia de quantos primos eu tenho – se fosse decorar o nome de todos, não me teriam (cuidado com o cacófato) sobrado neurônios nem pra decorar a tabuada do 8, que até hoje me causa uma certo desconforto. 
A Luciane certamente estava lá, no meio dessa criançada, mas aos meus olhos devia ser como uma japonesa a mais no metrô de Tóquio às seis da tarde de uma sexta-feira em dia de terremoto. Devia estar lá, acho eu, mas nem isso posso afirmar assim, na maior; podia não estar, ora!
E onde estaria, se não estivesse lá, hem?! Pois em verdade vos digo que poderia muito bem não estar lá, estando então aprontando alguma calamidade pública em parceria com a Flávia, a Veterinária, que nem é minha prima, é sobrinha. Se tivessem me falado "a Luciane, prima da Flávia", tudo bem, só podia ser aquela; agora: falar "a Luciane, filha do Maurício", não quer dizer nada: qual Maurício, cara pálida? O Eng.º dos Canhões, o Normal de Osasco ou o Anormal da Lapa de Baixo? Ou algum outro que eu nem conheço?
"Essa" Luciane eu conheço, até esteve na minha casa em Cotia City. E recebi dela vários emails, encaminhados naquela maravilhosa época da Grande Hecatombe Warickal – quem não viu "Laís do Américo x Mauricinho" perdeu coisa melhor do que a Copa de 70, dose pra Buñuel + Fellini + Almodóvar + Tarkovsky – menos que isso seria impossível produzirem. Mas o Mauricinho (ou Maurício Anormal, pra manter a nomenclatura) conseguiu sozinho essa proeza. Sendo que, num filme assim, pra botar um cartaz na entrada do cinema teriam que chamar Salvador Dali para desenhar, pois era totalmente surreal, supra-real, pra lá de real. Pensando bem, era dose pra Ionesco, Teatro do Absurdo. Ah: não havia outras Laíses na família, mas a Laís do Américo (também prima minha) era casada com Américo dos Santos Martins, um tipo visto e considerado na família assim como um Moisés depois de atravessar o Mar Vermelho sem molhar os pés – tipo Vice-Deus, manja? Já faleceu, mas dizem as más línguas que até levantou do túmulo durante aquele "Deus e o Diabo na Lapa de Baixo"; se ele levantou mesmo, não sei, mas pode até ter levantado somente pra dar muita risada junto comigo, kkkkkkk (rsrsrs) blz mano?
Finalmente, para não deixar dúvidas – vai que tem outras Lucianes, nessa família ninguém sabe – conto que essa Luciane é sobrinha da Pérola Regina, minha ex-cunhada, que me levou pra conhecer a lanchonete Twelve e a quem devo até hoje o valor de um X-Salada e uma Fanta Laranja — foi num momento, não de todo incomum, em que eu estava temporariamente falido. Só cito essa jóia da família para deixar as coisas nos conformes, bem legais (jurídicas e bacanas), já que depois de tornar-se ex resolveu banir-me de seu alegre convívio, bem como a todos os Zimmermann Aranha (exceto os três filhos que ela não tem como banir, estando condenada a todos per omnia secula seculorum).
Muito prazer, Maurício Pai da Luciane, recomendações à família.


P.S.: Perdão, Cristina Maura.

25 - JOÃO GILBERTO x TOM JOBIM

Olá Fred!
Já ouvi ao vivo de você (mas não entendi) e ainda hoje as dúvidas não querem calar:
-- Por que o João é o João (o mais "fodido" em sua opinião) e o Tom e o resto são coisas menores?
-- Tom Jobim, em termos de composição, é meu maior ídolo. O que faz você dizer que não existe na MPB nada melhor que o João, que (acho) nunca como compositor (se é que foi) teve um hit de sucesso de própria autoria?
-- Por que eles brigaram?
É só pra saber sua opinião, sem criar barracos... rs.

*    *    *    *

Vieram de Maurício Warick III essas perguntas. Dado que escrevi e dediquei a esse Sr. minha Sinfonia Fractal, elas mostram que não gasto dedicatórias à toa: se tem um assunto sobre o qual eu gostaria de esclarecer minhas opiniões, é esse aí. Então vamos tentar abrir esse barraco à visitação pública.
Quando o genial Ary Barroso apresentava um programa de calouros na TV, era comum acontecer um diálogo assim:
-- O que você vai cantar, Lucas dos Santos?
-- Eu... vou tentar cantar “Aquarela do Brasil”.
-- Ah, não vai tentar não, meu filho! Primeiro, porque não existe uma música chamada Aquarela do Brasil, sei de uma Aquarela Brasileira, até sou muito amigo do compositor... Mas isso nem vem ao caso; é que neste programa as pessoas não vêm pra tentar fazer nada, elas vêm só pra fazer uma coisa: cantar. Então você ensaia melhor, volta na semana que vem e canta mesmo, tá bom? E emendava -- O próximo candidato é... Wesleysson Silva, com quatro S... O Sr. seu pai é sueco, Seo Silva?
Ary, um dos “dez mais” em qualquer lista de quem conhece bem a música popular brasileira, era idolatrado pelos (então jovens) músicos Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim e João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Além de Ary, era coincidente sua admiração sobre Noel Rosa, Pixinguinha, Villa-Lobos, Garoto... Ambos também eram fãs da música americana, Gershwin, Cole Porter, Frank Sinatra, John Coltrane... Mas João sempre se disse sambista, enquanto Tom sempre se definiu como compositor de modinhas – e são isso mesmo, se analisamos com atenção as suas biografias musicais. Como trabalharam “juntos” muitas vezes – ou, falando em português honesto, João Gilberto gestou e pariu ao mundo algumas dezenas das primeiras gravações de composições do amigo – e juntos percorrem toda a MPB desde 1958 (e para sempre), podemos analisar certas coisas que ajudem a responder qual dos dois foi musicalmente mais importante para a nossa música. Não que isso realmente importe; é apenas uma agradável discussão inofensiva entre dois músicos sinceros, como o Maurício e eu. Pergunto: haveria um Bach sem Monteverdi, Buxtehude, Rameau, Vivaldi, Händel? Haveria uma galinha sem ovo? Ou um ovo sem galinha? Anjos têm pintinho ou bucetinha? Eu acho isso bão demais da conta, sô! Então respondo, ora!
Começando pelo disco vinil “Canção do Amor Demais”, da famosa cantora Elizeth Cardoso, chamada “A Divina” – que era, por sua vez, fã de Vicente Celestino: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer”... Das 13 músicas desse LP (long playing) Tom compôs 11, sendo as outras duas de Vinícius de Moraes, que é autor de todas as letras (pra quem não sabe, também compunha boa música, apesar do violãozinho merreca que tocava). Tom fez os arranjos da reduzida orquestra e regeu na gravação. O violonista arregimentado pelo dono do selo Festa, que jogava nessa produção todas as suas parcas economias, era um músico de cachê mixuruca, João Gilberto. Foi com ele, às vésperas de iniciarem as gravações, que Jobim teve sua grande revelação: é preciso mudar tudo.
Todas as canções eram lindas e convencionais. Todos os arranjos eram lindos e convencionais. As únicas coisas novas eram o violão e o uso que se passou a fazer das dissonâncias harmônicas – o mundo nunca tinha ouvido antes um violão tocado assim; quanto aos acordes, eram os mesmos usados pelos jazzistas americanos, mas os palpites daquele carinha tímido (e abusado) mudaram para sempre a cultura musical do Brasil. Consta que Tom e João não brigaram dessa vez, porque um gênio percebe imediatamente um gênio ainda maior; um babou, o outro emprestou o guardanapo. Essas gravações dividem em duas partes a história da música popular brasileira: antes e depois. Fiat Lux!
Eu nunca disse que Jobim e “os outros” são menores; eu disse, e gostaria de demonstrar como fato musical técnico e estético, que esses “outros” são menores do que João Gilberto. Com certeza teríamos perdido centenas de melodias maravilhosas se Tom não fosse o gênio inventor que foi; mas não haveria esse Tom Jobim a se perder se não existisse um João Gilberto anterior e superior. Outra coisa: depois do vexame total que Tom Jobim deu no famoso concerto do Carnegie Hall em 1962, foi João Gilberto – que imediatamente virou ídolo dos maiores artistas e críticos americanos – quem “limpou a barra” e explicou melhor aos gringos o tamanho de Antonio Jobim. Fosse pouco, foi com o sobretudo emprestado de João que Tom enfrentou os primeiros meses de Nova York, até conseguir algum trampo decente. Até chegar no Frank Sinatra, levou um tempão, mesmo ajudado por João Gilberto, Luiz Bonfá, Laurindo Almeida, Aloysio de Oliveira... 
João Gilberto compõe, sim, e no mínimo tão bem quanto seu discípulo. Apenas não se dedicou a isso, porque seu principal objetivo musical era a perfeição dos deuses. Escutem “Um Abraço No Bonfá” e “Bim Bom” (esta também antológica, e continuou D+ na gravação que Adriana Calcanhotto fez com o grupo Olodum)nem precisa mais.
Com quem ele aprendeu? Bem, durante o ano de 1955 estudou harmonia com Radamés Gnatalli (que foi o sucessor de Pixinguinha como arranjador da gravadora RCA Victor, autor do conhecido arranjo de “Carinhoso” para a gravação de Orlando Silva, entre outros mil que não importam aqui). João era um ótimo aluno; Tom – isso me contou Koellreutter, primeiro mestre dele, de viva voz – era pouco aplicado aos assuntos em estudo, sempre mais ocupado em tocar coisas do que em estuda-las. Foi assim também com Nadia Boulanger, mas com ela finalmente aprendeu algumas das coisas que lhe interessavam na prática.
Por que os americanos consideram João uma das grandes influências do jazz moderno? Por que nunca disseram isso do compositor de “Garota de Ipanema”?  E, já que falamos em hits, por que essa manjadíssima garota é menos conhecida internacionalmente do que “Tico-Tico No Fubá” (Zequinha de Abreu) ou “Aquarela Brasileira” (Ary Barroso)? Mas podemos pensar ao contrário: que, se João Gilberto não compôs nada que tenha chegado às paradas de sucesso comercial, Michel Teló compôs – pois um sucesso não é referência senão de si mesmo.
Liszt foi um superstar do seu tempo; Chopin não foi, embora seja hoje o compositor mais executado do mundo (ao lado de Tchaikovsky, que nunca criou uma única pausa realmente nova). Bach, em vida, foi um fracasso comercial; Beethoven passava apuros pra receber uns trocos atrasados e pagar o médico. Mozart morria na miséria enquanto seu amigo Antonio Salieri bombava no You Tube (se você nunca ouviu Salieri, não perca seu tempo). Imagino que seja muito bom fazer sucesso (não sei, nunca fiz, nem quando ainda tentava), mas na verdade, em arte, sucesso é uma coisa perigosa – quando o rebanho muge muito, no mínimo tem algum leão por perto.
Músicos brigam, e pela mesma simples razão de que pessoas brigam. O Diabo é o Outro, já avisava Sartre. Nunca ouvi dizer que João e Tom tenham “ficado de mal à morte”; eram dois músicos que trabalhavam muito para viver (e para pagar pensões de divórcios a filhos e ex-mulheres), e nunca formaram uma dupla permanente. Agora: qual é o arranjador que aceita trabalhar no disco de um cantor que pede coisas assim – “Eu quero que os 32 violinos façam só duas notas em uníssono no compasso 108, e depois fiquem em silêncio o resto da música”? Convenhamos que é um tremendo de um chato. Porém, convenhamos, estamos falando de um chato que é gênio, inalcançado e inalcançável. Daí que só cabem mesmo duas notas em uníssono no compasso 108, bobagem tentar colocar três – aliás, eu experimentei coisas assim diversas vezes, tocando junto com gravações d’Ele, e verificando que isso é uma bobagenzinha infantil.
O meu maior ídolo em termos de composição é J. S. Bach; o do Maurício é A. C. Jobim. – e não podemos dizer que um seja melhor que o outro em termos absolutos, e muito menos afirmar que algum deles seja menos indispensável para o conjunto de toda a Beleza já criada pela civilização humana. Quanto ao João Gilberto, eu sempre faço uma ressalva: é o mais importante músico brasileiro depois da chegada de Pedro Álvares Cabral. Eu conheci um índio, pajé no Xingu, que está quase no mesmo nível musical do João; por isso admito que tenha havido alguém maior antes de 1500 d.C., mas d.J.G. com certeza não teve.


24 - MODERNO x ETERNO = INFERNO

Vejam essa letra de música, que copiei da Internet:

                        66  (O Terno)

Tom: D#
                              
Intro:  A D7(9)


   A7+                                Bm7
Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar
          E7(9)
Se até cantar sobre
    A7+                                Bm7
 Me diz meu Deus o que é que eu vou cantar? ,
          E7(9)       C7+
já foi cantado por alguém,
                          Dm7          G7(9)     Ab7(9) Ab7(9) G7(9)     E7
E além do mais tudo que é novo hoje em dia falam mal?

Então não sei o que eu devo fazer,/ Pois se eu não posso inovar
Eu vou cantar o que já foi / E vão dizer que é nostalgia
E que esse tempo já passou / E eu tô por fora do que é novo,
Mas se é novo falam mal

E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente
E de repente, pode até ser bem legal / Pois já fizeram coisa boa no passado
Que eu misturo como eu quero / Com mais tudo que eu quiser

Me diz como eu posso escrever / Se só de fazer quatro versos
Uma métrica abstrata e invisível me aparece
Me dizendo que esse verso está comprido / E já devia ter parado um tempo atrás
E assim só tá piorando, olha só tá muito grande,
Olha que feio, tá enorme, faz favor de terminar!

Então não sei o que eu devo fazer, / Pois se eu fizer bem quadradão
Vão me chamar de quadradão / Mas se eu fizer muito loucura
Vão dizer que eu to maluco / E desse jeito você nunca vai ser muito popular!

Mas hoje o que toca na novela não tem graça
E vai pro rádio pra tocar mais uma vez. / Então eu corro pra internet,
Sou garoto antenado / E baixo o novo embalo quente

Que é de sessenta e seis. / Sessenta e seis

 (solo da hora de guitarra)

Do-de-ca-fo-ni-a, Do-de-ca-fo-ni-a, /Pra você!

O músico (e ex-aluno) Rafael Furtado Camargo me mandou o clip dessa música, que achei original e divertido. Quem quiser ver, tem na Internet. Nele se fala do mais antigo dilema que aflige os compositores honestos: como fazer sucesso sem ser banal. Dá pra fazer alguma coisa que não seja chamada de nostalgia, plágio, modernice ou maluquice? Mó pobrema, meu!
Tenho algumas sugestões, desde logo estabelecendo que nada é mais justo do que os jovens desejarem fazer a arte do seu tempo, em lugar de apenas repetirem as coisas passadas.
1.º) Os jovens não devem acreditar nos seus professores (e nem nas pessoas mais velhas em geral), porque eles podem estar ensinando coisas erradas (que já aprenderam erradas) ou porque não aprenderam nada (mas mesmo assim se metem a ensinar). Nem devem acreditar nos livros, pela mesma razão: errar é humano; perpetuar o erro é burrice.
Na letra cifrada abaixo, conforme publicada na Internet (e os autores podem não ter feito assim, porém são responsáveis por deixarem divulgá-la desse jeito), é indicado o tom D# (Ré Sustenido Maior); não é, pois os acordes fazem parte do campo tonal de A (La Maior). Além disso, ainda que fosse mesmo D#, é óbvio tratar-se de mera ignorância, pois ninguém escreveria com 9 sustenidos uma música que pudesse ser escrita com 3 bemóis (ou seja, em Mi Bemol Maior). Fosse pouco, o sistema usado na cifragem é cheio de inconveniências técnicas, por isso tendo sido abandonado há décadas (ao menos por quem estudou alguma Harmonia que preste).
Sugestão: estudem mais e questionem as informações recebidas; a opção, neste caso, é confiar na própria genialidade – porém lembrando que, como não nasce um Cartola novo todos os meses, a chance de ser apenas medíocre é um risco alto demais.
2.º) Uma música só existe no momento em que entra no ouvido de alguém; até então não passa de um amontoado de vibrações atmosféricas. Ora: quando eu faço música, pretendo que cause alguma sensação em alguém, e uma sensação boa – porque, se isso não me importa, bastaria eu fazer um pum bem sonoro, nem precisava de uma guitarra. Quero que alguém ouça, e que goste dela (nem que seja só minha mãe, que costuma achar bonita qualquer coisa que eu faço).
Se o desejo de criar beleza fosse a única motivação de alguém ao fazer arte, seria suficiente que ele mesmo apreciasse a obra; então, por que se preocupar com o que possam achar os outros? Talvez os artistas sejam carentes do afeto de alguém além daquele no espelho, não é mesmo? Ou, quem sabe, queiram fazer alguma coisa que dê uma graninha e seja também divertida. Seja o que for, é preciso obter alguma apreciação.
Sugestão: preocupem-se mais em inventar coisas e menos em saber que diabo pode agradar a galera – lembrando que o público em geral não passa (nem jamais passou) de um enorme rebanho mugindo e zurrando (a menos que a seus Egos baste serem acariciados por bovinos e asininos).
3.º) Não sei se entendi bem o final da letra, mas me pareceu que essa referência à dodecafonia pretende ser sinônimo de modernidade. Se foi, quero lembrar aos rapazes da banda que o “Pierrot Lunaire” (conjunto de peças dodecafônicas de Schönberg usualmente consideradas o réquiem do tonalismo) foi publicado em 1912. Se é isso mesmo, demorô, véi!
Liszt já sabia disso até bem antes, quando compôs em 1885 a sua “Bagatela Sem Tonalidade”: acabou, terminou, finou-se, c’est fini, já era. Caramba: como é que alguém pretende ser moderno se ainda compõe com acordes tonais depois de 127 anos a contar do enterro?
Sugestão: saiam dessa vida, meus jovens. E parem de usar as 12 notas, porque essas já estão mortas, podrinhas da silva, fedendo mesmo. Que tal comprarem umas guitarras fretless e deixar de afiná-las no diapasão medieval?
4.º) O título da música sugere o Apocalipse, 66.º e último livro da Bíblia judaico-cristã. É o “número da Besta”, que Bruce Dickinson (da Iron Maiden) gravou em 1982, portanto há 30 anos, já não é adolescente.  
Lembra também o ano de 1966, quando “A Banda” (de Chico Buarque) ganhou o mais famoso festival de música popular brasileira, e Sérgio Ricardo (que fôra contratado para substituir Tom Jobim) jogou o violão na plateia porque não gostou dos mugidos.
Sugestão: que vocês, do Terno ou de qualquer outro grupo musical, deixem de preocupar-se tanto com o sucesso; enquanto pensarem nisso, continuarão sendo mesmo quadrados, nostálgicos, ultrapassados, velhos, desantenados, caretas e simples misturadores. E não acho que deviam ter parado há um tempo atrás; nunca saíram do lugar.
Os zombies fazem melhor: ao menos andam.